Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Saúde
6/5/2026 12:16
O primeiro trimestre de 2026 confirmou uma mudança relevante no segmento farmacêutico global: o Mounjaro, da Eli Lilly, consolidou sua posição como o produto mais vendido do mundo. A companhia reportou vendas globais de aproximadamente US$ 8,7 bilhões para o medicamento no trimestre — um salto de US$ 4,9 bilhões em relação ao mesmo período do ano anterior. São números que ajudam a redefinir o setor. Em 2025, o produto sozinho já havia adicionado mais de US$ 11,4 bilhões em vendas adicionais em apenas 12 meses; em 2026, caminha para um patamar de faturamento que o torna, virtualmente, maior do que muitas corporações inteiras da própria indústria.
Observa-se também uma mudança importante: a oncologia, que por mais de uma década foi o principal motor de crescimento do setor, começa a dividir o centro do palco com a área cardiometabólica. Não se trata de perda de relevância científica, mas de uma mudança de fronteira. Essa nova classe de medicamentos deslocou o debate para um território onde ciência, necessidade não atendida em escala e saúde pública se encontram diante de um cenário de altíssima prevalência. Com mais de 100 novas moléculas em desenvolvimento clínico, o segmento começa a operar sob a lógica do "go big or go home".
Nesta nova configuração, o blockbuster deixa de ser apenas um produto para se tornar uma plataforma. É a estratégia dos "pipelines dentro do produto": uma única molécula, como a tirzepatida ou o pembrolizumabe (Keytruda), que faturou US$ 8,03 bilhões no trimestre, transforma-se em um ecossistema de múltiplas indicações capaz de sustentar o faturamento por anos. O modelo comercial também traz novidades. A disputa agora tende a ser vencida por quem organiza melhor a jornada de acesso, integrando diversas ações, como a telessaúde e dados para gerir a experiência do paciente, como ilustra o lançamento da plataforma Lilly Employer Connect, nos Estados Unidos.
Essa mudança tem implicações econômicas relevantes. Quanto maior a escala dessas moléculas-plataforma, maior a concentração de valor — e de risco. Empresas aceleram receitas em velocidade inédita, mas também se tornam mais dependentes de poucos ativos. Quando patentes expiram ou novos concorrentes alteram o equilíbrio competitivo, o impacto no valor de mercado pode ser imediato.
No campo político, o trimestre também trouxe lições sobre os limites das intervenções estatais. Nos Estados Unidos, a política de Most Favored Nation, ou MFN, e o portal TrumpRx — que geraram incertezas ao prometer reduzir preços nominais — não parecem ter impactado significativamente os balanços corporativos. O desafio está no desenho: ao mirar apenas o preço e ignorar a estrutura real da rota de acesso, o resultado tende a ser mais comunicacional do que estrutural. Surge aqui o conceito que chamo de "access washing": quando o discurso de acesso ganha visibilidade política, mas não altera a jornada concreta do paciente.
Contudo, observamos um contraponto disruptivo. A FDA aprovou, no final de abril, a primeira terapia gênica para surdez genética profunda. Além do benefício clínico de altíssimo impacto, o modelo de acesso foi também inovador: a Regeneron, empresa fabricante, anunciou que disponibilizará o produto gratuitamente a todos os pacientes elegíveis nos Estados Unidos. Longe de ser pura filantropia, o movimento resulta de uma negociação em que a empresa comprometeu-se a investir em P&D e manufatura local, além de oferecer a gratuidade da terapia gênica, buscando, em contrapartida, previsibilidade em um ambiente marcado por maior pressão tarifária e regulatória sobre seu portfólio de maior escala. Ao fornecer o tratamento sem custo para uma doença ultra-rara (que afeta cerca de 50 recém-nascidos por ano nos EUA), a empresa sinaliza que o custo social da inacessibilidade pode ser maior do que a renúncia de receita.
Esse modelo aponta para uma direção importante para os governos: deixar de lado disputas ideológicas focadas exclusivamente em propriedade intelectual e quebras de patentes, e buscar negociações mais personalizadas, que incluam acesso ao portfólio, investimentos estruturais, mantendo-se sempre a segurança jurídica e a previsibilidade.
A ciência tem vencido barreiras que pareciam intransponíveis. O mercado também se mostra receptivo às inovações capazes de combinar escala, eficácia e novos modelos de acesso. A questão que fica para os próximos trimestres é se governos, empresas e sistemas de saúde saberão transformar o novo "go big" farmacêutico em algo ainda maior: um acesso sustentável, previsível e concreto para os pacientes.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas