O ex-governador Ciro Gomes (PSDB) afirmou que não assistiu nem pretende assistir ao vídeo em que Michelle Bolsonaro expôs atritos com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e criticou a aliança do PL no Ceará com seu grupo político. Para Ciro, a crise envolve a direção nacional do partido e deve ser resolvida internamente pela legenda. "Eu juro pra você que eu não vi o vídeo. E não vou ver", disse Ciro.
Michelle publicou um vídeo de 27 minutos nas redes sociais no qual afirmou ter sido maltratada e humilhada por Flávio Bolsonaro em uma ligação telefônica. Segundo ela, o episódio ocorreu após um discurso, em novembro de 2025, em que criticou a aproximação do PL cearense com Ciro Gomes para as eleições. Ele é pré-candidato a governador com o apoio de lideranças do PL no Estado, para contrariedade de Michelle.
"Pergunta para o PL"
Questionado pela imprensa cearense a respeito das declarações de Michelle, Ciro disse que a disputa ultrapassa a política local e envolve tensões da política nacional. O ex-governador afirmou que seguirá focado no projeto eleitoral no Ceará e evitou rebater diretamente a ex-primeira-dama.
"Isso é uma questão do PL nacional e envolve coisas muito mais complexas do que a nossa paróquia aqui", declarou.
Segundo Ciro, sua articulação no Estado tem como eixo "um projeto de emancipação do Ceará". Ele citou críticas à segurança pública, à saúde e à economia estadual, mas disse que não pretende entrar na crise interna do bolsonarismo.
"A participação na política nacional é extremamente constrangedora por dois polos. Então não é possível que eu trate desse assunto. Portanto, eu só respeito o problema do PL. O PL que vai resolver isso daí. Então pergunta pro PL", afirmou.
Michelle defende Girão
A crise no Ceará ganhou dimensão nacional porque Michelle apoia a pré-candidatura do senador Eduardo Girão (Novo) ao governo do Estado. No vídeo, ela criticou a possibilidade de aliança do PL com Ciro ainda no primeiro turno e defendeu candidatura própria da direita. "Não poderia ficar calada diante de uma aliança com Ciro Gomes no primeiro turno enquanto tivermos um candidato verdadeiro de direita", afirmou Michelle.
A ex-primeira-dama também citou ataques de Ciro a Jair Bolsonaro e aos filhos do ex-presidente. Ela atribuiu ao ex-governador responsabilidade pela inelegibilidade do marido e disse que ele nunca terá seu apoio.
Apesar das críticas, Michelle afirmou que não exige o rompimento da articulação no Ceará. Segundo ela, a parceria com o grupo de Ciro poderia ser discutida apenas em um eventual segundo turno, por "coerência ideológica". "Não estou exigindo que se desfaça nenhuma aliança no Ceará", disse.
Disputa pelo Senado
Além da aliança para o governo, Michelle expôs divergências sobre a composição da chapa ao Senado. O deputado estadual Alcides Fernandes (PL), pai do deputado federal André Fernandes (PL-CE), é pré-candidato pelo partido.
Michelle criticou a candidatura de Alcides e afirmou que a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL) teria sido o nome inicialmente acordado por Jair Bolsonaro para a disputa. Priscila é vice-presidente do PL Mulher, seção partidária comandada pela ex-primeira-dama.
O embate revelou uma disputa por influência sobre as decisões do PL nos Estados e atinge a articulação eleitoral da direita para 2026. Flávio tenta se consolidar como pré-candidato à Presidência, enquanto Michelle cobra protagonismo dentro do partido.
Flávio negou ter humilhado a madrasta e disse que jamais desrespeitaria a esposa de seu pai. Depois, afirmou reconhecer o trabalho da ex-primeira-dama junto ao eleitorado feminino e defendeu a reconciliação. Michelle, por sua vez, negou disputa com Flávio e disse que o foco da oposição deve ser enfrentar o governo Lula.
Michelle lidera as pesquisas para o Senado no Distrito Federal. O discurso duro contra Flávio reacendeu rumores de uma possível candidatura dela à Presidência caso o senador encontre dificuldades na disputa contra o presidente Lula.