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Carteiros: Conectar o Brasil em um mundo em transformação não é slogan

Texto da presidência fala em integração nacional, mas plano em curso prevê fechamento de unidades, cortes e disputa judicial contra direitos trabalhistas.

Coletivo Informações Correios

Coletivo Informações Correios

4/2/2026 18:00

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O texto assinado pelo presidente dos Correios no site Congresso em Foco, tenta se apresentar como uma reflexão estratégica de Estado, mas esconde contradições profundas entre o discurso e o conteúdo real do Plano de Reestruturação que está sendo imposto à empresa e aos trabalhadores.

O discurso de integração nacional contrasta nitidamente com a prática de enxugamento. O artigo reconhece que os Correios são a única presença do Estado em milhares de municípios. No entanto, o plano de reestruturação proposto pela atual gestão, caminha no sentido oposto: decretando fechamento de unidades, centralização operacional e redução de pessoal.

Não há integração nacional com agências fechadas, rotas suprimidas e trabalhadores sobrecarregados. Defender a capilaridade enquanto se desmonta a estrutura que a sustenta é contradição básica. A reestruturação prioriza lógica de mercado e ignora o papel histórico de integração nacional, sobretudo em cidades pequenas e regiões remotas onde o serviço não dá lucro, mas é essencial.

O presidente afirma que a função dos Correios "extrapola a lógica estritamente comercial". Mas o plano que apresenta, adota exatamente essa lógica: corte de custos, revisão de estruturas "não rentáveis" e busca obsessiva por equilíbrio financeiro imediato. Serviço público não pode ser gerido como startup logística. Quem faz política pública não escolhe território lucrativo. Quando escolhe, deixa de cumprir sua função social.

É verdade que o modelo baseado em cartas entrou em declínio. Isso é sabido há mais de uma década. A contradição está em usar esse diagnóstico para justificar retirada de direitos, PDVs sucessivos e precarização, quando o problema é a ausência histórica de investimento estruturante, inovação pública e planejamento de longo prazo. A crise que os Correios atravessam hoje, não foi causada pelos trabalhadores. Foi causada por escolhas políticas e gestões erráticas.

Ao citar experiências internacionais como EUA, França, Itália e outros países, Rondon omite o elemento central: esses países mantêm seus serviços postais com forte financiamento estatal, exatamente por reconhecerem seu papel estratégico na soberania, na inclusão social e na coesão territorial. Aqui, a referência internacional é usada para justificar ajuste interno, não para defender aporte público robusto. É uma comparação conveniente para a prática que se pretende, mas incompleta.

O artigo de Rondon, fala em visão estratégica ao longo prazo, mas o plano de reestruturação foi apresentado sem debate profundo com os trabalhadores, sem auditoria social clara e sem pactuação com sindicatos e a categoria. Não existe projeto de longo prazo construído contra quem executa a operação no dia a dia. Isso fica nitidamente claro, quando os Correios decidem recorrer de uma decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST), sobre o dissídio coletivo 2025/2026, na tentativa de anular a decisão que resguardava os direitos dos trabalhadores. Planejamento sem escuta não é estratégia, e sim uma imposição. E imposição gera erros que custam caro à empresa,aos trabalhadores e à população.

Capilaridade dos Correios não se sustenta com enxugamento.

Capilaridade dos Correios não se sustenta com enxugamento.Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A chamada "modernização" aparece como conceito genérico, mas na prática se traduz em menos trabalhadores, mais terceirização e mais pressão por produtividade. Isso não é inovação. É um ajuste fiscal disfarçado. Termos como "revisão de custos", "modernização da governança" e "revisão administrativa" aparecem sem detalhamento objetivo. Na prática, significam menos gente, mais terceirização, mais pressão por produtividade, e menos qualidade no serviço.

Rondon presta homenagem a carteiros e carteiras, chamados de "elo mais visível" da missão dos Correios. Uma valorização e reconhecimento simbólico desses profissionais no discurso, mas na prática, desvalorização profunda e falta de empatia. Essa contradição é ainda mais grave quando se observa que a própria empresa, mesmo anunciando um plano de investimentos da ordem de R$ 12 bilhões, optou por recorrer ao Supremo Tribunal Federal para suspender direitos históricos da categoria, direitos esses conquistados ao longo de décadas de negociação coletiva. Recorrer ao STF contra os trabalhadores não é um gesto técnico, mas sim uma escolha política. Foi a opção de equilibrar as contas retirando direitos, em vez de enfrentar o debate sobre financiamento público, responsabilidade do Estado e valorização do trabalhador.

A mensagem que chega à base é clara e dura: há recursos para investimento estrutural, há disposição para expansão de serviços e parcerias, mas não há prioridade para investir em quem faz os Correios funcionarem. Isso gera um sentimento legítimo de desvalorização, frustração e ruptura de confiança entre empresa e trabalhadores. Nenhuma empresa pública se fortalece atacando sua própria força de trabalho. Nenhum projeto estratégico se sustenta tratando direitos como custo a ser eliminado. Carteiros não são obstáculo à modernização. São condições para que ela exista.

Não há como falar em compromisso com o futuro atacando o presente de quem sustenta a operação diariamente. Enquanto se anuncia modernização, não há investimento proporcional em pessoal. Não há recomposição efetiva do quadro. Não há política consistente de valorização salarial. O que existe é a implantação de novas ferramentas como ADM (Acordo de desempenho de Metas) que gera sobrecarga ao trabalhador, adoecimento, pressão por produtividade e insegurança jurídica permanente sobre direitos consolidados.

Valorização não se faz com homenagens em datas comemorativas nem com discursos bem escritos. Valorização se faz com respeito aos acordos coletivos, investimento em pessoal, segurança jurídica, condições dignas de trabalho. Conectar o Brasil não é slogan vazio de marketing. Não é fechar unidades, nem reduzir a presença do Estado. Não é tercerizar funções estratégicas. Não é tratar direitos como entrave. Correios fortes exigem investimento público, valorização do trabalho e um projeto nacional de longo prazo. Reestruturar pode ser necessário. Desmontar, de maneira nenhuma. A defesa dos Correios passa, antes de tudo, pela coerência entre discurso e prática. Sem isso, qualquer fala sobre integração nacional se esvazia, e aprofunda a crise que diz combater.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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