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Impeachment de Dilma: os efeitos políticos de 2016 uma década depois

Impeachment de 2016 redesenhou forças políticas, ampliou o poder do Congresso e abriu espaço para novos atores.

17/4/2026
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Dez anos após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, o legado institucional deixado pelo processo ainda é visível na política brasileira. A partir de 2016, o arranjo que sustentava a disputa entre PT e PSDB começou a se desfazer, abrindo espaço para uma dinâmica mais fragmentada, com maior volatilidade eleitoral e novos desafios para a busca por governabilidade.

A chegada de Michel Temer ao Planalto ocorreu sob forte ancoragem no Congresso, com a formação de uma base ampla e heterogênea. Seu governo operou com foco na agenda econômica e na estabilização institucional após a crise política, enquanto o Legislativo ampliava gradualmente sua influência sobre decisões centrais, movimento que ganharia força nos anos seguintes.

Em paralelo, a Operação Lava Jato aprofundou o desgaste das principais lideranças políticas e atingiu o núcleo dos partidos que haviam estruturado o sistema nas décadas anteriores. A prisão de Lula e a queda de figuras como Eduardo Cunha contribuíram para ampliar a percepção de crise de representação, alimentando um ambiente de desconfiança institucional.

Esse cenário abriu caminho para a ascensão de uma nova direita, muito mais combativa. Impulsionado pelo antipetismo e por um discurso de enfrentamento à classe política, Jair Bolsonaro capitalizou o desgaste dos partidos tradicionais e se projetou nacionalmente. Sua vitória em 2018 refletiu tanto a força desse movimento quanto a dificuldade de adaptação de siglas como o PSDB, que perderam protagonismo.

Nos anos seguintes, consolidou-se um quadro de maior fragmentação e polarização, com protagonismo ampliado do Congresso na condução de políticas públicas e na alocação de recursos. A volta de Lula ao Planalto ocorreu sob esse desenho já reconfigurado, em que a relação entre Executivo e Legislativo passou a operar com novos incentivos e formas de negociação.

Enquanto isso, novos atores cresceram fora dos holofotes do poder: o Republicanos mais do que duplicou sua bancada na Câmara, o Democratas ganhou novo fôlego com a construção do União Brasil e o PSD se tornou protagonista na tomada de decisões do Congresso Nacional.

Entenda os principais eventos que marcaram a política nacional após o impeachment:

Impeachment de Dilma: os efeitos políticos de 2016 uma década depois.Antonio Augusto/Câmara dos Deputados | Sattu Rodrigues | Arte Congresso em Foco
  • Reviravolta econômica

Com o afastamento de Dilma em meio ao seu processo de impeachment, assumiu interinamente, e mais tarde de forma definitiva, seu vice Michel Temer. Uma vez empossado, o emedebista promoveu uma ampla agenda de reformas econômicas voltadas à redução dos gastos públicos, em linha oposta ao modelo desenvolvimentista adotado nos dois mandatos de sua antecessora.

O governo Temer patrocinou a aprovação no Congresso Nacional da Emenda Constitucional n.º 95, que ficou conhecida como Teto de Gastos, proibindo até 2060 o aumento das despesas públicas anuais acima da inflação. O presidente também articulou a reforma trabalhista, que flexibilizou direitos previstos na Consolidação das Leis do Trabalho, e sancionou a Lei da Terceirização, que permitiu a contratação de pessoas jurídicas para o exercício da atividade-fim das empresas.

Ao longo do mandato, Temer conviveu com níveis mínimos de aprovação, chegando a 87% de rejeição em 2018, segundo o Datafolha. Ainda assim, formou uma base ampla no Congresso, com a adesão de partidos que iam do PP e PSDB ao PV e PSB.

  • Derrota municipal

Meses após o impeachment de Dilma, ainda em 2016, teve início a disputa eleitoral municipal. O resultado foi o mais traumático para o PT desde o início do século. O partido, que até então contava com 636 prefeitos, elegeu apenas 256, retornando ao patamar anterior ao primeiro mandato do presidente Lula. O mesmo movimento ocorreu nas câmaras municipais: o número de vereadores caiu de mais de 5 mil para 2,7 mil.

No sentido oposto, o PSDB, principal sigla de oposição aos governos petistas, cresceu de 686 para 793 prefeituras. O MDB, de Michel Temer, passou de 1015 para 1028, enquanto o PSD, em sua segunda eleição municipal, avançou de 495 para 539.

  • Eleições de 2018: antipetismo em alta, PSDB em baixa

Com Lula fora da corrida presidencial, o PT lançou Fernando Haddad. O PSDB, rival histórico, apostou em Geraldo Alckmin, enquanto o então presidente Michel Temer escolheu Henrique Meirelles como candidato à sucessão.

Pela primeira vez desde 1990, os tucanos ficaram fora do segundo turno. Alckmin terminou em quarto lugar, com 4,76% dos votos válidos. Meirelles teve desempenho ainda mais limitado, com 1,20%, ocupando a sétima posição.

A disputa final se deu entre Haddad e o então deputado Jair Bolsonaro, pelo PSL. Com discurso antipetista e uma agenda centrada na redução de despesas públicas, liberação do comércio de armas e endurecimento penal, Bolsonaro venceu com 55,13% dos votos válidos, impondo ao PT sua primeira derrota presidencial desde 2002.

Na Câmara dos Deputados, o resultado também redesenhou o campo da esquerda. A bancada petista encolheu, o PSB manteve seu tamanho e cresceram PDT e Psol. O PT seguiu como principal força de oposição, agora com maior participação das demais legendas do seu grupo ideológico.

  • Soltura de Lula

Menos de um ano após a posse de Jair Bolsonaro, vieram a público mensagens trocadas via Telegram entre Sergio Moro, já no Ministério da Justiça, e o procurador Deltan Dallagnol, responsável pela acusação contra Lula. O conteúdo indicava atuação coordenada na condução do processo.

A revelação abalou a Lava-Jato e foi levada ao STF pela defesa do ex-presidente, com pedido de anulação da condenação por vício processual. Ainda em 2019, a Corte declarou inconstitucional a execução da pena após decisão em segunda instância, o que resultou na soltura de Lula.

Em 2021, o STF anulou as condenações, reconhecendo a incompetência de Moro. Com isso, o ex-presidente recuperou seus direitos políticos e voltou ao cenário eleitoral, já com desempenho competitivo nas pesquisas para 2022.

  • Declínio de Bolsonaro

No exercício do mandato, Bolsonaro acumulou crises que afetaram sua popularidade. Em 2019, após a divulgação das mensagens da Lava-Jato, as avaliações negativas passaram a superar as positivas.

O desgaste se aprofundou em 2020, com a demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em meio a divergências sobre a pandemia, e a saída de Sergio Moro, que deixou o governo acusando interferência na Polícia Federal.

Houve recuperação no segundo semestre, mas ela não se sustentou. Em 2021, disputas com o governador de São Paulo, João Doria, sobre a vacinação voltaram a pressionar a imagem do governo. A tendência negativa seguiu até o fim do mandato.

No mesmo período, o Congresso ampliou seu protagonismo na execução do Orçamento. As emendas parlamentares passaram de R$ 18,1 bilhões, em 2019, para R$ 45 bilhões, em 2020, consolidando o peso crescente do Legislativo na definição das políticas públicas.

  • Eleições de 2022: retorno de Lula

Com a popularidade de Bolsonaro em baixa, a opinião pública dividida em relação à Lava-Jato e Lula de volta no jogo político, o PT chegou fortalecido nas eleições de 2022. O pleito ainda contou com um evento inédito: Geraldo Alckmin, quadro histórico do PSDB e antigo crítico dos governos petistas, se filiou ao PSB para concorrer como vice de Lula.

Bolsonaro concorreu pelo PL, partido de porte médio que foi base das gestões do PT e de Temer.

O pleito de 2022 também foi o primeiro em quase 30 anos sem um candidato tucano ao Palácio do Planalto. Divisões internas no PSDB, rachado entre um grupo favorável ao lançamento de João Doria e outro ao governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, levaram o partido a abrir mão de uma cabeça de chapa. No lugar, a legenda se juntou à campanha da emedebista Simone Tebet, indicando a senadora Mara Gabrilli como vice.

A campanha foi marcada por questionamentos do grupo político de Bolsonaro ao sistema eleitoral, disputa intensa por espaço nas redes sociais e múltiplas ações judiciais eleitorais do PT contra o PL. No segundo turno, Lula venceu com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro.

Após o resultado, apoiadores do então presidente promoveram bloqueios rodoviários e acampamentos em frente a quartéis. Bolsonaro reconheceu a derrota dias depois e pediu a liberação das vias. Em seu último dia de mandato, saiu do país, passando os meses seguintes nos Estados Unidos.

  • Governo Lula

De volta ao Planalto, Lula buscou recompor sua base no Congresso, incorporando MDB, PSD e União Brasil, além de incluir posteriormente PP e Republicanos.

Menos de duas semanas após a posse, em 8 de janeiro, manifestantes invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília. Em 2025, o STF atribuiu os atos a incitações promovidas por Bolsonaro e o condenou a 27 anos e três meses de prisão.

No Congresso, o presidencialismo orçamentário se manteve como eixo da relação entre Executivo e Legislativo, com as emendas parlamentares no centro das negociações. O governo conseguiu aprovar propostas econômicas relevantes, como o novo arcabouço fiscal, a reforma tributária e a revisão do Bolsa Família.

Já pautas ideológicas enfrentaram resistência. Propostas sobre redes sociais não avançaram, iniciativas na área de segurança foram alteradas durante a tramitação e a oposição articulou a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, com veto previsto para análise ainda neste mês.

O PT também tornou a assumir o protagonismo em seu campo político: sua federação ao PV e PCdoB formou a segunda maior bancada da Câmara, com 80 deputados, ao mesmo tempo que encolheram o PSB e o PDT. No outro lado, o PSDB chegou ao seu pior momento, com apenas 13 deputados eleitos.

Os espaços de poder ficaram ainda mais polarizados, desta vez com o PL na vanguarda da oposição. Mesmo inelegível e posteriormente preso, Bolsonaro permaneceu como uma liderança política influente, orientando muitas das principais decisões de seu partido.

  • Novos atores

No centro político, novos atores ganharam espaço desde o impeachment de Dilma. O Republicanos, então um partido de porte médio, conseguiu se adaptar às mudanças da última década, ocupando posições tanto no governo Bolsonaro quanto na gestão Lula. Com isso, chegou fortalecido à atual legislatura e elegeu, em 2025, com ampla maioria, o atual e mais jovem presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (PB).

O PSL, antigo partido de Bolsonaro, entrou em crise após a saída do ex-presidente, com seus principais quadros migrando para o PL. A legenda acabou se fundindo ao Democratas, dando origem ao União Brasil. Hoje, o partido atua em federação com o PP, e juntos formam a maior bancada da Câmara.

Já o PSD, comandado por Gilberto Kassab, sigla ainda jovem à época do impeachment, se firmou como uma das principais forças políticas do país. O partido encerrou as eleições municipais de 2024 na liderança em número de prefeituras e consolidou uma posição estratégica no Congresso. Com estrutura capilarizada e atuação pragmática, passou a funcionar como força de equilíbrio nas principais decisões de impacto nacional.

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