Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Educação
4/3/2026 12:30
Sou doutor em Educação e defendi a tese "O Silêncio Está Gritando: a Homofobia no Ambiente Escolar". Escolhi esse título porque, muitas vezes, a violência não aparece apenas no grito explícito — ela está na omissão, na negligência, na naturalização do preconceito e na ausência de políticas estruturadas de prevenção.
Recentemente, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná exonerou a ex-diretora do Colégio Estadual Maria Montessori, em Curitiba, após denúncias de racismo, homofobia, capacitismo e assédio moral. A decisão, formalizada em Diário Oficial, apontou insuficiência de gestão administrativa, pedagógica e democrática.
É preciso reconhecer: quando o poder público apura denúncias, garante direito de defesa e toma uma decisão administrativa fundamentada, isso demonstra que as instituições podem e devem funcionar. No entanto, o episódio não pode se encerrar na exoneração. Ele precisa abrir um debate mais profundo: por que ainda convivemos com índices tão alarmantes de violência nas escolas?
Os dados são contundentes. A Pesquisa Nacional sobre o Bullying no Ambiente Educacional Brasileiro (2024), realizada pela Aliança Nacional LGBTI+ com apoio do Instituto Unibanco, revelou que:
Esses números não são apenas estatísticas. São histórias interrompidas, trajetórias fragilizadas e sonhos adiados.
O marco legal já existe. Não há vazio jurídico:
Ou seja: o problema não é falta de norma. É falta de implementação consistente.
Um debate que precisa ser feito com serenidade
É importante também afirmar algo com clareza: há setores da sociedade que expressam preocupações legítimas sobre o ambiente escolar. Eu respeito essas preocupações. Sou pesquisador e educador. Não defendo, em hipótese alguma, que a escola se transforme em espaço de doutrinação ideológica.
A escola deve ser um espaço de conhecimento, pensamento crítico e formação cidadã — nunca um "antro de doutrinação." Trabalhar o enfrentamento à violência não significa impor visões, nem substituir valores familiares. Significa garantir que nenhuma criança ou adolescente seja humilhado, agredido ou excluído por ser quem é.
Não queremos destruir a família — nenhum tipo de família. Ao contrário: queremos que todas as famílias sejam respeitadas e que também aprendam a respeitar. A Constituição protege a dignidade da pessoa humana, de forma universal. Esse é o ponto de partida.
Ensinar respeito à diversidade não transforma ninguém em lésbica, gay, bissexual, travesti ou pessoa trans. O que a educação pode — e deve — fazer é assegurar que cada estudante tenha direito à cidadania, à segurança e à permanência na escola.
O que combatemos não é fé, não é cultura, não é opinião. O que combatemos é a violência, a humilhação, a exclusão e a desinformação que produzem sofrimento e evasão escolar.
A cultura que precisamos fortalecer é a cultura do respeito. Não uma cultura opressora que trate pessoas LGBTI+ como doentes, criminosas ou pecadoras, mas uma cultura democrática, onde divergências possam existir sem que isso se transforme em violência.
O que precisa ser feito
Se queremos transformar a escola em espaço seguro para todas as crianças e adolescentes, precisamos avançar em quatro eixos estruturantes:
1. Currículo e material didático
A violência, o bullying, o racismo, a LGBTfobia, o capacitismo e a xenofobia precisam estar no currículo de forma transversal e sistemática. Não como tema ocasional, mas como parte integrante do projeto pedagógico.
2. Formação inicial e continuada obrigatória
As instituições de ensino superior devem garantir uma disciplina nos cursos de graduação e formação de educadores que sensibilize e informe sobre o enfrentamento a essas formas de violência e sobre a promoção do respeito às diferenças. Municípios, estados e União devem ofertar capacitação permanente para educadores e gestores escolares. Não basta boa vontade; é necessário preparo técnico para lidar com conflitos, discriminação e diversidade.
3. Protocolos claros e regulamentação
Cada escola deve ter canais seguros de denúncia, registro formal de ocorrências, comissões de mediação e procedimentos padronizados de resposta. A omissão institucional precisa ser enfrentada com transparência.
4. Pesquisa e monitoramento
Precisamos ampliar estudos sobre escolas que conseguiram reduzir índices de violência e evasão, sistematizar boas práticas e transformar experiências exitosas em política pública.
Uma oportunidade histórica
A exoneração no Paraná não deve ser vista apenas como um episódio administrativo. Ela pode ser um marco pedagógico, um chamado à reflexão coletiva. Não se trata de perseguir pessoas, mas de afirmar princípios. A escola é espaço de formação cidadã. E cidadania não combina com preconceito.
Quando o silêncio grita, é porque a dor já ultrapassou o limite do suportável. Cabe ao Estado, às Secretarias de Educação, às equipes pedagógicas e à sociedade como um todo transformar esse grito em política pública de prevenção, cuidado e justiça.
A igualdade não é apenas um princípio constitucional. É uma prática cotidiana que precisa ser ensinada — e garantida — dentro das salas de aula.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas