A CPMI do INSS deve encerrar seus trabalhos na quinta-feira (26) sob uma batalha de relatórios entre oposição e base governista. O relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), prepara o parecer final da comissão, enquanto aliados do presidente Lula articulam um voto em separado para contestar as conclusões do colegiado e disputar politicamente o desfecho da investigação. O relatório de Gaspar deve ser lido na quarta-feira (25) e votado no dia seguinte caso o Supremo não determine a prorrogação do prazo da comissão.
Vice-líder do governo Lula na Câmara, o deputado Rogério Correia (PT-MG) disse ao Congresso em Foco que a base aliada está pronta para reagir ao texto do relator. A versão governista das conclusões da CPMI deve ser apresentada pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS).
Rogério também explicou a estratégia regimental dos governistas. Se o parecer de Alfredo Gaspar for aprovado, ele se tornará o relatório final da CPMI. Se for rejeitado, o presidente da comissão poderá indicar outro relator entre os parlamentares que votaram contra o texto, abrindo caminho para a votação de uma versão alternativa. "Acreditamos ter votos para aprová-lo", disse o deputado ao Congresso em Foco.
A avaliação da base é que o relatório paralelo pode deixar de ser apenas uma peça de contestação política e se transformar, em caso de derrota de Gaspar, na conclusão formal da comissão. Por isso, o governo trata a votação da quinta-feira como um momento decisivo não apenas para responder à oposição, mas para tentar impor sua própria narrativa sobre as fraudes investigadas pela CPMI.
Temer e Bolsonaro
Rogério Correia antecipou o eixo desse voto alternativo. Segundo ele, os governistas vão sustentar que o esquema de fraudes e descontos indevidos no INSS não começou no governo Lula, mas ainda na gestão Michel Temer, ganhou força durante o governo Jair Bolsonaro e só foi efetivamente interrompido pela atual administração. O texto também deve rebater a forma como a oposição conectou a CPMI ao caso Banco Master, numa tentativa de deslocar o foco da investigação para nomes e decisões ligados ao campo bolsonarista.
Na última semana, a base governista ganhou um reforço de peso com a entrada do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), um dos quadros mais combativos do PT. Ele chega à comissão para reforçar a linha de confronto adotada pelo governo na reta final dos trabalhos.
Lindbergh estreou nesse papel com um ataque direto à estratégia da oposição. "É preciso desmontar as mentiras dessa turma bolsonarista. Usam Lulinha pra esconder que escândalo do Master pega em cheio a direita bolsonarista e os aliados de Bolsonaro aqui no Congresso. Só foi aparecer o nome do Flávio Bolsonaro no celular do Vorcaro que trancaram a sala cofre", afirmou.
Lulinha como alvo
A fala resume a linha política adotada pelo Planalto e seus aliados: acusar a oposição de usar a citação a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, como cortina de fumaça para desviar a atenção de apurações que, segundo os governistas, atingiriam personagens ligados à direita e ao entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Do lado oposto, Alfredo Gaspar prepara um relatório com forte potencial de desgaste para o governo. Seu parecer deve ter mais de 5 mil páginas e pode pedir o indiciamento de mais de 200 pessoas. O relator afirma que o documento será baseado em "técnica e provas", e não em "paixões políticas". Nos bastidores, a expectativa é de que a lista inclua integrantes do governo Lula e nomes de grande repercussão pública, como o banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master.
É justamente esse cenário que levou a base governista a decidir que não deixará o texto do relator circular sem contraponto. Se o parecer de Gaspar consolidar a imagem de que a CPMI terminou apontando responsabilidades no entorno do governo federal, o custo político para o Planalto tende a ser alto. O voto em separado, assim, cumpre dupla função: servir de resposta técnica ao relatório oficial e produzir uma peça política para a disputa narrativa após o encerramento da comissão.
Nas mãos de Mendonça
A disputa sobre o conteúdo do desfecho ocorre em paralelo à incerteza sobre o próprio fim dos trabalhos. A cúpula da CPMI recorreu ao STF para pedir a prorrogação do prazo por até 120 dias, sob o argumento de que houve omissão deliberada da Mesa Diretora e do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, ao não dar andamento ao requerimento de extensão.
O caso foi distribuído ao ministro André Mendonça, que concentra agora a última esperança da oposição de manter a CPMI em funcionamento além desta semana. No Congresso, porém, o ambiente é desfavorável à continuidade. Davi Alcolumbre já negou a prorrogação pela via política ao não convocar sessão conjunta para analisar o pedido. Na prática, a oposição ficou dependente de uma decisão do Supremo para evitar o encerramento da comissão na quinta-feira.