Alvo de operação da Polícia Federal na manhã desta quinta-feira (18) em nova fase das investigações sobre a fraude financeira do Banco Master, o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, afirmou ter se encontrado apenas duas vezes com o controlador da instituição, Daniel Vorcaro. Segundo ele, nenhuma das reuniões envolveu atividades ilícitas.
"Eu estive com o Daniel apenas duas vezes. Uma vez quando ele veio se apresentar, por estar entrando de sócio do Augusto Lima na questão do CredCesta e a segunda vez quando o Augusto Lima me pediu uma indicação (...) para a área jurídica do banco", disse o parlamentar em entrevista à BandNews.
Veja a fala:
Nesse segundo encontro, Jaques Wagner teria indicado a contratação do ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski, que havia se aposentado recentemente da Corte. O senador negou, porém, ter solicitado um cargo para o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que também prestou serviços ao Banco Master.
Investigação contra Wagner
Jaques Wagner foi um dos alvos dos mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal na nona fase da Operação Compliance Zero. O senador é investigado como possível beneficiário de vantagens econômicas decorrentes do esquema de fraude financeira atribuído ao Banco Master.
Conforme decisão do ministro André Mendonça, do STF, a PF identificou indícios de que benefícios teriam sido direcionados ao parlamentar, de forma direta ou indireta, por meio de familiares, pessoas de confiança e empresas ligadas ao grupo investigado.
Entre as vantagens citadas estão a possível aquisição de um apartamento de luxo em Salvador, repasses de R$ 3,5 milhões a uma empresa associada ao seu núcleo familiar, uso de aeronaves vinculadas ao Master e o pagamento de ingressos para um show no exterior, no valor de R$ 63,3 mil, destinados a familiares do senador.
A interlocução entre Wagner e a instituição financeira teria sido intermediada pelo empresário Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Para a PF, a relação entre ambos seria antiga, próxima e marcada por confiança pessoal, o que teria favorecido tratativas reservadas em benefício dos interesses do Banco Master.
Contato com Augusto Lima
Na entrevista, Jaques Wagner disse ter conhecido Augusto Lima durante o processo de privatização do CredCesta, no período em que governou a Bahia. Segundo ele, o empresário se apresentou após a chamada pública demonstrando interesse em adquirir a rede estadual de supermercados.
"Depois ele procurou um banco para poder ter fluxo de caixa e fazer os empréstimos, aí que entra o Banco Máxima na época e depois o Banco Master", afirmou.
O senador também negou ter realizado qualquer negócio ilícito com o investigado. Segundo sua versão, a compra do apartamento em Salvador foi feita com recursos próprios, e o empresário, que à época atuava com o mercado imobiliário, apenas facilitou a negociação.
"É um apartamento que está em construção. Eu tinha interesse de dar um apartamento ou de ajudar a minha filha a comprar um apartamento desse. Como o Augusto Lima é um investidor, eu disse a ele, 'você pode comprar, depois eu vou recomprar, porque o apartamento está em construção'", relatou.
Wagner também comentou a mensagem citada na decisão de Mendonça, na qual Augusto Lima, ao anunciar a venda do Master ao BRB, afirmou que o parlamentar "mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso".
"Na minha opinião, o que ele quer dizer é que eu conheço a história dele, e conheço. Ele era vendedor de consignado, era uma pessoa que trabalhava e que resolveu adquirir a rede do supermercado estatal Cesta do Povo, que era um trambolho que eu recebi dos governos anteriores."
Dinheiro apreendido
Durante a busca e apreensão realizada na residência de Jaques Wagner, foram encontrados envelopes contendo US$ 49 mil em espécie. De acordo com o senador, o montante correspondia a parte dos valores recebidos do Senado para custear hospedagens em viagens internacionais.
"Eu várias vezes viajei para o exterior. Mandei até levantar, e de 2019 para cá, eu recebi de diárias aproximadamente 70 mil dólares. E outras vezes que eu fui viajar, eu comprei via Banco do Brasil, onde eu tenho conta, dólares ou euros para fazer a viagem. Os envelopes, inclusive, que estavam no caso de Brasília, eram envelopes com um timbre do Senado Federal", esclareceu.
Campanha mantida
Questionado sobre a possibilidade de desistir da candidatura à reeleição após a operação da PF, Jaques Wagner afirmou que seguirá na disputa. Ele lembrou que já enfrentou situação semelhante anteriormente.
"Em 2018, quando eu também fui candidato ao Senado, teve uma busca e apreensão na minha casa por conta da Fonte Nova. Em 18 de fevereiro, dessa vez foi em junho. Eu fui candidato, mantive minha candidatura e fui o senador mais bem votado da história da Bahia", destacou.
O parlamentar também confirmou ter sido procurado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva após a ação policial e avaliou que, pelo teor da conversa, deverá ser mantido na liderança do governo no Senado.
"Eu acho, sinceramente, muito difícil que ele mexa na minha posição pela relação que a gente tem e pela confiança que ele tem em mim. Ele fez questão de me ligar, de se solidarizar comigo, e ele que já teve problemas até maiores do que esses", ponderou.