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Representação política
13/1/2026 15:00
*Escrito em parceria com Dayana Morais - Consultora de Políticas Públicas e Diversidade.
Nas últimas temporadas de premiações internacionais, o Brasil voltou a se ver no palco. Wagner Moura foi reconhecido por sua atuação em O Agente Secreto. No ano anterior, Fernanda Torres havia sido celebrada no mesmo circuito. No discurso, Moura falou de arte, mas também de democracia, de narrativa popular e de pertencimento. As redes reagiram com entusiasmo: era um Brasil que se reconhecia, que voltava a vestir a própria bandeira sem constrangimento.
Esse sentimento coletivo de orgulho, no entanto, não encontra correspondência na política institucional e o nosso Congresso Nacional segue distante de representar o país que hoje se emociona com sua cultura. Majoritariamente ocupado por homens brancos, oriundos de grupos que historicamente concentram renda e poder, o Parlamento não reflete a diversidade social e racial do Brasil. Não à toa, o país ocupa a 133ª posição no ranking global de representação parlamentar de mulheres, segundo a ONU Mulheres, e menos de 30% da Câmara dos Deputados é composta por pessoas negras. A desconexão é também percebida pela população: pesquisa Datafolha divulgada em dezembro de 2025 mostrou que 31% dos brasileiros avaliam o Congresso como ruim ou péssimo.
Essa distância não é simbólica, ela produz efeitos concretos: quando espaços de decisão são ocupados por perfis homogêneos, temas que estruturam a vida da maioria seguem tratados como secundários. Racismo, violência contra as mulheres, parentalidade, escalas mais justas de trabalho, acesso a direitos e território entram tardiamente, ou entram mal, na agenda política. O resultado aparece nos números: o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025) mostra que a violência segue crescendo, especialmente contra mulheres negras, que representam 63,6% das vítimas de feminicídio. Pessoas negras continuam concentradas nas piores faixas de renda, recebendo, em média, pouco mais da metade da renda de pessoas brancas. Povos indígenas e quilombolas seguem com baixa regularização territorial e acesso à direitos, por exemplo.
Nada disso é desconectado do poder político. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, o Congresso Nacional já é responsável por cerca de 25% dos investimentos federais, via emendas parlamentares, consolidando um papel central na execução do orçamento público. Ou seja: decisões tomadas por um Parlamento pouco diverso impactam diretamente quem vive realidades que ele raramente espelha.
Há algo profundamente revelador no fato de nos reconhecermos com facilidade na arte, mas não no Congresso. Celebramos um Brasil plural, criativo e diverso, mas seguimos sendo governados por instituições que operam como se essa pluralidade fosse exceção. Em ano eleitoral, imaginar o Brasil que queremos exige enfrentar uma pergunta incômoda: quem decide esse futuro hoje? Recuperar o orgulho do Congresso passa, necessariamente, por democratizar o poder. Ampliar quem chega, quem decide e quem influencia não é concessão identitária, é condição mínima para que a democracia funcione. O Brasil que aplaudimos já existe, falta fazer com que ele também decida.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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