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BRASÍLIA, 66 ANOS

Como o Congresso, no Rio, fez de Brasília a nova capital

A mudança da capital, há exatos 66 anos, não foi apenas obra de JK. A proposta passou por projetos, votações e forte resistência na Câmara e no Senado, à época sediados no Rio de Janeiro.

Congresso em Foco

21/4/2026 8:00

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Em 21 de abril de 1960, Brasília foi inaugurada como nova capital da República. A imagem que atravessou o tempo é a de uma cidade erguida no Cerrado sob o impulso de Juscelino Kubitschek. Mas, antes de virar cúpulas, eixos e avenidas largas, a nova capital precisou vencer uma batalha menos visível e igualmente decisiva: a travada no Congresso Nacional, então sediado no Rio de Janeiro.

Foi ali, em meio a votações, debates e resistências, que a mudança da capital se tornou viável.

Palácio Monroe foi sede do Senado entre 1925 e 1960. Prédio foi inteiramente demolido em 1976.

Palácio Monroe foi sede do Senado entre 1925 e 1960. Prédio foi inteiramente demolido em 1976.Arquivo Nacional

A transferência não surgiu do nada. A ideia vinha do século 19 e aparecia nas Constituições de 1891, 1934 e 1946. Coube a JK transformá-la em agenda concreta de governo. Em abril de 1956, o presidente enviou ao Congresso a Mensagem 156, convertida no Projeto de Lei 1.234 daquele ano. Dali sairia a Lei 2.874, sancionada em 19 de setembro de 1956, que criou a Novacap, definiu o futuro Distrito Federal e deu forma institucional ao empreendimento. No ano seguinte, outra decisão crucial viria do Parlamento: a aprovação do projeto do deputado goiano Emival Caiado que fixou em 21 de abril de 1960 a data da mudança, convertida na Lei 3.273, de 1º de outubro de 1957.

JK chora durante missa na inauguração de Brasília e recebe o olhar solidário do vice, João Goulart.

JK chora durante missa na inauguração de Brasília e recebe o olhar solidário do vice, João Goulart.Arquivo Público/DF

O tempo às vezes apaga esse dado essencial: Brasília não foi apenas uma façanha do Executivo. O Congresso autorizou a transferência, aprovou a base legal, acompanhou a execução da obra e lhe deu sustentação política. Brasília só deixou de ser projeto quando recebeu respaldo legal e político no Congresso.

Uma ideia antiga, uma decisão política

A Constituição de 1946 foi decisiva ao determinar a transferência da capital para o Planalto Central e delegar ao Congresso a tarefa de deliberar, por lei especial, sobre a área e, depois, sobre a data da mudança. Em outras palavras, Brasília dependeria de autorização parlamentar em etapas sucessivas. A vontade presidencial, sozinha, não bastava.

Foi nesse terreno que JK avançou. A proposta condensava mais do que uma obra urbanística. Representava um projeto de país: interiorizar o poder, integrar o território, estimular o desenvolvimento longe do litoral e transformar a nova capital em símbolo de modernização nacional.

Mas o tema estava longe de ser consensual.

O Parlamento da desconfiança

Diferentemente de Brasília, o Congresso não funcionava no mesmo espaço no Rio. A Câmara ficava instalada no Palácio Tiradentes, hoje sede da Assembleia Legislativa, enquanto o Senado era abrigado no Palácio Monroe, que veio a ser demolido na década de 1970.

Palácio Tiradentes, sede da Câmra dos Deputados no Rio entre 1926 e 1960.

Palácio Tiradentes, sede da Câmra dos Deputados no Rio entre 1926 e 1960.Arquivo Nacional

A tramitação foi marcada por ceticismo, ironia e confronto político. Havia quem visse na nova capital a oportunidade de reorganizar o país. Havia também quem enxergasse uma aventura cara, apressada e propagandística.O deputado Emival Caiado, udenista de Goiás, foi um dos principais articuladores da mudança. Em agosto de 1956, apresentou o projeto que estabeleceu a data da transferência. Mais tarde, em 1959, organizaria o Bloco Parlamentar Mudancista para evitar recuos. Seus argumentos resumiam o espírito desenvolvimentista da época: ocupar o "vazio" do interior, integrar o território, reduzir desigualdades regionais e reforçar a unidade nacional.

Na Câmara, a defesa de Brasília misturava ideal nacional e pragmatismo. João Machado, do PTB do então Distrito Federal, sustentava que a questão não poderia ser julgada apenas sob a ótica dos interesses cariocas. Herbert Levy, da UDN paulista, dizia que o Rio não oferecia a austeridade de uma capital administrativa. França Campos, do PSD mineiro, rebateu o temor de colapso econômico da antiga capital e lembrava que a urgência da matéria havia sido aprovada por ampla maioria.

No Senado, Lima Teixeira resumiu a aposta mudancista em uma frase que condensava o imaginário da época: a transferência levaria "um pouco do progresso do litoral para o interior do Brasil".

Os defensores da mudança falavam em integração territorial, soberania, equilíbrio regional e reorganização do pacto federativo. Mais do que erguer uma cidade, tratava-se de reorganizar o centro do poder nacional.

Os adversários de Brasília

A oposição foi igualmente eloquente. Em 1956, Tenório Cavalcanti classificou a proposta como "quimera" e "simples demagogia". Rejeitava sobretudo o argumento da defesa nacional e sustentava que o país deveria investir em infraestrutura, em vez de construir uma cidade do zero no coração do Brasil.

Carlos Lacerda era um dos principais críticos de JK.

Carlos Lacerda era um dos principais críticos de JK.Arquivo/Folhapress

Carlos Lacerda, um dos opositores mais ferozes de JK, também atacou o cronograma. Em 1957, ao discutir a fixação da data da mudança, disse não acreditar que a nova capital pudesse ficar pronta a tempo e insistiu em chamar o Rio de Janeiro de "cidade brasileira por excelência". Sua crítica traduzia um receio mais amplo: o de que a transferência apenas deslocasse para o Planalto os vícios do centralismo político e as mazelas da velha capital.

À medida que a inauguração se aproximava, os ataques ganharam tom mais concreto. No Senado, João Villas Bôas ironizou o que as autoridades estrangeiras viriam encontrar no Planalto: "Andaimes, apartamentos em construção e ruas poeirentas". Mem de Sá, por sua vez, zombou da pressa da obra numa das tiradas mais lembradas do período: para inaugurar o cemitério de Brasília, talvez fosse preciso "pedir emprestado um cadáver a Goiânia", a cidade mais próxima. Daniel Krieger completou a crítica ao ritmo das obras com outra frase cortante: se ali se trabalhava 24 horas por dia, também se gastava "por três".

As objeções tinham fundo político. Falava-se em gasto excessivo, monumentalidade prematura, improviso administrativo e distanciamento do poder em relação ao controle popular. Para a oposição, uma ideia antiga estava sendo executada com pressa excessiva.

Milhares de pessoas ocuparam as vias de Brasília para prestigiar a inauguração da nova capital em 21 de abril de 1960.

Milhares de pessoas ocuparam as vias de Brasília para prestigiar a inauguração da nova capital em 21 de abril de 1960.Arquivo Público

O paradoxo da UDN

Talvez nada revele tanto a complexidade daquela disputa quanto o comportamento da UDN. O partido fazia oposição dura a JK, e nomes como Carlos Lacerda e Adauto Cardoso atacavam o projeto com frequência. Ainda assim, a legenda votou unida a favor da lei que fixou a data da mudança.

O aparente paradoxo tinha explicação política. Parte da oposição avaliava que Brasília fracassaria e se tornaria um desastre para o próprio Juscelino. Apostava, em outras palavras, que a obra seria um suicídio político do presidente. Quando percebeu que a transferência se tornara irreversível, já era tarde. Restaram tentativas de CPI, pedidos de adiamento e discursos de desgaste.

A despedida no Rio

A mudança da capital não foi apenas uma disputa administrativa. Foi também uma ruptura simbólica. O Rio deixava de ser sede do poder nacional, e isso mexia com a identidade política da cidade e com a memória do próprio Parlamento.

Na derradeira sessão do Senado no Palácio Monroe, em 14 de abril de 1960, o ambiente foi de nostalgia. Argemiro de Figueiredo falou como quem se despedia de uma casa e de uma época. Conforme reportagem da Rádio Senado, Jorge Maynard reconheceu as saudades, mas disse que o Brasil exigia aquele gesto. Guido Mondin recusou o apelido de "Velhacap" para o Rio e resumiu a ambivalência daquele momento numa frase que atravessou o tempo: "Brasília há de ser agora o cérebro desta nação, mas o Rio de Janeiro será sempre o coração da pátria".

Milhares de pessoas ocuparam as vias de Brasília para prestigiar a inauguração da nova capital em 21 de abril de 1960.

Milhares de pessoas ocuparam as vias de Brasília para prestigiar a inauguração da nova capital em 21 de abril de 1960.Arquivo Público

Mesmo entre os favoráveis à transferência havia desconforto. O senador Caiado de Castro, carioca de origem goiana, apoiava a mudança, mas reclamava das condições precárias dos apartamentos funcionais em Brasília. Ainda assim, via no novo arranjo uma oportunidade política para o antigo Distrito Federal. Com a criação do estado da Guanabara, observou, a cidade deixaria de ter um prefeito nomeado pelo presidente da República. "De agora em diante, seremos donos do nosso nariz", disse.

Quando a controvérsia virou fato

Na inauguração, a polêmica já não dizia respeito à possibilidade da mudança, mas às condições em que ela se concretizava. A polêmica, claro, não desapareceu naquele dia. A cidade estava incompleta, o próprio Congresso ainda enfrentava carências, e nos anos seguintes surgiriam reclamações, pedidos de recesso e até movimentos favoráveis ao retorno da capital ao Rio. Mas a batalha principal estava encerrada. Brasília já não era promessa nem projeto em papel. Era sede da República.

Pioneiros e candangos não ficaram fora da festa de inauguração.

Pioneiros e candangos não ficaram fora da festa de inauguração.Arquivo Público/DF

O que Brasília revela sobre o Brasil

Vista a distância, a criação de Brasília revela mais do que uma façanha de engenharia. A nova capital foi uma escolha política amadurecida em embates parlamentares. Seus defensores falavam em integração territorial, interiorização do desenvolvimento, soberania e justiça regional. Seus adversários viam desperdício, voluntarismo, propaganda e o risco de um centro de poder erguido antes da hora. Os dois lados, à sua maneira, tocavam em nervos reais da vida nacional.

Por isso, a história da mudança da capital não cabe na versão simplificada do gesto heroico de JK. A nova capital foi resultado de expectativas grandiosas, resistências concretas e muito cálculo político. Antes mesmo de ser criada, Brasília teve de vencer batalhas grandes políticas no Parlamento, no antigo núcleo do poder do país.

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