A escolha do substituto do ministro Aroldo Cedraz, que se aposentou em fevereiro no Tribunal de Contas da União (TCU), transformou-se em uma das disputas mais delicadas da Câmara em 2026. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), tem sinalizado a aliados que prefere segurar a eleição enquanto mede a força real dos candidatos para evitar conflito com seus aliados. No centro do impasse está o compromisso assumido por ele com o PT, durante sua campanha à presidência da Casa, de apoiar o deputado Odair Cunha (MG), o nome mais associado ao Palácio do Planalto para a vaga.
O problema para Motta é cumprir esse acordo sem abrir atrito com partidos que orbitam sua base e também reivindicam espaço no tribunal. Além de Odair, circulam como pré-candidatos Hugo Leal (PSD-RJ), Hélio Lopes (PL-RJ), Adriana Ventura (Novo-SP), Gilson Daniel (Podemos-ES), Danilo Forte (sem partido-CE) e Elmar Nascimento (União-BA). Fora da Câmara, corre por fora o conselheiro Cezar Miola, do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-CE), o único nome não parlamentar na disputa.
Mapeamento de votos
Mais do que administrar o acordo com o PT, Hugo Motta tenta descobrir quem realmente tem votos para disputar a cadeira. O presidente da Câmara vem conversando com líderes e bancadas para medir a densidade de cada pré-candidatura e evitar que apoios inflados no discurso desmoronem no Plenário. Em eleição secreta, a contagem informal de forças é decisiva, porque compromissos de bastidor nem sempre se confirmam na urna.
"É sabido por todos que durante a construção do nosso processo de eleição, nós fizemos um acordo com o Partido dos Trabalhadores em torno do nome do deputado Odair Cunha. Toda a Câmara sabe disso, a imprensa noticiou, e eu reafirmo aqui esse compromisso com o deputado Odair, que é um deputado equilibrado, que, mesmo sendo do PT, não tem aquele viés ideológico de extrema esquerda", afirmou Motta em 26 de fevereiro, em entrevista ao portal Metrópoles.
Por que a cadeira atrai tanto interesse
O cargo explica a intensidade da disputa. O TCU auxilia o Congresso no controle externo da administração federal e fiscaliza contratos, licitações, obras, convênios, aposentadorias, renúncias fiscais e repasses da União. Também pode aplicar sanções, determinar correções e interferir diretamente na execução de políticas públicas. Nos últimos anos, o tribunal ampliou seu peso político ao atuar em temas como contas presidenciais, orçamento secreto e fiscalização de emendas parlamentares. O TCU é composto por nove ministros, dos quais seis são escolhidos pelo Congresso e três pelo presidente da República, sendo que, destes três, dois devem sair alternadamente das carreiras de auditor e do Ministério Público junto ao tribunal.
Para deputados experientes, trata-se de uma combinação rara: mandato até a aposentadoria compulsória, alto prestígio institucional e influência concreta sobre decisões administrativas, orçamentárias e contratuais da União. É por isso que a sucessão de Aroldo Cedraz deixou de ser apenas uma disputa técnica e passou a ser tratada como uma batalha de poder dentro da Câmara.
Votação secreta torna cenário incerto
Esta será a segunda vez que a atual legislatura indicará um nome ao TCU. Um dia após tomarem posse, o Plenário aprovou o nome do então deputado Jhonatan de Jesus (Republicanos-RR) para o tribunal em votação secreta. Ele recebeu 239 votos, contra 174 do ex-deputado Fábio Ramalho (MDB-MG) e 75 da deputada Soraya Santos (PL-RJ); houve ainda cinco votos em branco. A exigência é de maioria simples, ou seja, fica com o cargo quem for o mais votado pelos colegas. Depois da Câmara, a indicação precisa ser confirmada em votação no Senado.
A instituição do voto secreto aumenta muito o espaço para dissidências, traições e surpresas de última hora. Em disputas desse tipo, um acordo de cúpula pode não sobreviver ao Plenário.
O rito formal — e a flexibilidade política
Pelo Decreto Legislativo 6/1993, aberta a vaga, os candidatos devem ser submetidos à comissão competente da Casa — no caso da Câmara, a Comissão de Finanças e Tributação —, que elabora parecer com informações para o Plenário. Também compete ao colegiado sabatinar os postulantes à vaga. Depois disso, a escolha vai ao Plenário da Câmara. Em 2023, Jhonatan de Jesus não precisou passar pela arguição, já que era o segundo dia da legislatura e as comissões não estavam instaladas.
Neste ano, a Comissão de Finanças e Tributação foi a última a eleger presidente, o deputado Merlong Solano (PT-PI). Os trabalhos da CFT começaram apenas nesta semana, com a condução do petista.
A política não termina no Congresso
Mesmo depois da vitória nos Plenários da Câmara e do Senado, o indicado ainda não entra automaticamente no tribunal. Desde 2021, o TCU adota um filtro institucional mais explícito sobre os nomes aprovados pelo Congresso. Em parecer produzido na posse de Jhonatan de Jesus, o tribunal registrou a checagem de certidões judiciais e eleitorais para verificar se o escolhido preenchia requisitos constitucionais, como idoneidade moral e reputação ilibada, à luz da Resolução TCU 334/2021.
Na prática, isso significa que a vitória política é condição necessária, mas não suficiente. O candidato precisa passar também pelo crivo interno da corte antes de tomar posse. Esse filtro institucional elevou o custo de candidaturas problemáticas e passou a pesar no cálculo dos partidos, que não querem passar pelo constrangimento de ter sua indicação derrubada pelo próprio tribunal.
A segunda vaga que perdeu força
A conta de Motta ficou mais difícil porque uma solução ventilada por aliados, acomodar interesses rivais em uma segunda vaga no TCU ainda neste ano, perdeu tração. Essa hipótese dependia de uma aposentadoria antecipada de Augusto Nardes, que chegou a ser cogitada nos bastidores. Em janeiro, a movimentação em torno de uma eventual saída do ministro alimentou a expectativa de abertura de uma nova cadeira.
Nas últimas semanas, porém, a sinalização predominante passou a ser outra: a de que Nardes tende a permanecer no tribunal até 2027, quando alcança a aposentadoria compulsória, aos 75 anos. Com isso, esvaziou-se a perspectiva de uma nova vaga que pudesse aliviar a pressão sobre a sucessão de Cedraz e acomodar mais de um grupo político.
Quais são os principais nomes no páreo
- Adriana Ventura, deputada do Novo de São Paulo, tenta se apresentar como alternativa liberal e de fiscalização. É a única mulher na disputa e construiu sua imagem em pautas de controle de gastos, eficiência administrativa e crítica à máquina pública.
- Cezar Miola, conselheiro do TCE-RS, é o único nome de fora da Câmara. Com carreira vinculada ao controle externo, ex-procurador-geral do Ministério Público de Contas e atual vice-presidente da Associação dos Membros dos Tribunais de Contas (Atricon), apresenta-se como alternativa mais técnica em uma disputa dominada por políticos. Tem o apoio dos chefes dos Três Poderes no Rio Grande do Sul, seu Estado.
- Danilo Forte é um dos nomes mais experientes do grupo. Deputado pelo Ceará, ganhou projeção em momentos como a relatoria da CPI da Petrobras, da PEC do teto de gastos e da LDO de 2024, o que o consolidou como quadro influente nas áreas fiscal e orçamentária. Deixou o União Brasil no dia 5, após queixas sobre falta de apoio interno.
- Elmar Nascimento, por sua vez, é uma das lideranças mais influentes do centrão. Ex-líder do União Brasil e atual 2º vice-presidente da Câmara, o deputado baiano chegou a lançar candidatura à presidência da Casa em 2024, mas recuou antes da votação e aderiu a Hugo Motta. Seu nome segue citado sempre que a disputa envolve articulação de bastidor e ocupação de espaços de poder.
- Gilson Daniel, deputado pelo Podemos do Espírito Santo, tem perfil municipalista. Ex-prefeito de Viana e ex-secretário no governo estadual, aposta na experiência de gestão para se diferenciar no páreo. É o mais novo entre os pré-candidatos, tem 47 anos.
- Hélio Lopes, deputado pelo PL do Rio, leva para a disputa o peso do bolsonarismo. Militar da reserva, ganhou projeção pela ligação com a direita conservadora e o ex-presidente Jair Bolsonaro. Tenta converter o capital político de oposição em competitividade para a vaga.
- Hugo Leal, do PSD fluminense, representa um perfil mais técnico e experiente. Na Câmara desde 2007, consolidou atuação em temas como infraestrutura, energia e transportes e é visto como um parlamentar de trânsito amplo entre bancadas de centro.
- Odair Cunha chega à disputa como o nome mais vinculado ao acordo entre Hugo Motta e o PT. Deputado federal por Minas Gerais desde 2003, construiu trajetória de articulação política, liderança partidária e interlocução com governos petistas, o que o torna hoje o candidato mais identificado com o Planalto.