O deputado italiano Angelo Bonelli, da Aliança dos Verdes e da Esquerda (AVS), apresentou nesta quarta-feira (28) um pedido de investigação sobre a concessão de cidadania italiana a três filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro: Flávio, Eduardo e Carlos. O parlamentar questiona se houve tratamento privilegiado da Embaixada da Itália em Brasília e cobra uma inspeção sobre os procedimentos. A iniciativa ocorre após Flávio Bolsonaro (PL-RJ) utilizar seu passaporte italiano para viajar ao exterior, após ter os documentos brasileiro e diplomático cancelados por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Na interpelação encaminhada aos ministros das Relações Exteriores e do Interior, Bonelli pede esclarecimentos sobre a possibilidade de os irmãos terem recebido uma "convocação prioritária ou em desrespeito à ordem cronológica" da fila. Caso isso tenha ocorrido, quer saber "com base em qual norma ou critério" e quem autorizou o procedimento. Os trechos foram traduzidos do italiano.
Flávio e Eduardo obtiveram a cidadania em 2023; Carlos, em 2024, conforme informações prestadas pelo próprio governo italiano em resposta a questionamentos anteriores de Bonelli. Atualmente o país europeu é liderado pela primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido de direita Irmãos da Itália.
O senador, sua esposa, Fernanda, e as duas filhas do casal desembarcaram em Miami, nos Estados Unidos, na manhã desta quarta-feira (28), após deixarem o Brasil pela fronteira terrrestre com a Argentina.
Suspeita de favorecimento
Flávio e Eduardo solicitaram inscrição na fila da Embaixada da Itália em Brasília em 2020. Em 8 de novembro de 2022, nove dias após a derrota de Jair Bolsonaro para Lula (PT), compareceram à representação diplomática para cobrar o andamento dos pedidos. A data da solicitação de Carlos não foi divulgada.
Segundo a interpelação, mais de 112 mil pedidos de cidadania aguardavam análise no Brasil em 2018. Naquele ano, a embaixada em Brasília suspendeu as convocações, embora continuasse recebendo inscrições. O documento cita relatos de que, em novembro de 2022, ainda eram convocados requerentes inscritos em 2018.
Bonelli também quer saber "qual papel teve o encontro de 8 de novembro de 2022 na embaixada" e quantas pessoas inscritas anteriormente aos filhos de Bolsonaro ainda aguardavam atendimento. O parlamentar solicita uma inspeção administrativa para verificar a regularidade dos processos. O pedido ocorre após mudanças na legislação italiana, em 2025, restringirem o reconhecimento da cidadania por descendência, afetando pessoas que aguardavam havia anos.
Embora questione a possibilidade de tratamento privilegiado, Bonelli não pede a revogação da cidadania dos irmãos nem a aplicação de sanções. O deputado cobra uma inspeção administrativa para verificar se os processos respeitaram a legislação e a ordem de atendimento dos requerentes.
Passaporte usado na viagem
Flávio utilizou o passaporte italiano para entrar na Argentina na noite de terça-feira (27) e embarcar em um avião particular com destino ao Equador, de onde seguiu para os Estados Unidos. A viagem ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes determinar a entrega de seus passaportes e proibi-lo de deixar o Brasil. O senador, derrotado por Lula no segundo turno, não cumpriu a ordem.
Na interpelação, Bonelli também menciona investigações da Polícia Federal envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a empresas ligadas ao advogado Willer Tomaz e possíveis irregularidades no financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.
O deputado italiano cita ainda o caso de Carla Zambelli, que deixou o Brasil após ser condenada pelo STF e seguiu para a Itália, onde possui cidadania. Para Bonelli, o episódio demonstra o risco de a nacionalidade italiana ser utilizada "para escapar da Justiça do próprio país".