Em 21 de abril de 1960, Brasília foi inaugurada como nova capital da República. A imagem que atravessou o tempo é a de uma cidade erguida no Cerrado sob o impulso de Juscelino Kubitschek. Mas, antes de virar cúpulas, eixos e avenidas largas, a nova capital precisou vencer uma batalha menos visível e igualmente decisiva: a travada no Congresso Nacional, então sediado no Rio de Janeiro.
Foi ali, em meio a votações, debates e resistências, que a mudança da capital se tornou viável.
A transferência não surgiu do nada. A ideia vinha do século 19 e aparecia nas Constituições de 1891, 1934 e 1946. Coube a JK transformá-la em agenda concreta de governo. Em abril de 1956, o presidente enviou ao Congresso a Mensagem 156, convertida no Projeto de Lei 1.234 daquele ano. Dali sairia a Lei 2.874, sancionada em 19 de setembro de 1956, que criou a Novacap, definiu o futuro Distrito Federal e deu forma institucional ao empreendimento. No ano seguinte, outra decisão crucial viria do Parlamento: a aprovação do projeto do deputado goiano Emival Caiado que fixou em 21 de abril de 1960 a data da mudança, convertida na Lei 3.273, de 1º de outubro de 1957.
O tempo às vezes apaga esse dado essencial: Brasília não foi apenas uma façanha do Executivo. O Congresso autorizou a transferência, aprovou a base legal, acompanhou a execução da obra e lhe deu sustentação política. Brasília só deixou de ser projeto quando recebeu respaldo legal e político no Congresso.
Uma ideia antiga, uma decisão política
A Constituição de 1946 foi decisiva ao determinar a transferência da capital para o Planalto Central e delegar ao Congresso a tarefa de deliberar, por lei especial, sobre a área e, depois, sobre a data da mudança. Em outras palavras, Brasília dependeria de autorização parlamentar em etapas sucessivas. A vontade presidencial, sozinha, não bastava.
Foi nesse terreno que JK avançou. A proposta condensava mais do que uma obra urbanística. Representava um projeto de país: interiorizar o poder, integrar o território, estimular o desenvolvimento longe do litoral e transformar a nova capital em símbolo de modernização nacional.
Mas o tema estava longe de ser consensual.
O Parlamento da desconfiança
Diferentemente de Brasília, o Congresso não funcionava no mesmo espaço no Rio. A Câmara ficava instalada no Palácio Tiradentes, hoje sede da Assembleia Legislativa, enquanto o Senado era abrigado no Palácio Monroe, que veio a ser demolido na década de 1970.
A tramitação foi marcada por ceticismo, ironia e confronto político. Havia quem visse na nova capital a oportunidade de reorganizar o país. Havia também quem enxergasse uma aventura cara, apressada e propagandística.O deputado Emival Caiado, udenista de Goiás, foi um dos principais articuladores da mudança. Em agosto de 1956, apresentou o projeto que estabeleceu a data da transferência. Mais tarde, em 1959, organizaria o Bloco Parlamentar Mudancista para evitar recuos. Seus argumentos resumiam o espírito desenvolvimentista da época: ocupar o "vazio" do interior, integrar o território, reduzir desigualdades regionais e reforçar a unidade nacional.
Na Câmara, a defesa de Brasília misturava ideal nacional e pragmatismo. João Machado, do PTB do então Distrito Federal, sustentava que a questão não poderia ser julgada apenas sob a ótica dos interesses cariocas. Herbert Levy, da UDN paulista, dizia que o Rio não oferecia a austeridade de uma capital administrativa. França Campos, do PSD mineiro, rebateu o temor de colapso econômico da antiga capital e lembrava que a urgência da matéria havia sido aprovada por ampla maioria.
No Senado, Lima Teixeira resumiu a aposta mudancista em uma frase que condensava o imaginário da época: a transferência levaria "um pouco do progresso do litoral para o interior do Brasil".
Os defensores da mudança falavam em integração territorial, soberania, equilíbrio regional e reorganização do pacto federativo. Mais do que erguer uma cidade, tratava-se de reorganizar o centro do poder nacional.
Os adversários de Brasília
A oposição foi igualmente eloquente. Em 1956, Tenório Cavalcanti classificou a proposta como "quimera" e "simples demagogia". Rejeitava sobretudo o argumento da defesa nacional e sustentava que o país deveria investir em infraestrutura, em vez de construir uma cidade do zero no coração do Brasil.
Carlos Lacerda, um dos opositores mais ferozes de JK, também atacou o cronograma. Em 1957, ao discutir a fixação da data da mudança, disse não acreditar que a nova capital pudesse ficar pronta a tempo e insistiu em chamar o Rio de Janeiro de "cidade brasileira por excelência". Sua crítica traduzia um receio mais amplo: o de que a transferência apenas deslocasse para o Planalto os vícios do centralismo político e as mazelas da velha capital.
À medida que a inauguração se aproximava, os ataques ganharam tom mais concreto. No Senado, João Villas Bôas ironizou o que as autoridades estrangeiras viriam encontrar no Planalto: "Andaimes, apartamentos em construção e ruas poeirentas". Mem de Sá, por sua vez, zombou da pressa da obra numa das tiradas mais lembradas do período: para inaugurar o cemitério de Brasília, talvez fosse preciso "pedir emprestado um cadáver a Goiânia", a cidade mais próxima. Daniel Krieger completou a crítica ao ritmo das obras com outra frase cortante: se ali se trabalhava 24 horas por dia, também se gastava "por três".
As objeções tinham fundo político. Falava-se em gasto excessivo, monumentalidade prematura, improviso administrativo e distanciamento do poder em relação ao controle popular. Para a oposição, uma ideia antiga estava sendo executada com pressa excessiva.
O paradoxo da UDN
Talvez nada revele tanto a complexidade daquela disputa quanto o comportamento da UDN. O partido fazia oposição dura a JK, e nomes como Carlos Lacerda e Adauto Cardoso atacavam o projeto com frequência. Ainda assim, a legenda votou unida a favor da lei que fixou a data da mudança.
O aparente paradoxo tinha explicação política. Parte da oposição avaliava que Brasília fracassaria e se tornaria um desastre para o próprio Juscelino. Apostava, em outras palavras, que a obra seria um suicídio político do presidente. Quando percebeu que a transferência se tornara irreversível, já era tarde. Restaram tentativas de CPI, pedidos de adiamento e discursos de desgaste.
A despedida no Rio
A mudança da capital não foi apenas uma disputa administrativa. Foi também uma ruptura simbólica. O Rio deixava de ser sede do poder nacional, e isso mexia com a identidade política da cidade e com a memória do próprio Parlamento.
Na derradeira sessão do Senado no Palácio Monroe, em 14 de abril de 1960, o ambiente foi de nostalgia. Argemiro de Figueiredo falou como quem se despedia de uma casa e de uma época. Conforme reportagem da Rádio Senado, Jorge Maynard reconheceu as saudades, mas disse que o Brasil exigia aquele gesto. Guido Mondin recusou o apelido de "Velhacap" para o Rio e resumiu a ambivalência daquele momento numa frase que atravessou o tempo: "Brasília há de ser agora o cérebro desta nação, mas o Rio de Janeiro será sempre o coração da pátria".
Mesmo entre os favoráveis à transferência havia desconforto. O senador Caiado de Castro, carioca de origem goiana, apoiava a mudança, mas reclamava das condições precárias dos apartamentos funcionais em Brasília. Ainda assim, via no novo arranjo uma oportunidade política para o antigo Distrito Federal. Com a criação do estado da Guanabara, observou, a cidade deixaria de ter um prefeito nomeado pelo presidente da República. "De agora em diante, seremos donos do nosso nariz", disse.
Quando a controvérsia virou fato
Na inauguração, a polêmica já não dizia respeito à possibilidade da mudança, mas às condições em que ela se concretizava. A polêmica, claro, não desapareceu naquele dia. A cidade estava incompleta, o próprio Congresso ainda enfrentava carências, e nos anos seguintes surgiriam reclamações, pedidos de recesso e até movimentos favoráveis ao retorno da capital ao Rio. Mas a batalha principal estava encerrada. Brasília já não era promessa nem projeto em papel. Era sede da República.
O que Brasília revela sobre o Brasil
Vista a distância, a criação de Brasília revela mais do que uma façanha de engenharia. A nova capital foi uma escolha política amadurecida em embates parlamentares. Seus defensores falavam em integração territorial, interiorização do desenvolvimento, soberania e justiça regional. Seus adversários viam desperdício, voluntarismo, propaganda e o risco de um centro de poder erguido antes da hora. Os dois lados, à sua maneira, tocavam em nervos reais da vida nacional.
Por isso, a história da mudança da capital não cabe na versão simplificada do gesto heroico de JK. A nova capital foi resultado de expectativas grandiosas, resistências concretas e muito cálculo político. Antes mesmo de ser criada, Brasília teve de vencer batalhas grandes políticas no Parlamento, no antigo núcleo do poder do país.