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Cultura e política

Meu amigo Flávio: quando o humor atravessa bolhas e vira fenômeno político

Canção feita como piada após follow de Flávio Bolsonaro viraliza e atravessa bolhas ideológicas.

Henrique Alves da Rocha

Henrique Alves da Rocha

6/2/2026 17:00

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O humor, por vezes, cumpre um papel que a política tradicional já não consegue desempenhar: atravessar bolhas. Foi exatamente isso que aconteceu nesta semana com o comediante Murilo Couto, ao apresentar em um de seus shows uma música composta após o senador Flávio Bolsonaro passar a segui-lo no Instagram.

O que nasceu como uma piada despretensiosa, típica do stand-up, baseada no absurdo da situação e na ironia do cotidiano digital, rapidamente ganhou uma dimensão inesperada. O trecho do show circulou nas redes sociais, viralizou e, em poucos dias, transformou-se em um verdadeiro hit entre apoiadores do bolsonarismo.

A canção, intitulada informalmente de "Meu Amigo Flávio", passou a ser compartilhada em perfis conservadores, grupos de WhatsApp e páginas políticas, ganhando uma recepção entusiasmada. O curioso é que o humor ali não era panfletário, nem militante. Pelo contrário, o tom irônico, leve e aparentemente descompromissado foi justamente o que permitiu que a música encontrasse ressonância fora do circuito habitual da direita.

Esse fenômeno revela algo maior do que um simples viral. Ele escancara como a cultura pop, o humor, o entretenimento e a internet têm se tornado vetores centrais da disputa simbólica no Brasil. Enquanto discursos políticos formais encontram resistência imediata fora de suas bolhas ideológicas, uma piada bem construída pode circular livremente, gerar identificação e provocar curiosidade até mesmo em públicos historicamente refratários.

Humor de Murilo Couto ganha adesão conservadora e expõe força cultural fora do discurso formal.

Humor de Murilo Couto ganha adesão conservadora e expõe força cultural fora do discurso formal.Reprodução/YouTube/@MuriloCouto

Há ainda outro elemento relevante: a figura de Murilo Couto. Conhecido por um humor ácido, irreverente e, em muitos momentos, crítico, o comediante nunca foi associado diretamente a um campo político específico. Isso fez com que a música não fosse imediatamente rejeitada por setores da esquerda, permitindo que ela "furasse a bolha" e chegasse a públicos diversos m, algo cada vez mais raro em um ambiente de polarização extrema.

Para os bolsonaristas, o episódio foi rapidamente apropriado como símbolo cultural, quase um troféu: um artista popular, ainda que involuntariamente, gerando conteúdo que dialoga com seu universo político. Para a esquerda, o sucesso da música acendeu um alerta incômodo sobre como o humor pode driblar filtros ideológicos e conquistar espaços onde o discurso tradicional já não entra.

No fim das contas, "Meu Amigo Flávio" é mais do que uma piada musical. É um retrato do Brasil conectado, polarizado e, ao mesmo tempo, surpreendentemente permeável quando a linguagem certa é utilizada. Mostra que, em tempos de radicalização, o riso pode ser uma arma poderosa, não por convencer, mas por atravessar, desarmar e, sobretudo, circular.

Se a política insiste em falar apenas para os seus, o humor segue fazendo aquilo que sempre fez de melhor: falando com todos.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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