Em poucas horas, uma imagem acostumada aos altares, às procissões e aos pequenos oratórios domésticos foi carregada para outro cortejo: o da campanha presidencial. Desta vez, não em andor, mas pelas redes sociais.
Nossa Senhora Aparecida entrou no centro da eleição.
Seria simples demais, porém, reduzir o episódio apenas a uma história que ganhou as redes. Fala-se em fake news, mas o terreno cultural e religioso sobre o qual essa história floresceu é bem verdadeiro.
Flávio Bolsonaro se declara evangélico e fez da aproximação com igrejas e lideranças evangélicas uma das frentes de sua campanha.
E é justamente aí que Nossa Senhora entra nessa eleição.
A devoção a Maria é, historicamente, um dos pontos de maior divergência entre católicos e protestantes. Em setores evangélicos, a veneração mariana é rejeitada por ser entendida como incompatível com a centralidade de Cristo; nas manifestações mais radicais, chega a ser qualificada como idolatria.
De modo que a tensão existe e ajuda a explicar por que uma história sobre a Padroeira do Brasil encontrou tamanho combustível político.
Ademais, há um documento verdadeiro que dá substância à narrativa. O PL 2.623/07 realmente propôs alterar a condição legal de Nossa Senhora Aparecida, substituindo a expressão "Padroeira do Brasil" por "Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos".
O projeto, é certo, não tramita atualmente e foi arquivado há quase duas décadas. Entretanto, convém notar que o autor da proposição foi assessor de Jair Bolsonaro na presidência da República, fato que se liga, umbilicalmente, ao candidato Flávio Bolsonaro (PL).
Há ainda uma segunda camada no episódio: a resposta da Justiça Eleitoral.
Ao considerar "notoriamente inverídica" a associação de Flávio Bolsonaro ao projeto, ministro André Mendonça determinou uma retirada de conteúdo de alcance incomum.
A ordem atingiu cerca de 1.100 links e não ficou restrita à reprodução literal da informação: alcançou também publicações consideradas "substancialmente equivalentes", fossem elas textos, imagens, vídeos ou memes. Ao mesmo tempo, o próprio ministro ressalvou que crítica, sátira, opinião política e conteúdo jornalístico deveriam permanecer protegidos.
Na prática, porém, essa fronteira mostrou-se bem menos nítida. Entraram na lista manifestações de naturezas muito diferentes. O humorista Antonio Tabet teve retirada uma postagem que sequer mencionava Flávio Bolsonaro nominalmente.
Entre os links alcançados havia publicação de perfil dedicado ao Santuário Nacional de Aparecida e conteúdo que apenas recuperava a história do projeto de 2007.
O caso, portanto, traz uma pergunta que vai além da veracidade da informação original: até onde pode ir a Justiça Eleitoral ao retirar uma suposta falsidade de circulação sem levar junto a ironia, a crítica e o próprio debate sobre o fato?
Estamos nós aqui correndo risco dessa censura?
Há, por fim, uma coincidência política e religiosa que não pode ser ignorada — embora tampouco autorize conclusões sobre a motivação do ministro.
André Mendonça é pastor presbiteriano e chegou ao Supremo por indicação de Jair Bolsonaro. Anos antes da nomeação, o então presidente havia anunciado que escolheria para a Corte alguém "terrivelmente evangélico"; em 2021, indicou Mendonça.
Agora, esse mesmo ministro, no TSE, é chamado a decidir uma controvérsia eleitoral que reúne três elementos especialmente sensíveis: um dos maiores símbolos do catolicismo brasileiro, um candidato evangélico e filho do presidente que o indicou ao Supremo, e uma disputa histórica entre diferentes tradições cristãs em torno da devoção a Maria.
Nada disso torna um boato verdadeiro. Mas também seria empobrecer o episódio tratá-lo como um simples boato de internet.
Com efeito, o ambiente político, religioso e institucional que permitiu que essa história germinasse é bem mais complexo.
Do altar ao palanque
A velocidade da reação ajuda a medir a sensibilidade do assunto.
Levantamento apontou que cerca de 37% das mensagens analisadas sobre o episódio tratavam a informação como verdadeira.
E, uma vez aberta a procissão política, os dois lados se movimentaram.
A primeira-dama Janja publicou uma fotografia de Lula segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que ele e Lula preservariam as tradições religiosas e católicas.
Do outro lado, Flávio gravou vídeos negando a história e sua campanha recorreu à Justiça Eleitoral para interromper sua circulação.
Não há, até aqui, pesquisa que permita afirmar que a controvérsia tenha alterado intenção de voto. O efeito mensurável, por enquanto, está na dimensão da repercussão digital.
Mas é fácil compreender por que as campanhas correram para perto desse altar.
Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma figura da doutrina católica. Ao longo de três séculos, tornou-se um dos símbolos religiosos mais reconhecíveis do país, presente em igrejas e santuários, mas também em casas, medalhas, escapulários, terços, promessas e romarias.
E o manto da devoção alcança uma parcela enorme da população brasileira.
Um país ainda majoritariamente católico
O dado mais abrangente é do Censo de 2022.
Segundo o IBGE, 100,2 milhões de brasileiros se declararam católicos apostólicos romanos: 56,7% da população. Em 2010, eram 65,1%. O catolicismo perdeu participação relativa, mas continua sendo, com ampla margem, a religião mais declarada no país.
Isso não significa, evidentemente, que exista um "voto católico". Os católicos não formam um bloco político homogêneo. O número serve para outra coisa: dimensionar o tamanho da audiência potencial de qualquer controvérsia que toque um dos principais símbolos dessa fé.
E a presença católica varia bastante pelo mapa. No Piauí, 77,4% da população se declarou católica; no Ceará, 70,4%; na Paraíba, 69%. No Distrito Federal, são 49,7%; no Rio de Janeiro, 38,9%.
Em eleição, portanto, Nossa Senhora carrega milhões de votos debaixo do manto.
Uma só Maria, muitos nomes
Há, neste ponto, uma dúvida bastante comum entre quem não acompanha de perto a tradição católica.
Se existem Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora das Graças e tantas outras, afinal, quantas Nossas Senhoras existem?
A resposta é simples: uma. Apenas uma.
Para o catolicismo, todas essas denominações se referem a Maria, mãe de Jesus. O que muda é a invocação: o título pelo qual ela é venerada em razão de um lugar, de um episódio, de uma tradição ou de determinado aspecto de sua vida.
Mudam o nome, a festa, o santuário, a iconografia e, às vezes, até as vestes e o manto. Maria, para a fé católica, é a mesma.
Alguns títulos nasceram da geografia da devoção. Nossa Senhora de Fátima recebe o nome da cidade portuguesa associada às aparições relatadas em 1917. Nossa Senhora de Lourdes remete à localidade francesa ligada às aparições a Bernadette Soubirous.
Outros lembram episódios ou aspectos da vida de Maria. Nossa Senhora das Dores se refere ao sofrimento da mãe diante da Paixão e da morte de Jesus.
Já Nossa Senhora da Conceição está ligada à Imaculada Conceição; o dogma segundo o qual Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua própria concepção. É um erro comum: a Imaculada Conceição não é a concepção de Jesus, mas a de Maria.
E, no Brasil, essa invocação tem raízes profundas.
O dia 8 de dezembro, dedicado à Imaculada Conceição, é feriado em numerosas cidades e ocasião de missas, procissões, alvoradas e festas populares. O Ministério do Turismo já registrou a devoção de norte a sul e apontou Nossa Senhora da Conceição como padroeira de Estados e de centenas de municípios.
Há ainda uma coincidência particularmente saborosa para o mundo jurídico: 8 de dezembro é também o Dia da Justiça e feriado forense na Justiça Federal e nos tribunais superiores. Isso, registre-se, não transforma Nossa Senhora da Conceição em "padroeira oficial da Justiça"; as duas celebrações apenas dividem a mesma casa no calendário.
A escolha das datas também encerra sua pequena lógica litúrgica. A Igreja celebra a Natividade de Maria em 8 de setembro, exatamente nove meses depois de 8 de dezembro, dia de sua concepção. A festa da Conceição é muito anterior a 1854, ano em que o papa Pio IX formalizou o dogma da Imaculada Conceição.
E é justamente Nossa Senhora da Conceição que nos leva de volta à personagem desta eleição e dessa reportagem.
Das redes do Paraíba às redes sociais
Há uma ironia histórica digna de registro.
A imagem que em 2026 correu pelas redes sociais entrou na história brasileira, em 1717, por meio de outras redes: as de três pescadores no rio Paraíba do Sul.
Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves pescavam quando retiraram das águas primeiro o corpo de uma pequena imagem quebrada na altura do pescoço. Em seguida, veio a cabeça.
Reunidas as partes, identificou-se uma representação de Nossa Senhora da Conceição. A tradição conta que, depois do encontro da imagem, a pesca até então escassa se tornou abundante. Como a pequena Senhora da Conceição havia "aparecido" nas águas, a devoção popular começou a chamá-la de Aparecida.
Nascia, assim, Nossa Senhora da Conceição Aparecida.
Com o tempo, a Conceição ficou escondida no nome e prevaleceu simplesmente Aparecida. Mas as duas invocações que parecem, à primeira vista, santas distintas se encontram na mesma pequena imagem.
A devoção, inicialmente cultivada em ambiente familiar e em pequenos oratórios, cresceu, ganhou capela, igreja, basílica e, por fim, um Santuário Nacional que hoje recebe milhões de peregrinos. Nossa Senhora Aparecida foi proclamada Padroeira do Brasil em 1930.
Meio século depois, o título atravessou também as portas da legislação.
A lei 6.802, sancionada em 30 de junho de 1980 pelo presidente João Figueiredo e ainda em vigor, declarou 12 de outubro feriado nacional "para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil".
Era justamente essa frase que o malogrado projeto apresentado em 2007 pretendia modificar.
Entre o altar e a urna
É aí que uma história de pescadores, dogmas, procissões e devoção popular desemboca na eleição presidencial de 2026.
Quando se atribui a um candidato a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, não mexe apenas com algumas palavras de uma lei de 1980.
Toca numa devoção que começou às margens de um rio há mais de três séculos, percorreu capelas e santuários, vestiu mantos, reuniu romarias e acabou inscrita até no calendário oficial da República.
E toca um país no qual mais da metade da população se declara católica.
Isso ajuda a explicar por que esse episódio correu de celular em celular, provocou reação de candidatos e aliados e chegou, em questão de horas, ao Tribunal Superior Eleitoral.
A história também fechou uma espécie de círculo.
Em 1717, Nossa Senhora Aparecida surgiu de uma rede.
Em 2026, foi outra rede que a colocou no centro da política.