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A senzala e a revolução de Zuckerberg

31/3/2011
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Quando me dei conta, já era tarde. Havia sido tragado pelo Facebook. Tudo o que pensava já vinha empacotado e embalado no formato Zuckerberg & Associados. E o mais grave, o que eu não pensava também.Quem é que não quer publicar e ter retorno imediato? Mesmo com 11 livros na praça, eu continuo querendo. Trata-se de uma questão de honra pra qualquer vaidoso que se preza, ainda mais prum cara como eu; carente, talentoso e verborrágico, vindo lá dos idos da Sessão Coruja. Desde o primeiro original até Maria Rita Kehl fazer a ponte com a editora Estação Liberdade, foram oito longos anos sendo recusado por editoras, e praticamente incomunicável. Bom demais publicar no facebook. Sem falar na quantidade de amigos e na possibilidade erótica que vem a reboque. Em menos de um mês consegui mais de mil amigos: nenhum deles me telefonou para saber se eu precisava de alguma coisa no dia que tive uma conjuntivite braba e fiquei impossibilitado de ?compartilhar?  pérolas na rede. Mesmo assim, os considero amigos (alguns existiam antes da internet, impressionante né?); são amigos porque existe um filtro maravilhoso para bloquear pentelhos. Mas essa possibilidade já era realidade nos blogues, diria o espírito de porco. E eu responderia. Nem tanto. O grande pulo do gato de Mark Zuckerberg  foi juntar todos os milhares de blogues e leitores de blogues e os perdidos no espaço da gosma virtual num mesmo lugar. Quase impossível não sucumbir vertiginosamente à senzala de Zuckerberg. Um lugar onde não se pode fazer corpo-mole (nem ser vitimado por uma conjuntivite ... ) sob o risco de não mais ser ?curtido? pelos amigos.Na senzala de Zuckerberg, todos trabalham felizes, e de livre e espontânea vontade. Nem parece senzala. Aqui, faço um parêntese. A imagem e a semelhança perderam a devida correspondência. Banco não parece banco. Guerra não é guerra. Sandy é devassa. Até a hipocrisia perdeu status, virou qualquer coisa amparada pela lei Rouanet. Vivemos a época dos eufemismos fantasmas. Voltando.Um amigo recente, que também conheci no mundo virtual e que graças a Deus descambou pro buteco, o Walber Schwartz, me disse o seguinte (via facebook, claro): ?O cara é odiado mas todo mundo consome o que ele faz. E usa o que ele faz para falar mal dele. A crítica é absorvida como parte do sucesso. Para mim,isso é genialidade?.Como é que eu posso discordar?  E como é que eu podia deixar de acrescentar: nerd  f.d.p  dos infernos. Gênio. Deve ser a reencarnação quádrupla de Henry Ford, Bob Fischer, Charles Manson e Costinha, tirando um sarro da nossa cara.De qualquer forma, é muito bom estar lá, receber afagos e a ?curtição? dos amigos. Um vício. Mas não deixa de ser legítima ? apesar do argumento do Walber ? minha contrariedade: não me conformo com o fato de estar enriquecendo esse nerd diabólico sem ganhar um centavo. Quando postei essa reclamação, me acusaram de estar fazendo pose de bolacha, a última do pacote. Disseram p?reu deixar de ser metido; afinal , como escritor, eu estaria lucrando com minhas reclamações, uma vez que o facebook serviria ? sobretudo - como uma vitrine. Outro xeque-mate do sr. Zuckerberg.O engraçado é que, antes do advento do facebook, esse tipo de argumento era mais do que o suficiente para mandar as simpáticas editoras de suplementos de comportamento  - que me pediam ?colaborações? - pros quintos dos infernos. Eu pensava: só o que me falta, escrever de graça pros Civitta, Alzugaray & assemelhados.Mas, para Mark Zuckerberg & Associados, eu ? que estou muito longe de ser a última bolacha do pacote ... ? não só escrevo, como ?compartilho?, ?curto? e me solidarizo com meus amigos, que igualmente engrossam o caldo e a conta do nerd dos infernos. Mesmo sabendo que hoje, depois de quase dois meses dedicados ao tronco, perdi dezenas de argumentos que ? queiram ou não queiram meus amigos de facebook ? são(ou eram...)  meu pão de cada dia, ainda assim, eu continuo na Senzala Zuckerberg,  firme e forte ? provavelmente essa crônica será festejada lá. Como um masoquista compulsivo, mesmo sabendo que estou levando prejuízo, eu insisto. Vejam só.  Ao reclamar da atual safra de cantoras e cantores chatos, Lenine, Ana Carolina, Jorge Vercilo e cia ltda,e ao dizer que eles acabariam fazendo com que eu gostasse do Djavan, esqueci de dizer que todos eles juntos ?  somados os filhos e netos da Elis ? não valiam uma unha micosada do dedão do pé de Benito di Paula. Não disse, e perdi o embalo. Qual a graça de desenvolver uma crônica cujo assunto já foi abordado, discutido e rediscutido na Senzala, digo, Facebook? O fato é que no minuto seguinte, ninguém mais se interessaria em voltar ao tema. Porque a demanda ou as palavras mágicas (que eu abomino na minha vidinha pacata)  são:  insight, produção e urgência. Não faria nenhum sentindo, por exemplo, um George Perec existir no facebook. Muita gente boa, que merece mais do que uma ?curtição? instantânea, seria e é inviável nas redes sociais. André Sant? Anna, lamento comunicar seu falecimento. Não deixe de ir ao meu velório, também morri pras grandes narrativas e gosto (ou gostava) de você e das coisas que você fazia, aquele seu show epilético com a Vanessa Bumagny era mesmo impagável... mas pensando bem, Georges Perec não faz sentido em lugar algum. Nunca mais drinque no dancing, meu caros. Ou seja. O trabalho que demorava anos e anos para amadurecer e ser pesado, pensado e repensado, e depois disso escrito e reescrito, para logo em seguida ser submetido ao exame das editoras (que o desprezariam) e, depois disso, levado à maleta do carteiro que invariavelmente traria as piores notícias ... enfim, depois de cumpridos todos os círculos infernais, todo esse trabalhão, de repente, viraria um passado distante.Os problemas que eram a razão da vida medíocre que eu, e muitos pentelhos metidos a escritores levavam, acabaram. Tudo se resolve numa fração de segundo-zuckerberg. No lugar em que antes pairavam somente os escolhidos pela eternidade, hoje, qualquer um pode dar seus pitacos e arriscar um lugar ao céu. Se é bom ou ruim, eu não sei. Sei que, embora as vidinhas continuem medíocres, a História mudou de tempo e de lugar. Toda a angústia e mais um caminhão de carências foram sepultados num passado remoto e risível. As possibilidades e os desdobramentos são de outra ordem. Um ?cliquezinho? é capaz de transformar toda a metafísica de um Pirandello em pó.                                             ***A pergunta é: e o que vem no lugar de?                                            ***Bem, aqui reside a parte boa e incontrolável dessa bagaça.  Não dá para negar o poder de fogo das redes sociais: temos o falecido orkut, os vivíssimos facebook e o tuíter (desse não participo, Zuckerberg suga todas as minhas forças ...) e mais o linkedin e outras redes que desconheço e outras que virão.O fato cristalino: Não dá para negar o poder de representação do facebook. Vou repetir o termo, poder de representação. Aquele mesmo que os políticos cansaram de usurpar nas câmaras, assembléias e em seus gabinetes. E, sobretudo, não dá para negar o poder efetivo de subversão que essas redes efetivamente materializaram. O elo que havia se perdido por falta de conexão entre a distância dos poderes constituídos (tanto faz se autoritários ou democráticos) e a realidade de quem se fode e paga imposto e não obtém nenhuma ?curtição? como recompensa, esse elo ? independentemente do status quo -  se formou. A conexão foi se construíndo e se constituindo nas redes sociais como se fosse uma egrégora engasgada há séculos que finalmente deu as caras: livre de formalidades, incisos e ?nobres? interesses, livre de bandeiras e limites territoriais.As estruturas ? todas - estão ruindo. A representatividade passa longe dos discursos empolados dos tiozinhos de cabelo pintado. Há uns cem anos, o pai de Jorge Luis Borges dizia ao filho que haveria um tempo em que o mundo não precisaria mais de prisões, açougues, democracia, generais e governos. Desconfio que ele estava certo, com exceção dos açougues.  Diante do poder de mobilização de um facebook (vide os levantes recentes na África e no Oriente Médio, sem falar na Europa que daqui a pouco ? ou mais uma vez ... ? como diz meu amigo Paulinho ?Picanha? de Tharso, ?vai virar geléia?). Isto é, diante da força e da volúpia redescobertas pelas massas-zuckerberg, Montesquieu e sua divisão de poderes, a figura de um Obama imperial ou Congresso Nacional de qualquer país democrático soarão tão irrelevantes, desnecessários e fora de contexto como os penachos e medalhas do uniforme de um palhaço carniceiro do feitio de Gadaffi. Não vamos nos iludir. O start foi acionado. Porque é uma ilusão achar que as massas estão pedindo por democracia, elas claramente dispensam e rejeitam as tiranias e pedem por liberdade, que é algo totalmente diferente de ordem, progresso e conversa mole pra boi dormir, liberdade é algo explosivo, inevitável e imprevisível (um sentimento volúvel e caprichoso, que ora pode se associar a democracia, ora a sangue derramado e guilhotina); liberdade, hoje, é algo que talvez nem o senhor Mark Zuckerberg saiba o que é.           PS: Gostaria de cumprimentar os novos colunistas do Congresso em Foco. Especialmente dar minhas boas-vindas a Manuela D?Ávila, que é uma gatona.

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