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Carnaval, sambas e marchinhas viram tribuna política de parlamentares

Pautas do Congresso e o período eleitoral à vista transformam o feriado em marco político.

13/2/2026
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Anualmente, sambas-enredo, marchinhas e blocos transformam a maior festa popular do Brasil em tribuna. No país em que o ano "só começa depois do Carnaval", as pautas do Congresso e o período eleitoral à vista transformam o feriado em marco político.

A mistura entre folia e política não é novidade. Desde o fim do século 19, marchinhas carnavalescas ironizam governos, presidentes e o Congresso, ao traduzir em humor aquilo que, no dia a dia, afeta a vida política e social brasileira.

Não por acaso, sambas como "Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós", da Imperatriz Leopoldinense, seguem presentes no imaginário popular. O enredo é de 1989 e representa uma homenagem ao centenário da Proclamação da República.

Na Era Vargas, uma marchinha carnavalesca composta por Haroldo Lobo e Marino Pinto, atravessou o horário eleitoral, invadiu os bailes de Carnaval de 1951 em todo o país e transformou o "Retrato do velho" de Getulio Vargas em símbolo cantado de um projeto político populista.

Os versos faziam referência a uma prática dos tempos do Estado Novo, Vargas determinou que todas as repartições públicas exibissem o retrato oficial dele. Com a queda de Vargas em 1945, os quadros foram retirados. A marchinha sugeria, com humor, que o povo recolocasse o retrato "no mesmo lugar".

Com o crescimento das escolas de samba, essa vocação política ganhou força. Já ao longo da ditadura militar, enredos abordaram fome, desigualdade, racismo e a própria repressão do Estado como forma sútil de driblar a censura.

Era 1972 quando a escola de samba Unidos do Peruche escolheu o enredo "Chamada aos Heróis da Independência". O tema trouxe memórias da Inconfidência Mineira e da Revolta dos Alfaiates em uma homenagem, à primeira vista, aos 150 anos da independência do Brasil.

Por trás de um título patriótico, o samba-enredo buscou jogar luz sobre rebeliões populares reprimidas violentamente pela Coroa e lembrar heróis enforcados, esquartejados ou perseguidos, em alusão aos horrores do período militar.

Marchinhas de Carnaval têm cunho político desde Era Vargas até o governo Lula.Ricardo Stuckert/PR, Alexandre Loureiro/Riotur e Reprodução | Arte Congresso em Foco

Entre samba-enredo e acusações de propaganda antecipada

Se o Carnaval observa a política brasileira, o inverso também ocorre. A escolha da escola de samba Acadêmicos de Niterói de homenagear o presidente Lula em seu enredo acendeu uma discussão que chegou até o Tribunal de Contas da União (TCU) e à Justiça Eleitoral.

O partido Novo ingressou com representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob alegação de propaganda eleitoral antecipada, e parlamentares como a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o deputado Kim Kataguiri (Uniãol-SP) foram à Justiça questionar o samba-enredo.

Em Plenário, a homenagem também foi tema de discursos. O deputado Otoni de Paula (MDB-RJ) afirmou que o ato configura "propaganda antecipada claríssima" e corre risco "monumental" de levar à inelegibilidade do chefe do Executivo.

Ao mesmo tempo, o TCU pediu a suspensão parcial de verbas públicas destinadas à escola para avaliar a conformidade do financiamento de um desfile em homenagem ao presidente.

Por outro lado, a bancada governista nega irregularidade no repasse e comemora. Durante sessão solene de homenagem ao aniversário do PT na Câmara, a ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, chegou a cantar um trecho samba-enredo.

20 anos atrás, situação semelhante com papéis invertidos

Mas em um episódio pouco diferente, em 2006, uma homenagem da escola de samba Leandro de Itaquera ao governo do PSDB em São Paulo resultou em ação judicial movida por vereador do PT.

À época, somente o último carro da apresentação trazia referência direta ao prefeito da capital paulista José Serra e ao governador Geraldo Alckmin, com bonecos dos pré-candidatos à presidência.

Carro alegórico da Leandro de Itaquera, em 2006.Reprodução

Arselino Tatto (PT-SP), vereador na Câmara Legislativa de SP, pediu à Justiça para suspender o repasse de R$ 300 mil à escola de samba, feito pela Prefeitura de São Paulo.

Como acontece com Lula, o financiamento acontece com um montante entregue ao grupo especial do Carnaval e é dividido entre as integrantes. A bancada do PT na Câmara Legislativa ainda tentou, sem sucesso, iniciar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso.

Hoje, Geraldo Alkimin é vice-presidente da República, como aliado de Lula, mas 20 anos atrás, os dois disputaram as eleições presidenciais e o petista alcançou a reeleição em segundo turno.

Quando o refrão mira "seu deputado, seu senador"

Seja com homenagem ou cobrança, a menção em marchinhas não se restringe ao Executivo. Em 2018, na reta final da primeira tentativa de votação da Reforma da Previdência, enquanto o Planalto apertava líderes partidários, entidades de servidores se manifestaram em marchinha.

"Não vá mexer na nossa Previdência - quem votar, não volta!", diz a letra. A marchinha viralizou com vídeo que trazia caricaturas de parlamentares dançando em frente ao Congresso.

"Seu deputado, seu senador, não vá mexer na nossa Previdência.
Quem votar, não volta.
Não ganha mais nenhuma eleição."

Quando era deputado, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, também foi tema de enredo carnavalesco. Em 2016, a escola de samba Acadêmicos do Grande Vale apresentou o samba-enredo "Da Praça do Herval ao Planalto Central, o Negrinho Jorginho, Amigo do Peito do Carnaval".

Samba-enredo da Acadêmicos do Grande Vale, em 2016.Reprodução

Na ocasião, o Ministério Público Federal enviou ofício à liga das escolas de samba local com recomendação de que recursos públicos não fossem aplicados para promoção pessoal de autoridade pública, sob pena de ações judiciais.

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