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Política e justiça
23/1/2026 16:00
Entre identidade de grupo, carisma, conspiração e economia da atenção, a figura do "mártir vivo" tende a produzir coesão, radicalização simbólica e reorganização eleitoral — e pode corroer ainda mais a confiança institucional.
A decretação da prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo STF, em 22 de novembro de 2025, e os desdobramentos da custódia — incluindo decisões sobre transferência e condições carcerárias — reordenaram o campo político brasileiro em torno de um evento que não é apenas jurídico, mas emocional e narrativo . Em sociedades polarizadas, a prisão de um líder popular costuma operar como catalisador: para uns, prova de responsabilização; para outros, prova de perseguição. O resultado provável é a fabricação acelerada de mitos e mártires — um processo que tem menos a ver com o que aconteceu e mais com como o acontecimento é enquadrado, repetido e convertido em identidade.
Tese e proposta do texto
A prisão de um líder de alta centralidade simbólica tende a produzir um "mártir vivo": alguém cuja privação de liberdade passa a funcionar como selo de pureza e de injustiça sofrida "em nome do povo". Essa construção não nasce do nada; é produto previsível de mecanismos estudados pela psicologia social e política: identidade de grupo, polarização em ambientes de iguais, raciocínio motivado e proteção identitária, necessidades epistêmicas e existenciais que alimentam teorias conspiratórias e a dinâmica de consagração do sacrifício em torno de uma causa. Quando essas engrenagens se combinam à economia da atenção, o caso judicial vira "série" e o símbolo se autoalimenta.
1) O fato político-jurídico como gatilho emocional (e não apenas jurídico)
A decisão do STF que decretou a prisão preventiva de Bolsonaro estabeleceu condições específicas de cumprimento do mandado e foi tratada institucionalmente como medida cautelar de alta gravidade. Em janeiro de 2026, decisões sobre transferência para o Complexo da Papuda e sobre condições de custódia foram apresentadas como resposta a alegações de inadequação de acomodação e necessidade de assistência, com negativa de prisão domiciliar por risco de fuga e outras considerações.
O ponto central, porém, é o efeito político do evento: prisão funciona como marcador moral. Ela reclassifica o líder, no imaginário, em duas categorias extremas — "criminoso" ou "perseguido" — e abre pouco espaço para o meio-termo. Em polarização avançada, o meio-termo é interpretado como traição ou covardia, não como prudência.
2) Identidade social: quando "defender o líder" vira "defender a si mesmo"
A Teoria da Identidade Social descreve como pessoas derivam parte do autoconceito de pertencimentos grupais, buscando manter uma identidade social positiva por comparação com "outros". Esse mecanismo, em política, produz três efeitos críticos:
Fusão entre líder e grupo: atacar o líder é percebido como atacar "nós".
Lealdade como virtude moral: a posição passa a ser menos "opinião" e mais "caráter".
Blindagem cognitiva: informações contrárias não são avaliadas como dados, mas como armas do outgroup.
Por isso, a prisão não é processada como um ato jurídico que pode ser debatido tecnicamente; ela é processada como agressão ao pertencimento. O conflito se desloca do campo institucional para o campo afetivo.
3) Dissonância, raciocínio motivado e o "não pode ser"
Quando indivíduos investem anos em uma narrativa de salvação nacional, a prisão do líder cria dissonância: admitir culpa pode significar admitir cumplicidade simbólica. O cérebro busca reduzir a dor cognitiva por meio de estratégias de proteção identitária. Nesse contexto, "provas" e "argumentos" frequentemente perdem para o que preserva autoestima e pertencimento — um padrão coerente com modelos de crença política orientada por identidade.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que, diante de fatos adversos, cresce o apelo a explicações totalizantes: "não é erro; é armação". O ganho psicológico é imediato: o seguidor não precisa rever o próprio mapa moral do mundo.
4) Conspirações como terapia de controle: sentido rápido para ambientes caóticos
A literatura sobre teorias conspiratórias descreve três famílias de motivos:
Epistêmicos: desejo de compreender eventos complexos;
Existenciais: desejo de segurança e controle;
Sociais: desejo de preservar a imagem do self e do grupo.
Em crises institucionais, a conspiração opera como "teoria unificadora". Ela conecta tribunal, imprensa, elites e adversários numa única intenção maligna. O mundo fica mais simples: não há ambiguidade, apenas inimigos. Além disso, conspirações tendem a florescer quando grupos sentem ameaça ao status, à dignidade ou à sobrevivência simbólica.
No caso Bolsonaro, a prisão oferece um objeto perfeito para esse mecanismo: o evento já é "grande", já é "dramático" e já carrega alto potencial de enquadramento moral. Se a narrativa for "perseguição", qualquer decisão subsequente (transferência, visita, regalias ou restrições) pode ser reinterpretada como prova — seja do "privilégio de castas" ou da "crueldade do sistema". A estrutura é autoexpansiva.
5) Polarização de grupo: quando falar entre iguais empurra o extremo
O fenômeno da polarização de grupo descreve uma regularidade: ao deliberarem em grupos relativamente homogêneos, pessoas tendem a adotar posições mais extremas do que a média inicial. No ambiente digital, isso se intensifica por três razões:
Seleção algorítmica: conteúdos que confirmam identidade tendem a ser mais consumidos e, portanto, mais distribuídos.
Competição por pureza: influenciadores e lideranças disputam "quem é mais fiel", elevando o tom.
Recompensa por intensidade: a economia da atenção premia indignação, escândalo e certeza.
O resultado típico é um deslocamento: o debate deixa de ser "o que ocorreu juridicamente" e passa a ser "quem está com o povo" versus "quem está com o sistema".
6) Carisma e sacralização: a política como religião civil
Embora a análise aqui seja psicológica, a sociologia ajuda a compreender o dispositivo simbólico: o carisma, como forma de autoridade, depende de crença em qualidades extraordinárias e se alimenta de crises que deslegitimam rotinas institucionais. Em cenários assim, o líder vira "atalho de confiança": não se confia no procedimento; confia-se na pessoa.
Quando o carisma encontra polarização, pode surgir a sacralização do conflito: o líder passa a ser tratado como símbolo de pureza; a instituição adversária, como profanação. A prisão, então, vira rito de passagem: não "queda", mas "provação". E provações são matéria-prima de mitos.
7) O "mártir vivo": por que prisão pode aumentar lealdade
A psicologia do martírio mostra que a disposição a sofrer (inclusive prisão) "em nome da causa" reforça compromisso e serve como mecanismo de validação interna: quem paga preço elevado "prova" autenticidade. Em política, isso pode operar de duas maneiras:
Martírio por identificação: o grupo projeta no líder seu próprio ressentimento e sente que "a dor dele é a dor do povo".
Martírio por reciprocidade: se ele sofre "por nós", deve-se retribuir com lealdade e mobilização.
Esse é um ponto crucial para o debate público: tentar "humilhar" o líder preso — com escárnio, desumanização ou espetáculo — costuma fortalecer o mito. A iconografia do sofrimento é poderosa; e a política contemporânea sabe monetizá-la em curtidas, doações, candidaturas e alianças.
8) O que pode ocorrer: quatro cenários plausíveis
Com base no repertório teórico acima, quatro trajetórias são plausíveis no curto e médio prazo:
Cenário 1 — Mitificação disciplinada (coesa e eleitoral)
A narrativa de perseguição se estabiliza, o líder se consolida como símbolo e o campo busca herdeiros competitivos. A prisão vira "capital moral" e reorganiza campanhas.
Cenário 2 — Guerra de sucessão (pureza contra pragmatismo)
A ausência física do líder amplia disputas internas por autenticidade. A retórica radical cresce para "provar fidelidade", fragmentando o eleitorado.
Cenário 3 — Radicalização minoritária (missão salvacionista)
Pequenos grupos podem interpretar o evento como autorização moral para ações de intimidação ou confrontos, especialmente se acreditarem em conspirações apocalípticas .
Cenário 4 — Saturação e erosão do mito
Com o tempo, fadiga emocional, rotina econômica e contradições internas podem reduzir a potência mobilizadora do símbolo — embora isso raramente ocorra sem eventos concorrentes que substituam a narrativa dominante.
Conclusão
A prisão de Bolsonaro não é apenas um capítulo judicial; é um laboratório de psicologia política em tempo real. A disputa central não está no detalhe do despacho, mas no controle do enquadramento: justiça ou perseguição; responsabilização ou sacrifício; Estado de Direito ou guerra de facções. Em sociedades de alta polarização, a construção do "mártir vivo" tende a ser funcional: ela preserva identidades, resolve dissonâncias e oferece uma explicação totalizante para o sofrimento político — especialmente quando plataformas recompensam indignação e certeza. O risco democrático é duplo. Primeiro, a mitificação substitui debate público por liturgia: a política vira religião civil, e instituições viram inimigos sagrados. Segundo, o espetáculo contínuo corrói legitimidade procedural: qualquer decisão passa a ser lida como arma, não como regra. Nessa arquitetura, o país perde duas vezes: perde a possibilidade de responsabilizar sem inflamar e perde a possibilidade de discordar sem destruir o chão comum. O desafio institucional, portanto, não é "ganhar a narrativa" a qualquer custo, mas reduzir os incentivos à mitologia — com transparência, sobriedade e responsabilização individualizada — antes que a prisão se converta, definitivamente, em altar político.
Referências
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