A janela partidária de 2026 levou ao menos 122 deputados federais a trocar de partido entre 5 de março e 3 de abril, período em que parlamentares eleitos pelo sistema proporcional puderam mudar de legenda sem perder o mandato. O número equivale a quase um em cada quatro deputados em exercício até a semana passada, segundo levantamento exclusivo do Congresso em Foco, que inclui também suplentes que ocupavam a cadeira na Câmara durante a chamada janela partidária.
A pesquisa considerou informações oficiais no portal da Câmara, nas páginas de partidos políticos e dos próprios parlamentares que anunciaram as mudanças. O saldo oficial, porém, só deve ser confirmado nos próximos dias. O número apurado é praticamente o mesmo registrado na janela partidária há quatro anos, quando foram efetuadas 121 trocas.
Busque por nome, partido ou unidade federativa; clique na seta para ver os demais nomes.
PL e Podemos na frente
No saldo partidário, os maiores vencedores foram PL e Podemos, que terminaram empatados com saldo positivo de 11 deputados cada. Na outra ponta, o União Brasil foi o partido que mais encolheu, com saldo negativo de 14 parlamentares. O movimento ajuda a dimensionar o alcance da janela e mostra como a troca de siglas já redesenhou parte da correlação de forças na Câmara antes mesmo do início oficial da campanha.
Prevista na legislação eleitoral, a janela partidária é uma exceção à regra da fidelidade partidária. Nesse intervalo, deputados e vereadores podem deixar suas siglas sem risco de perder o mandato. Na prática, o mecanismo costuma servir para acomodar disputas por espaço nas chapas, conflitos pelo comando de diretórios regionais, alianças estaduais e ajustes de rota de olho na eleição.
Realinhamento eleitoral
O troca-troca deste ano revela menos uma mudança de convicções políticas e mais um rearranjo pragmático. A maior parte das migrações ocorreu dentro do mesmo campo ideológico, sobretudo entre partidos de centro e direita. Em vez de uma dança de posições, a janela expôs um movimento de realinhamento eleitoral: deputados buscaram legendas com estrutura mais forte nos Estados, chapas mais competitivas, diretórios mais amigáveis e melhores condições de sobrevivência política em outubro.
Esse padrão aparece nos fluxos mais frequentes da janela. O principal corredor foi o de deputados que saíram do União Brasil para o PL. Também se repetiram migrações do União Brasil para o Podemos, do Republicanos para o União Brasil e do PSD para o PL. Em comum, esses movimentos mostram uma reacomodação concentrada em partidos de centro e direita, mais associada à disputa por vagas e palanques regionais do que a uma guinada ideológica.
Ranking estadual
As mudanças atingiram bancadas de praticamente todo o país, mas se concentraram em alguns Estados. São Paulo liderou em números absolutos, com 14 trocas. Na sequência aparecem Ceará e Minas Gerais, com 11 mudanças cada, seguidos pelo Paraná, com 10, e por Goiás, com 9. Também houve forte movimentação em Pernambuco e Roraima, com seis trocas cada.
Quando se observa o peso das mudanças dentro de cada bancada, o retrato ganha outra dimensão. Roraima teve a maior sacudida proporcional: 6 dos 8 deputados ligados ao Estado mudaram de partido, o equivalente a 75% da bancada. Também chamam atenção Goiás, com 52,9% da bancada em movimento, e Estados como Ceará, Mato Grosso e Rondônia, onde metade dos deputados federais trocou de sigla durante a janela.
O levantamento mostra que a janela não foi apenas uma formalidade do calendário eleitoral. Ela antecipou a disputa por espaço político nos estados e na Câmara.