Com um em cada quatro integrantes do Congresso a partir de 2027, o PL ganhará autonomia para tomar sozinho algumas iniciativas e ampliará seu peso nas principais negociações do Legislativo. No Senado, por exemplo, os 28 integrantes projetados serão suficientes para reunir as 27 assinaturas necessárias à apresentação de uma proposta de emenda à Constituição (PEC).
O crescimento no Senado também reforça uma das prioridades políticas do partido nesta eleição: aumentar o número de parlamentares favoráveis ao avanço de processos de impeachment de ministros do STF. A estratégia foi defendida ao longo da campanha por lideranças e candidatos ligados ao PL.
Pressão sob o Supremo
A nova composição amplia a pressão política sobre o Supremo, mas não dá ao partido votos suficientes para aprovar sozinho o afastamento de um ministro. Também aumenta o peso do PL na disputa pela presidência do Senado, posto estratégico porque cabe ao comando da Casa decidir sobre o andamento inicial dos pedidos de impeachment apresentados contra integrantes da Corte.
O PL elegeu no domingo (4) 121 deputados e 19 senadores e, pela projeção atual do Senado, começará 2027 com 28 integrantes na Casa. Somadas, as duas bancadas chegarão a 149 dos 594 congressistas — 25,1% do total. No Senado, o partido ocupará 34,6% das cadeiras; na Câmara, 23,6%.
Os números darão ao PL as maiores bancadas partidárias das duas Casas sob a Constituição de 1988. No Senado, os 28 projetados formarão a maior bancada no início de uma legislatura desde a promulgação da atual Constituição. Na Câmara, os 121 eleitos representam a maior bancada saída das urnas desde a eleição da Constituinte, em 1986.
O que o PL poderá fazer sozinho
O efeito mais concreto da nova correlação de forças aparece no Senado. Uma PEC pode ser apresentada por pelo menos um terço dos integrantes da Casa, ou 27 senadores. Com 28, o PL ultrapassará sozinho esse patamar.
Apresentar, porém, é diferente de aprovar. Uma mudança na Constituição exige 49 votos — três quintos dos 81 senadores — em dois turnos. Mesmo que toda a bancada vote unida, serão necessários outros 21 votos.
Na Câmara, os 121 deputados também estão distantes dos principais quóruns: são necessários 257 votos para maioria absoluta e 308 para aprovar uma PEC.
O quadro mostra o alcance e o limite da nova bancada: o PL poderá iniciar sozinho determinadas movimentações, mas continuará dependendo de alianças para alcançar os principais quóruns.
Senado maior era prioridade para pressionar o STF
A eleição de uma bancada maior no Senado era um objetivo estratégico do PL em 2026. Durante a campanha, lideranças e candidatos do partido defenderam ampliar o número de senadores favoráveis a fazer avançar pedidos de impeachment de ministros do STF.
A estratégia tinha duas frentes. A primeira era aumentar diretamente o número de votos disponíveis para uma eventual articulação pelo afastamento de integrantes da Corte. A segunda, ganhar peso na eleição para a presidência do Senado.
O comando da Casa tem papel decisivo no início desses processos, já que pedidos de impeachment contra ministros do Supremo são encaminhados à Presidência do Senado, que decide sobre seu prosseguimento. Uma bancada de 28 integrantes também representa um bloco relevante de votos na eleição interna para o comando da Casa.
Apoio para impeachment
Mas o crescimento do PL, sozinho, não resolve a conta do impeachment. Pelas regras atualmente aplicadas, são necessários 54 votos para alcançar o quórum de dois terços. Mesmo que os 28 senadores da legenda votem na mesma direção, ainda será necessário conquistar o apoio de outros 26.
É nesse ponto que o resultado eleitoral aumenta a pressão política sobre o Supremo sem garantir ao PL o resultado pretendido. A legenda passa a controlar mais de um terço das cadeiras do Senado e forma um núcleo numeroso para buscar votos em outras bancadas, mas continua dependente delas para alcançar os quóruns necessários.
A nova bancada também terá peso nas futuras indicações para o STF. Cabe ao Senado aprovar os nomes escolhidos pelo presidente da República para a Corte. São necessários pelo menos 41 votos. Com 28 integrantes, o PL ficará a 13 desse patamar.
Mais peso nos comandos e nas comissões
O tamanho das bancadas também ampliará a influência do PL nas negociações pelas presidências da Câmara e do Senado. As eleições são secretas e dependem da construção de maioria, o que significa que nem os 121 deputados nem os 28 senadores garantem ao partido o comando das Casas.
A representação também conta na distribuição de postos nas comissões. A Constituição determina que a composição das Mesas e dos colegiados observe, tanto quanto possível, a proporcionalidade dos partidos ou blocos. Uma bancada maior aumenta, portanto, a presença potencial do PL nesses espaços e seu peso na disputa por presidências e relatorias.
No Senado, PL ficará muito à frente das demais bancadas
O PL conquistou 19 das 54 cadeiras do Senado submetidas às urnas, ou 35,2%. É o maior número de senadores eleitos por uma única legenda num mesmo pleito sob a Constituição de 1988. O recorde anterior era de 14, alcançado pelo PMDB em 1994 e 2010 e pelo PFL em 2002.
O partido também conseguiu cinco dobradinhas, elegendo os dois senadores no Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina.
Marca histórica
Como apenas dois terços da Casa foram renovados, os 19 eleitos se juntarão aos parlamentares de meio de mandato. Pela projeção atual do Senado, o PL começará 2027 com 28 dos 81 integrantes, ou 34,6% da Casa. PT, com 9, e MDB, com 8, aparecem em seguida entre as bancadas partidárias.
Será a maior bancada de um partido no início de uma legislatura sob a Constituição de 1988, superando os 27 senadores com que o PMDB começou 1999. No período da redemocratização, apenas a bancada do PMDB formada a partir das eleições de 1986 foi maior: a legenda elegeu 38 senadores e chegou à Constituinte com 45 ao serem considerados os parlamentares de meio de mandato.
O novo Congresso terá um perfil mais favorável a Flávio Bolsonaro (PL), que terminou o primeiro turno na liderança e enfrentará Lula (PT) no segundo. Se Flávio vencer, encontrará uma bancada partidária robusta nas duas Casas. Se Lula for reeleito, terá pela frente um Congresso com presença ainda maior do principal partido de oposição, ampliando a necessidade de negociação para formar maiorias.
Maior bancada da Câmara desde 1986
Na Câmara, o PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ou 23,6% da Casa. É a maior bancada partidária saída das urnas desde 1986, quando o PMDB conquistou 260 das 487 vagas e obteve sozinho a maioria absoluta.
Desde então, PMDB, PFL e PT se alternaram na liderança. O PL chegou à primeira posição em 2022, com 99 deputados eleitos, e agora amplia a bancada para 121.
A projeção do Senado ainda pode sofrer alterações até fevereiro. Mas, se os 28 integrantes se confirmarem, mais de um em cada três senadores será do PL. Somadas as duas Casas, aproximadamente um em cada quatro congressistas pertencerá ao partido.
O resultado dá ao PL autonomia para algumas iniciativas e amplia sua capacidade de negociação, mas não lhe entrega maioria para decidir sozinho as principais votações. No Senado, a bancada recorde aproxima o partido de um objetivo perseguido durante a campanha — criar uma base maior para pressionar pelo avanço de processos contra ministros do STF —, mas o êxito dessa estratégia continuará dependendo do apoio de senadores de outras legendas.