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E se Machado de Assis escrevesse sobre a piscina do "Grupo Seleto"?

Fotografia de políticos reunidos em piscina inspira exercício de imaginação: como o Bruxo do Cosme Velho narraria a cena que ganhou repercussão em Brasília?

11/8/2026
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Uma piscina, alguns próceres da República e um grupo de WhatsApp chamado, sem qualquer constrangimento com o peso do adjetivo, "Seleto". Talvez não fosse preciso muito mais para despertar a curiosidade de Machado de Assis.

A fotografia de políticos reunidos em piscina ganhou repercussão depois de vir a público em meio às investigações da Polícia Federal. Mais do que a cena em si, chamou atenção a combinação tão brasileira de poder, intimidade e circunstância.

Machado morreu em 1908 e, portanto, nunca conheceu grupos de WhatsApp, fotografias de celular ou as modernas formas de exposição da vida política. Conhecia, porém, como poucos, as vaidades, conveniências e contradições da elite brasileira.

Então, vale um exercício de imaginação literária: se o Bruxo do Cosme Velho estivesse entre nós, como transformaria a fotografia em crônica?

Há banhos que vêm para bem

Ainda acerca de Machado de Assis, ousamos imaginar o que escreveria o velho cronista diante da já célebre fotografia dos próceres da República numa piscina.

A cena, convenhamos, é machadiana antes mesmo de Machado pôr-lhe a pena: homens públicos em momento privado, reunidos num grupo chamado, com admirável modéstia, "Seleto".

Talvez escrevesse assim:

"Leitor, não te assustes com a piscina. A água não tem partido, nem o cloro conhece situação ou oposição. Recebe igualmente senador, deputado e advogado, sem indagar a nenhum deles a legenda, o mandato ou as relações. Há nisso uma bela lição republicana.

Chamava-se o ajuntamento Grupo Seleto. Não discutirei o adjetivo. Os adjetivos, como os homens públicos, valem muito pelo lugar em que se assentam.

Dirás que estavam apenas a banhar-se. Concordo. Nunca fui homem de negar a ninguém o direito ao banho. Observo somente que certas fotografias possuem uma propriedade que falta às pessoas: depois de mergulhadas, acabam vindo à tona.

Quanto ao resto, não suponhas nada. Eu também nada suponho. Limito-me a contemplar a cena.

Em política, como nas piscinas, o prudente é verificar a profundidade antes de mergulhar."

Há banhos que vêm para bem.Congresso em Foco com Inteligência Artificial

Machado e a política do século 21

A graça do exercício está justamente na distância de mais de um século. Machado não precisaria conhecer os personagens da fotografia para reconhecer alguns dos tipos humanos que povoaram suas crônicas, contos e romances.

O escritor fez da observação das aparências, dos interesses e das relações de poder uma de suas marcas. Seus personagens frequentemente dizem uma coisa, pensam outra e fazem uma terceira, enquanto o narrador observa tudo com uma ironia que raramente entrega ao leitor um julgamento pronto.

Talvez por isso uma fotografia de homens públicos numa piscina pudesse render mais a Machado do que a própria água permite enxergar.

Afinal, para o velho cronista, provavelmente o mais interessante não estaria dentro da piscina.

Estaria nas margens.

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