Apenas 34.330 votos foram registrados a partir das 17h no segundo turno presidencial, realizado neste domingo (25), de acordo com levantamento do Congresso em Foco baseado nos arquivos oficiais das urnas eletrônicas disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O número equivale a 0,027% dos 128,2 milhões de eleitores que compareceram às urnas e a 0,77% da diferença de 4,43 milhões de votos pela qual Lula (PT) derrotou Flávio Bolsonaro (PL).
A análise revela que 28.257 desses votos (82,3%) foram registrados em urnas que tiveram seu último voto antes das 17h05, apenas dois minutos depois da divulgação da decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, que prorrogou a votação até as 19h. A orientação nacional do TSE para cumprimento da medida só foi encaminhada às 17h49, embora tribunais regionais tenham comunicado a determinação anteriormente.
A concentração dos registros nos primeiros minutos após as 17h é compatível com a votação de eleitores que já estavam na fila e tinham direito de votar independentemente da decisão judicial. O dado sugere que o número de votos efetivamente possibilitados pela prorrogação pode ser substancialmente menor que os 34.330 identificados, embora não permita determinar o total exato.
Os dados foram extraídos dos chamados logs das urnas eletrônicas, arquivos que funcionam como um diário de cada equipamento. Eles registram cronologicamente as operações realizadas durante a votação, incluindo os horários de confirmação dos votos, sem identificar em quem cada eleitor votou.
O levantamento identificou registros em 29.854 seções eleitorais de 3.346 municípios, distribuídos pelas 27 unidades da Federação. Em 87,1% dessas seções, o último voto ocorreu antes das 17h05.
Sudeste e Nordeste concentram 74% dos registros
O Sudeste respondeu por 15.557 votos registrados a partir das 17h, equivalentes a 45,3% do total nacional. O Nordeste aparece em segundo lugar, com 9.975 (29,1%). Juntas, as duas regiões concentraram 74,4% dos registros.
No Norte, foram contabilizados 3.535 votos (10,3%); no Centro-Oeste, 3.045 (8,9%); e no Sul, 2.218 (6,5%).
São Paulo liderou entre os estados, com 8.860 registros, seguido pela Bahia (4.190), Rio de Janeiro (4.150), Minas Gerais (2.253) e Pernambuco (1.636).
Estados com mais votos a partir das 17h
Entre os municípios, a capital paulista registrou 4.492 votos, seguida por Rio de Janeiro (2.341), Salvador (1.768), Brasília (980) e Manaus (621). Em 1.035 dos municípios identificados, houve apenas um registro no período.
Os totais absolutos são influenciados pelo tamanho dos eleitorados e não indicam, necessariamente, maior incidência proporcional de votação após o horário normal.
PT alegou falta de ônibus; PL apontou chuvas e alagamentos
As campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro solicitaram ao TSE a prorrogação da votação por duas horas, mas apresentaram justificativas e abrangências diferentes.
Às 13h22, o PT pediu a extensão do horário em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, na Bahia, alegando redução da frota de ônibus, longas esperas e dificuldades de deslocamento. Posteriormente, relatou problemas em outras localidades e, às 15h42, ampliou a solicitação para todo o território nacional.
A campanha de Flávio apresentou seu pedido às 15h50, apontando chuvas intensas, alagamentos, interdições de vias e interrupções no fornecimento de energia. O PL solicitou a ampliação do horário em 19 municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, além do adiamento da divulgação dos resultados até o encerramento da votação nessas localidades.
Às 16h22, a campanha petista também acionou o STF, argumentando que a prorrogação nacional era necessária para assegurar o direito de voto dos eleitores prejudicados pelos problemas de transporte.
Decisão chegou quando a maioria das urnas já havia encerrado a votação
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, recebeu solicitações de prorrogação durante a tarde e buscou esclarecimentos técnicos sobre as dificuldades relatadas, mas não decidiu a extensão do horário antes das 17h.
No STF, o pedido da campanha petista foi encaminhado ao ministro Cristiano Zanin às 16h33. A decisão de ampliar a votação até as 19h foi divulgada às 17h03, quando parte das urnas já havia sido encerrada.
A determinação inicial abrangia todo o país. Posteriormente, Zanin esclareceu que a medida valeria apenas para as seções ainda abertas, sem reabertura das urnas encerradas.
Às 17h49, Kassio encaminhou a orientação nacional à Justiça Eleitoral. A comunicação, porém, não ocorreu simultaneamente em todo o país. Em São Paulo, o TRE informou ter comunicado os juízes eleitorais às 17h18, quando cerca de 80% das seções do estado já estavam fechadas. No Distrito Federal, onde as urnas haviam sido encerradas, a prorrogação não resultou em reabertura.
Kassio determinou o cumprimento da decisão, mas criticou as dificuldades operacionais provocadas pela medida tardia. A totalização e a divulgação dos resultados foram temporariamente suspensas e retomadas depois das 19h.
Na noite de domingo, o presidente do TSE assegurou que a decisão judicial não comprometeu a apuração. "Não houve nenhuma alteração advinda da decisão judicial", afirmou. Kassio acrescentou: "Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral."
Flávio pediu prorrogação, mas agora quer anular eleição
Embora sua campanha também tenha solicitado a ampliação do horário, Flávio Bolsonaro passou a questionar a medida depois da derrota. Na noite de domingo, anunciou que não reconheceria o resultado e que recorreria à Justiça para tentar anular a eleição, alegando quebra da igualdade de condições entre os eleitores.
"É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Vamos usar nosso jurídico, vamos pedir a anulação dessas eleições", declarou.
O próprio Kassio Nunes Marques, que determinou o cumprimento da decisão de Zanin, anunciou oficialmente a reeleição de Lula e telefonou aos dois candidatos para comunicar o resultado.
Lula recebeu 64.256.232 votos (51,79% dos válidos), contra 59.826.041 (48,21%) de Flávio. A diferença de 4.430.191 votos foi aproximadamente 129 vezes maior que o número de registros identificados a partir das 17h.
Mesmo na hipótese extrema de que todos os 34.330 votos tivessem sido destinados a um único candidato, não seriam suficientes para alterar o vencedor da eleição. A comparação numérica, porém, não resolve por si só eventuais questionamentos jurídicos sobre a prorrogação.
Quantos votos decorreram da decisão de Zanin?
A distribuição dos horários ajuda a dimensionar o possível alcance da medida. Das 29.854 seções com registros a partir das 17h, 26.004 tiveram seu último voto antes das 17h05. Nessas urnas, foram contabilizados 28.257 votos, ou 82,3% do total analisado.
Restaram 6.073 votos em seções cujo último registro ocorreu às 17h05 ou depois. Isso não significa que todos tenham sido possibilitados pela prorrogação: parte também pode ter sido dada por eleitores que já estavam na fila às 17h.
Em 1.667 seções, o último voto ocorreu às 18h ou depois desse horário. A análise identificou ainda 11 seções com registros posteriores às 19h, sendo o mais tardio às 19h06min21s, na cidade de São Paulo. Esses horários não demonstram, isoladamente, irregularidades.
O horário de cada registro, entretanto, não revela quando o eleitor chegou à seção. Por isso, mesmo a exclusão dos votos computados nos primeiros cinco minutos não permite estabelecer com precisão quantos dependeram da extensão do funcionamento das urnas.