O Congresso em Foco e o portal Migalhas realizaram nesta quinta-feira (26) um webinar em alusão ao Dia Mundial das Doenças Raras. O encontro reuniu especialistas para discutir os desafios impostos pelo avanço acelerado da biotecnologia, especialmente no que diz respeito à incorporação de terapias de alto custo e à sustentabilidade do sistema de saúde. A programação foi dividida em três eixos, começando pela perspectiva clínica e pela avaliação de tecnologias em saúde.
No primeiro painel, a médica e epidemiologista Jeruza Lavanholi Neyeloff, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e assessora do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, detalhou como se constrói a evidência científica antes que um medicamento chegue ao paciente.
Ao explicar o percurso que vai da pesquisa básica ao uso no sistema de saúde, destacou que "a ciência básica, ela começa muito antes da gente ter alguém usando o medicamento". Segundo ela, há um longo trajeto entre estudos laboratoriais, testes em modelos animais e as fases clínicas em humanos, até que uma terapia seja considerada apta para prescrição.
A especialista ressaltou que a exigência de estudos clínicos robustos não é burocracia, mas condição de segurança.
"De cada 10 mil, 25 mil moléculas, compostos, que a gente testa, dois, mais ou menos, chegam em estudos de fase 3. E um deles vai estar no mercado, de verdade."
Para Jeruza, isso demonstra não falha da ciência, mas a complexidade do processo e a necessidade de rigor metodológico para que o que chega ao paciente seja, de fato, seguro e eficaz.
Ela também chamou atenção para a importância de estudos bem desenhados e livres de distorções. Ao abordar o conceito de viés, explicou que a pesquisa científica busca estimar a "verdade no mundo", mas pode ser prejudicada por erros de desenho ou interpretação. Por isso, nem toda publicação basta, por si só, para orientar decisões clínicas.
Conforme a explicação da especialista, é preciso avaliar a qualidade da evidência, os desfechos analisados e o impacto real sobre a vida do paciente, e não apenas marcadores laboratoriais ou resultados intermediários.
Ao tratar especificamente das doenças raras, Jeruza reconheceu as dificuldades adicionais impostas pelo número reduzido de pacientes disponíveis para pesquisa. Ainda assim, defendeu que o padrão de qualidade não pode ser abandonado.
"Quando a gente fala de doenças raras, a gente tem um cenário bem desafiador. (…) o ideal a gente trabalhar é buscar a melhor evidência possível."
Mesmo que não seja viável realizar grandes ensaios clínicos, ela ponderou que é indispensável manter o foco em desfechos com impacto clínico relevante.
Encerrando sua participação, a epidemiologista reforçou que, apesar das adaptações metodológicas necessárias nesse campo, os objetivos permanecem os mesmos.
"A gente não muda os objetivos, que é pensar o foco dos pacientes e pensar o foco em um sistema que funcione para o maior número possível de pessoas."
Por fim, concluiu, o compromisso central é promover "a melhor qualidade de vida para o maior número possível de pessoas", conciliando rigor científico, responsabilidade na incorporação de tecnologias e sustentabilidade do sistema de saúde.