As pesquisas mais recentes colocam o presidente Lula (PT) numericamente à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno, com diferenças de um a cinco pontos percentuais. O cenário é apertado, com empate técnico em parte dos levantamentos, mas a eleição de 2022 mostra por que simulações feitas antes mesmo do primeiro turno devem ser lidas com cautela.
Na última semana, quatro pesquisas nacionais testaram esse confronto direto. O PoderData/Aya apontou 45% para Lula e 44% para Flávio; o BTG/Nexus, 46% a 45%; o Datafolha, 47% a 43%; e a Indexa/Broadcast, 46% a 41%.
Há quatro anos, às vésperas do primeiro turno, dez levantamentos nacionais reunidos pelo Congresso em Foco, com coleta encerrada entre 26 de setembro e 1º de outubro, projetavam vantagem de Lula sobre Jair Bolsonaro (PL) de 5,3 a 18,3 pontos percentuais, considerados apenas os dois candidatos. Em 30 de outubro, Lula venceu por 1,8 ponto, com 50,90% dos votos válidos contra 49,10%, diferença de 2,14 milhões de votos.
A comparação considera somente Lula e Bolsonaro, excluindo brancos, nulos e indecisos. Os percentuais recalculados pelo Congresso em Foco colocam os levantamentos na mesma base do resultado oficial em votos válidos. A diferença em relação às urnas não deve ser tratada simplesmente como erro de previsão. As pesquisas mostravam a preferência do eleitor naquele momento. Até a votação definitiva, houve o primeiro turno, redistribuição de votos, novos apoios e quatro semanas de campanha entre apenas dois candidatos.
Bolsonaro já apareceu subestimado no primeiro turno
Parte da distância ficou evidente em 2 de outubro. Lula recebeu 48,43% dos votos válidos, e Bolsonaro, 43,20%. Na véspera, o Datafolha indicava 50% a 36% dos válidos; o Ipec, 51% a 37%; e a Quaest, 49% a 38%. Lula terminou relativamente perto dessas projeções, enquanto Bolsonaro obteve de cinco a sete pontos a mais.
Uma das explicações possíveis é a mudança tardia de voto. Estudo dos cientistas políticos Frederico Batista Pereira e Felipe Nunes, publicado em 2024 na revista Opinião Pública, encontrou maior propensão à mudança entre indecisos e eleitores de candidaturas menores e aponta o voto estratégico e a definição nos últimos dias como fatores capazes de explicar parte da discrepância.
O resultado do primeiro turno também reorganizou a disputa. Com nove candidatos eliminados, milhões de eleitores tiveram de escolher entre Lula, Bolsonaro, branco, nulo ou abstenção.
Bolsonaro ganhou 7,1 milhões de votos
O então presidente candidato à reeleição foi quem mais aumentou sua votação entre os turnos. Lula passou de 57,26 milhões para 60,35 milhões de votos, acréscimo de 3,09 milhões. Bolsonaro saltou de 51,07 milhões para 58,21 milhões, ganho de 7,13 milhões — mais que o dobro.
Os nove candidatos eliminados haviam somado 9,90 milhões de votos, e o total de válidos cresceu cerca de 323 mil na segunda votação. Juntos, Lula e Bolsonaro acrescentaram 10,22 milhões. Os números mostram o tamanho do eleitorado ainda em disputa, mas não permitem identificar para onde migrou cada voto.
Isso ocorreu apesar do apoio a Lula de Simone Tebet, então no MDB e terceira colocada, e do PDT, de Ciro Gomes. Ciro disse que acompanharia a decisão do partido, mas não participou ativamente da campanha.
No primeiro Datafolha do segundo turno, 42% dos eleitores de Ciro preferiam Bolsonaro, ante 31% para Lula. Entre os de Tebet, Lula tinha 31% e Bolsonaro, 29%. Uma semana depois, Lula já liderava nos dois grupos: 40% a 31% entre os eleitores de Ciro e 41% a 29% entre os de Tebet.
O crescimento de Bolsonaro pode ter incluído votos de candidatos eliminados, brancos ou nulos, abstencionistas do primeiro turno e até mudanças entre os próprios finalistas. O dado seguro é que ele incorporou muito mais votos líquidos que Lula e reduziu fortemente a distância.
Resultados mais próximos
Depois das críticas pela subestimação de Bolsonaro no primeiro turno, os principais institutos se aproximaram mais das urnas em 30 de outubro. Entre 11 empresas que divulgaram levantamentos na última semana, oito apontavam vitória de Lula. Em quatro, o resultado oficial (50,90% a 49,10%) ficou dentro da margem de erro.
O contraste reforça a diferença entre uma simulação feita antes do primeiro turno e uma pesquisa realizada já na reta final entre apenas dois candidatos.
Em 2022, uma vantagem de pelo menos 5,3 pontos para Lula nas simulações feitas antes do primeiro turno caiu para 1,8 ponto após a primeira votação e quatro semanas de campanha.
Hoje, quatro pesquisas recentes dão ao petista vantagem de um a cinco pontos sobre Flávio. O precedente não indica para onde a disputa irá, mas mostra os limites dessa fotografia. Faltam 38 dias para o primeiro turno, em 4 de outubro, e 59 para um eventual segundo turno, em 25 de outubro.