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Educação

Enamed expõe falência de modelo estatal que priorizou número, não saber

Resultados do exame revelam o colapso de um modelo que vende certificados, mas não entrega competência. O Brasil precisa priorizar a aprendizagem real na base se quiser crescer.

Davi de Souza

Davi de Souza

20/1/2026 17:00

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A divulgação dos resultados do Enamed 2025, realizada neste mês de janeiro de 2026, provocou o previsível choque na opinião pública e na classe política. Os índices alarmantes de reprovação e a disparidade de desempenho entre instituições não deveriam, contudo, causar espanto. O Enamed não é o vilão, nem a causa da doença; ele é apenas o termômetro que, tardiamente, mede a febre de um paciente tratado com negligência e populismo há décadas.

Ler os resultados dessa avaliação apenas como um problema isolado das faculdades de medicina é um erro de diagnóstico. O que vemos é o ponto final de uma longa cadeia de falhas estruturais e de um Estado mal orientado, que historicamente priorizou a estatística do acesso em detrimento da realidade da competência. O Brasil construiu, passo a passo, uma "bolha educacional" que agora começa a estourar.

A raiz do problema é a ineficiência alocativa na base. Enquanto o debate público foca no teto, o alicerce desmorona. O Estado brasileiro, agigantado em suas pretensões, falha no básico: garantir que crianças saibam ler, escrever e calcular. Dados do Censo Escolar e avaliações recentes mostram que, apesar de recordes no número de professores, a proficiência estagnou. Temos escolas sem infraestrutura e uma carreira docente que não premia o desempenho. O resultado é cumulativo: déficits cognitivos no ensino fundamental tornam-se abismos no ensino médio.

Nesta etapa, consolidou-se a perversa lógica da aprovação automática. Para maquiar estatísticas de fluxo e atingir metas administrativas, o sistema público optou por empurrar o aluno adiante. Segundo dados recentes, apenas 37% dos alunos do ensino médio público possuem aprendizado adequado em matemática. Criamos um paradoxo cruel: certificamos jovens que são funcionalmente incapazes de acompanhar um curso superior de excelência, mas que possuem o papel que diz o contrário.

É nesse cenário que a expansão do ensino superior, turbinada a partir dos anos 2000, revela sua face mais problemática. Sob a justificativa nobre da inclusão, o governo injetou bilhões em crédito estudantil (FIES) e isenções fiscais (ProUni) sem a devida contrapartida de qualidade. Criou-se um incentivo de mercado distorcido: para muitas instituições privadas, bastava captar a matrícula subsidiada pelo Estado, sem a real preocupação com a formação do egresso.

O mercado de educação superior reagiu aos incentivos que o governo deu. Se o Estado paga pela matrícula e não cobra o aprendizado, a oferta se ajusta à mediocridade. O resultado é a "cultura do diploma": o certificado passou a valer mais que o capital humano. Temos hoje uma superoferta de profissionais diplomados, mas uma escassez de mão de obra qualificada. Não por acaso, cerca de 40% dos jovens com ensino superior no Brasil ocupam vagas que não exigiriam tal formação, subempregados em um mercado que já não confia na chancela universitária.

O Enamed, portanto, apenas retira o véu dessa ilusão. Ele mostra que a política de "diploma para todos" sem meritocracia e rigor acadêmico é uma fraude social. E aqui reside a faceta mais cruel da desigualdade: o sistema atual é uma máquina de concentração de renda disfarçada de justiça social.

Exame revela os efeitos de um sistema que expandiu diplomas, mas negligenciou a aprendizagem real.

Exame revela os efeitos de um sistema que expandiu diplomas, mas negligenciou a aprendizagem real.Freepik

As universidades federais, que concentram os melhores resultados no Enamed devido a corpos docentes qualificados e hospitais-escola, continuam sendo um privilégio de quem teve uma base educacional sólida — geralmente, os mais ricos. Enquanto isso, o estudante de origem mais humilde, vítima daquela educação básica falha, é empurrado para faculdades privadas de qualidade duvidosa, muitas vezes saindo endividado e sem empregabilidade real. O Estado brasileiro, assim, financia a excelência para poucos e a ilusão para muitos.

A solução não passa por demonizar a avaliação ou o setor privado, mas por corrigir a estrutura de incentivos. Precisamos de um Estado que pare de confundir gasto com investimento. É urgente redirecionar recursos do ensino superior para a educação básica e infantil, onde o retorno social é comprovadamente maior. No ensino superior, a regulação deve deixar de ser burocrática (focada em tamanho de biblioteca) para ser focada em resultados (o aluno aprendeu?).

O Enamed deve servir como um "selo de qualidade" implacável. Cursos que formam médicos incapazes de diagnosticar doenças básicas não devem ser reformulados; devem ser fechados. O dinheiro do pagador de impostos não pode sustentar a ineficiência.

Mas a discussão vai além da medicina; trata-se de um projeto de país. Não existe desenvolvimento econômico sustentável sustentado por "canudos" de papel sem lastro em habilidade técnica. Um país não enriquece distribuindo títulos acadêmicos como se fossem brindes eleitorais; ele se desenvolve quando seus cidadãos conseguem transformar conhecimento em produtividade real. A insistência na "cultura do diploma" tem custado caro ao nosso PIB e à nossa inovação. Estamos formando uma geração de endividados frustrados, que possuem o certificado, mas não a técnica para competir em uma economia globalizada.

Para destravar o Brasil, precisamos de uma revolução de mentalidade: o fim da obsessão pelo diploma e o início da era da capacitação real. Isso exige a coragem de assumir que a garantia de aprendizagem na base — alfabetização plena, lógica e ciência fundamental — é o único alicerce possível para uma nação próspera. Sem isso, continuaremos construindo castelos de areia.

O Brasil precisa abandonar a demagogia dos números de matrícula e enfrentar a dura realidade da competência. Um país não se desenvolve imprimindo diplomas, mas garantindo que o conhecimento, de fato, exista. Enquanto o Estado continuar premiando a mediocridade, continuaremos colhendo frustração e subdesenvolvimento.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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