A disputa entre iFood e Keeta, que chegou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) após acusações de práticas predatórias no mercado brasileiro de delivery, pode produzir consequências que ultrapassam a concorrência entre aplicativos.
Para Bruna Santos, diretora do Programa Brasil no Inter-American Dialogue, a forma como empresas chinesas atuam no cotidiano dos brasileiros passou a influenciar também a percepção sobre a própria China. Na avaliação da especialista, eventuais conflitos trabalhistas, problemas com comunidades ou questionamentos concorrenciais podem corroer parte do capital reputacional construído por Pequim na América Latina.
"Parte da vantagem que a China construiu na América Latina nos últimos anos está justamente na percepção de que é um parceiro relativamente pragmático, menos interventivo e interessado em relações econômicas de benefício mútuo. Isso aparece nas pesquisas de opinião e também é central na própria narrativa diplomática que Pequim promove para a região."
O debate ganhou força depois que o iFood protocolou na segunda-feira (31) representação no Cade contra a Keeta, plataforma controlada pela chinesa Meituan. A empresa brasileira acusa a concorrente de sustentar preços abaixo do custo com recursos da matriz para conquistar participação no mercado.
Para Bruna Santos, o episódio precisa ser analisado dentro de uma transformação mais ampla da presença empresarial chinesa no exterior. A chegada de companhias chinesas a setores diretamente ligados ao cotidiano da população modifica a natureza da relação entre Brasil e China.
"À medida que empresas chinesas deixam de ser apenas exportadoras e passam a operar diretamente em outros países, elas entram em contato com ambientes institucionais muito diferentes, legislação trabalhista, regras concorrenciais, comunidades locais, autoridades reguladoras e padrões de compliance que variam enormemente de mercado para mercado. Isso produz uma curva de aprendizado e, em alguns casos, conflitos importantes."
A especialista explica que boa parte dessa relação esteve associada à exportação de commodities, a grandes investimentos, à infraestrutura e a negociações entre governos. Agora, a presença chinesa está também no celular, no carro, no emprego e no aplicativo usado para pedir uma refeição.
"Hoje ela acontece também quando alguém compra um carro da BYD, usa um celular Xiaomi, trabalha em uma empresa chinesa ou pede comida por uma plataforma controlada por um grupo chinês", explica Bruna.
A Keeta representa justamente essa nova etapa. Controlada pela Meituan, uma das gigantes chinesas do setor de serviços e delivery, a plataforma tem avançado sobre o mercado brasileiro em meio a uma disputa intensa que pode chegar a ser avaliada como desleal pelo Cade. A controvérsia apresentada pelo iFood acrescenta uma dimensão regulatória a essa expansão.
Bruna Santos chama atenção justamente para a conexão entre comportamento empresarial e reputação internacional. "Isso significa que a licença social para operar dessas empresas ganha uma dimensão geopolítica", afirma.
A chamada licença social está relacionada ao grau de aceitação e confiança que uma empresa consegue construir entre trabalhadores, consumidores e comunidades nos lugares em que atua. Caso o cenário denunciado pelo iFood se concretize e os preços predatórios se transformem em prejuízo, as relações entre China e Brasil podem ser postar à prova.
"Eu teria cuidado em dizer que uma empresa privada chinesa representa diretamente o governo chinês. Mas, do ponto de vista da opinião pública, essa separação nem sempre é tão clara. A experiência concreta com empresas chinesas passa a fazer parte da imagem que as pessoas formam sobre a própria China."