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Educação

O brincar como território de escuta, cultura e pertencimento

Entre telas e rotinas aceleradas, brincar segue sendo condição fundamental para o desenvolvimento, a criatividade e os vínculos.

Patrícia Reis

Patrícia Reis

29/5/2026 16:00

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Bebês e crianças brincam não como uma forma de passar o tempo, mas para investigar, criar e fazer descobertas. O brincar é uma forma de existir. É na brincadeira que as descobertas vão ganhando sentido e a aprendizagem acontece, pois há desenvolvimento motor, cognitivo, social e emocional.

A Convenção sobre os Direitos da Criança reconhece o brincar como direito no Artigo 31. A UNESCO defende o brincar como experiência cultural, social e educativa fundamental para o desenvolvimento humano, e a própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece o brincar como direito de aprendizagem e desenvolvimento. Em 28 de maio de 2025, a Lei 15.145 criou oficialmente no Brasil, a chamada Lei do Brincar, destacando a importância do brincar para o desenvolvimento integral das crianças. Neste ano, a legislação completa seu primeiro ano e reafirma algo que professores, pesquisadores e as próprias crianças já nos mostram há muito tempo: brincar não é perda de tempo, passatempo ou recompensa, mas uma necessidade humana, cultural e essencial para a vida dos pequenos.

Apesar do crescente processo de urbanização das cidades, da ausência de quintais nas casas e até mesmo de espaços arquitetônicos escolares que, muitas vezes, não contemplam ambientes para que o brincar aconteça de maneira potente, as crianças conseguem criar suas próprias brincadeiras. Elas são transgressivas. Elas rompem a lógica. Um levantamento do Instituto Alana mostrou que apenas 22% dos contextos avaliados apresentavam condições consideradas "ótimas" para a brincadeira livre na Educação Infantil, revelando o quanto ainda precisamos avançar na garantia de espaços verdadeiramente pensados para as infâncias.

O espaço, compreendido por autores como Loris Malaguzzi como o terceiro educador, revela que, quando a arquitetura abre espaço para a natureza, o brincar ganha corpo, liberdade e memória afetiva. Em paralelo a isso, dados divulgados pela Aliança pela Infância, com base em pesquisa da Unilever (2016), apontam que cerca de 40% das crianças brasileiras têm uma hora ou menos por dia ao ar livre, evidenciando a redução das experiências de brincar em contato com a natureza, com o corpo e com o território.

Em tempos de tecnologias avançadas e inteligência artificial, o brincar continua oferecendo às crianças sensibilidade, tempo de presença, imaginação e encontro. Pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, mostrou que 78% das crianças de 0 a 3 anos já são expostas diariamente às telas e, entre crianças de 4 a 6 anos, esse número chega a 94%. Ao mesmo tempo, nos primeiros anos de vida, o cérebro infantil cria cerca de mil novas conexões neurais por segundo, e as brincadeiras possuem papel fundamental nesse processo de desenvolvimento. A Sociedade Brasileira de Pediatria, inclusive, afirma que o brincar livre possui papel insubstituível no desenvolvimento infantil, especialmente na imaginação, linguagem simbólica, socialização e autorregulação emocional.

Natureza, imaginação e experiências livres fortalecem aprendizagens e ajudam a enfrentar os impactos da hiperconectividade.

Natureza, imaginação e experiências livres fortalecem aprendizagens e ajudam a enfrentar os impactos da hiperconectividade.Magnific

Enquanto o mundo exige rapidez, produtividade e respostas imediatas, a brincadeira desacelera e nos convida ao improviso, à escuta, à criação e à experiência vivida com o corpo inteiro. No brincar, a infância não precisa performar, produzir ou competir, apenas existir, experimentar e inventar mundos.

Brincar na terra, correr, construir cabanas, ouvir cantigas, transformar gravetos em personagens ou panelinhas em banquetes são experiências que recuperam dimensões ancestrais da humanidade, muitas vezes apagadas pela lógica tecnológica e pelo consumo acelerado.

Nesse contexto, abordagens como o Brincar Heurístico tornam-se ainda mais potentes, pois nos oferecem possibilidades de um brincar que não depende de brinquedos caros ou com funções prontas. Ofertamos materiais do cotidiano: tecidos, gravetos, pedrinhas, rolos de papel, colheres, esponjas, peneiras... Nessa abordagem, valoriza-se a ação da criança e sua relação com os materiais.

É no brincar que os vínculos se fortalecem e que bebês e crianças encontram condições reais para se desenvolver. Ainda assim, seguimos vivendo em uma sociedade que acelera a infância, reduz o tempo das descobertas e, muitas vezes, oferece mais telas do que territórios de encontro, natureza e imaginação. Enquanto o mundo insiste em antecipar aprendizagens, controlar corpos e transformar tudo em produtividade, as crianças continuam nos lembrando, por meio da brincadeira, que existir também é experimentar, criar, sentir e pertencer.

Talvez a grande questão do nosso tempo não seja se as crianças ainda sabem brincar, mas se nós, adultos, ainda estamos dispostos a garantir às infâncias o direito de existir para além da pressa, das telas e dos padrões construídos historicamente.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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