A decisão de Ratinho Junior (PSD) de desistir da disputa presidencial de 2026 mudou o tabuleiro político no Paraná. Ao anunciar nesta segunda-feira (23) que permanecerá no governo até o fim do mandato, o governador deixou a corrida nacional, mas ampliou sua influência sobre a sucessão estadual, movimento que atinge diretamente os planos do senador Sergio Moro e, de forma indireta, a estratégia presidencial de Flávio Bolsonaro.
O efeito mais imediato está no Palácio Iguaçu, sede do governo paranaense. Permanecendo no cargo, Ratinho preserva o comando político e administrativo da sucessão e ganha mais condições de organizar o campo governista contra Moro, que deve oficializar sua filiação ao PL nesta terça-feira (24). Em vez de enfrentar um grupo em possível transição, o senador agora terá pela frente um governador em exercício, com mais tempo para costurar alianças, definir um nome para a disputa e coordenar a própria base.
No entorno de Ratinho, os nomes mais citados para a sucessão são o do secretário Guto Silva (PSD) e o do presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi (PSD). No cargo, Ratinho passa a atuar diretamente para viabilizar o nome que considerar mais competitivo na sucessão.
Desistência estratégica
Entre aliados no Paraná, a leitura é que Ratinho desistiu da corrida presidencial por duas razões principais: resistência da família à candidatura ao Planalto e a conveniência de concentrar forças na disputa local, onde Moro aparece na dianteira das pesquisas de intenção de voto divulgadas até aqui. Também entra nessa conta o interesse do governador em não entregar a sucessão a uma dinâmica fora de seu controle.
Para Moro, a mudança é relevante porque reduz uma hipótese que poderia lhe ser favorável: a saída antecipada de Ratinho do governo, com a consequente abertura de uma transição mais incerta no grupo governista.
Isso não significa, porém, que a candidatura do senador esteja resolvida. A aproximação com o PL abriu uma nova frente para Moro depois do bloqueio à sua candidatura pelo União Brasil, em razão do impasse com o PP na federação formada entre as duas siglas. Como União e PP passam a funcionar como um único bloco eleitoral, a resistência de um dos lados bastava para travar sua entrada na disputa estadual por essa via.
A ida ao PL oferece uma alternativa, mas também reposiciona Moro de forma mais clara no campo bolsonarista. No Paraná, esse movimento tem peso: o eleitorado de direita é numeroso, mas não está concentrado em um único polo, e a sucessão estadual deve passar justamente pela disputa por esse espaço.
Impacto para Flávio
É aí que a decisão de Ratinho também alcança Flávio Bolsonaro. No plano nacional, a desistência do governador tira da corrida um nome que vinha sendo tratado como opção competitiva no campo da centro-direita. Com isso, o projeto presidencial do PL perde um potencial concorrente fora do núcleo bolsonarista. No PSD, a disputa interna tende a seguir com nomes como Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. Entre eles, Ratinho era apontado como o nome de melhor desempenho nas pesquisas.
No Paraná, porém, o efeito é mais ambíguo para Flávio. O senador passou a apostar em Moro como principal palanque do PL no Estado, um dos maiores colégios eleitorais do país. A saída de Ratinho da disputa presidencial aumenta a importância desse palanque, porque Flávio deixa de olhar para o governador como peça possível de composição nacional e passa a depender ainda mais do desempenho de Moro na eleição estadual.
Ao mesmo tempo, a permanência de Ratinho no governo fortalece justamente o grupo que deve enfrentar o candidato apoiado pelo PL. Em outras palavras: Flávio perde um concorrente potencial no plano nacional, mas vê seu principal palanque regional encarar um adversário mais organizado e com comando mais claro.
Forças reposicionadas
Nos bastidores, já houve tentativas de aproximação entre Ratinho e o entorno de Flávio, inclusive com especulações sobre uma eventual composição nacional. Mas, neste momento, os dois campos estão posicionados em lados opostos no Paraná. De um lado, o PSD trabalha para preservar o controle do governo estadual. De outro, o PL aposta em Moro para montar um palanque próprio e disputar o comando do Estado.
A saída de Ratinho da corrida presidencial não reduz a disputa no Paraná. Ela desloca o centro do jogo para a sucessão estadual. Para Moro, isso significa enfrentar um governismo mais coeso e sob comando direto do governador. Para Flávio, significa depender ainda mais do desempenho de Moro num Estado que ganhou peso maior em seu projeto para 2026.
Apesar da desistência, Ratinho Júnior afirmou que se manterá à disposição para atuar internamente na sigla.
"O governador do Paraná continuará à disposição do PSD para ajudar o Brasil virar a página do atraso, criar perspectivas mais otimistas para os jovens, ser destravado com menos burocracia, endurecimento de leis criminais e tenha o agronegócio brasileiro como trunfo na competição global entre nações."
Ratinho Júnior também já traçou seu destino pós-Palácio Iguaçu: ao encerrar o mandato em dezembro, ele voltará ao setor privado. O plano é assumir a presidência do grupo de comunicação fundado por seu pai, o apresentador Ratinho.