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Infraestrutura
1/4/2026 14:46
O Brasil vive um paradoxo histórico que limita silenciosamente o seu potencial de futuro. Embora o país reconheça a infraestrutura como o motor do desenvolvimento, os investimentos realizados no setor ainda são insuficientes. Dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) revelam que investimos apenas 2% do nosso PIB na área, quando o patamar necessário para a modernização real seria de, pelo menos, 4,5%. Mas o problema brasileiro não se resume apenas ao montante financeiro; ele reside na precisão da aplicação desses recursos. Sem um diagnóstico claro, o investimento público e privado transforma-se em uma aposta, muitas vezes guiada por ciclos eleitorais e não por necessidades estruturais de longo prazo.
É para romper com a cultura da falta de planejamento que foi lançado o INFRA-BR, um índice inédito que mapeia as condições de infraestrutura nas 27 unidades da federação através de 67 indicadores. O lançamento desta plataforma, desenvolvida pelo Conselho Federal de Engenharia e Agronomia com inspirações em trabalhos sólidos como IPS-Brasil (Índice de Progresso Social) e American Society of Civil Engineers (ASCE), não entrega apenas dados técnicos. O levantamento é um instrumento de transparência e eficiência econômica. Afinal, por que mapear a infraestrutura é, hoje, uma necessidade para quem pensa o Brasil?
Sob a ótica da economia, o mapeamento é a base da competitividade. A infraestrutura é o alicerce indispensável para o bem-estar social e o crescimento global. Quando não sabemos exatamente onde estão os gargalos, seja no saneamento básico, na conectividade digital ou na logística de transportes, os custos de produção sobem, o "Custo Brasil" se agrava e afasta investidores que buscam segurança jurídica e previsibilidade. O INFRA-BR permite identificar disparidades regionais gritantes: enquanto o topo do ranking alcança mais de 65 pontos, há estados que não chegam aos 31, em uma escala que vai de 0 a 100. Corrigir essas desigualdades é o único caminho para integrar o mercado nacional e garantir que a riqueza circule de forma equânime.
No campo da política, o mapeamento funciona como um antídoto para a irresponsabilidade de projetos inacabados. Historicamente, a baixa capacidade de planejamento no Brasil permitiu que a infraestrutura fosse tratada como uma sucessão de iniciativas pontuais, marcadas pela falta de transparência e de comparabilidade.
Ao estabelecer métricas padronizadas, o Índice promove uma cultura de gestão baseada em evidências. Isso eleva o nível do debate público: o governante passa a ser cobrado não apenas pela "pedra fundamental", mas por resultados mensuráveis que impactam a qualidade de vida da população. A mensuração assume, portanto, uma função de governança e transparência. Relatórios da OCDE já apontaram que a opacidade na gestão de infraestrutura é um dos maiores entraves ao crescimento nacional.
Com dados públicos e acessíveis, a sociedade civil e os órgãos de controle podem fiscalizar se o dinheiro do contribuinte está sendo usado para sanar déficits reais de atendimento total de esgoto, por exemplo, ou para melhorar a eficiência na distribuição de energia. O mapeamento que o Sistema Confea/Crea apresenta agora divide-se em seis dimensões cruciais: Energia e Conectividade, Mobilidade, Água, Bem-Estar Social e Cidadania, Meio Ambiente e Resiliência, e Saneamento Básico. Essa visão multidimensional é fundamental para o Brasil contemporâneo, onde já não se pode pensar em transporte sem considerar a resiliência climática, ou em educação sem conectividade.
A engenharia, a agronomia e as geociências são as mãos que constroem a infraestrutura, mas são os dados que devem guiar essas mãos. Sem métricas claras, o risco é concentrar esforços na execução orçamentária sem saber se a obra resultará em benefícios concretos. O Infra-BR, aberto à sociedade e gratuito ao público, não oferece explicações causais mágicas, mas oferece o ponto de partida para as perguntas.
Mapear a infraestrutura e gerar uma cultura de dados significam dar transparência ao que está invisível. É permitir que o Brasil saia da gestão de emergências e entre na era das implementações das políticas de Estado. Somente com o conhecimento profundo do nosso território e das nossas carências poderemos atrair os recursos necessários para que a engenharia brasileira cumpra seu papel: transformar investimentos em dignidade para todos os cidadãos.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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