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Eleições 2026
15/4/2026 17:00
Entender como funciona uma das maiores paixões nacionais pode ser um bom caminho para compreender a política brasileira. No futebol, o campeão do Brasileirão começa a ser definido antes mesmo do apito que inaugura o campeonato, quando o mercado da bola se aquece e a escalação de jogadores e técnicos redefine o potencial de cada time. Na disputa eleitoral, não é diferente. O resultado das urnas em outubro já começa a ser esboçado com as movimentações da janela partidária.
Encerramos esse período com mais de 30% dos deputados federais tendo notificado uma mudança de legenda. Sem cair em um temerário exercício de futurologia, as mudanças revelam uma tônica constante da política brasileira: são os partidos de perfil municipalista e pragmático — base do que convencionamos chamar de centrão — que determinam a composição dos legislativos estadual e federal, além de fazer toda diferença nas campanhas à Presidência e aos governos dos Estados.
No fim das contas, o jogo mais decisivo não está nos pólos do lulismo e do bolsonarismo, mas nesse personagem da política brasileira. Impulsionados pelas emendas impositivas e pelo aumento da influência do legislativo nas decisões nacionais, os partidos que disputam o controle do meio-campo político estão prontos para negociar cargos e verbas, independentemente de quem conquistar a cadeira da Presidência.
MDB e PSD tendem a seguir como verdadeiro pêndulo nas eleições. Juntos, esses partidos controlam uma em cada três prefeituras e reúnem desde governistas até opositores radicais do atual governo, acumulando uma capilaridade capaz de influenciar diretamente, por exemplo, as disputas ao Senado.
No lado governista, a mais importante movimentação ao centro parece ser a consolidação do PSB como o principal braço direito de Lula. Com a chegada de João Campos à presidência do partido, a legenda se firma como plataforma de candidaturas moderadas, ligadas ao liberalismo democrático e capazes de dialogar com setores mais resistentes ao lulismo. É o caso de Simone Tebet e Soraya Thronicke, possíveis candidatas ao Senado em São Paulo e Mato Grosso do Sul, ampliando as possibilidades de interlocução com o empresariado e o agronegócio.
Nessa mesma lógica, o PSB se fortalece com a chegada da vereadora goiana Aava Santiago, pré-candidata a deputada federal, fenômeno nas redes sociais que propõe novas formas de comunicação com o eleitorado evangélico. O partido também se tornou o destino de nomes que deixam as legendas de centro-esquerda, como PCdoB, Rede, PV e PDT, por tensões políticas locais ou pela ausência de viabilidade eleitoral.
Passando do centro ao polo da esquerda, o PT parece ainda patinar para renovar seus quadros e se conectar mais diretamente com a juventude. Enfrentando uma redução de 3.215 filiados, o desafio se torna ainda maior após a frustrada tentativa de federação com o PSOL, que poderia ampliar a presença do partido em grandes capitais e incorporar nomes com alto potencial de votos, como Érika Hilton e Fábio Félix. Apesar de atrair nomes históricos como Kátia Abreu e Eliziane Gama, o partido precisará se esforçar para renovar a sua bancada na Câmara, uma das que possuem a maioridade média da casa.
No outro campo, à direita, o avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas fortaleceu o capital político do PL, que encerra a janela com mais de uma centena de deputados e deve formar a maior bancada da Câmara desde 1998. O crescimento foi impulsionado pela atração de nomes não diretamente ligados ao bolsonarismo, como Mendonça Filho, ex-ministro da Educação no governo Temer e historicamente associado ao centrão, além de outros 20 deputados que deixaram o União Brasil. Essa dança das cadeiras parece ter uma raiz em comum: o início da federação União Progressista, principal novidade das eleições de 2026, que une dois dos maiores partidos da direita em meio a disputas locais.
O principal quebra-cabeça é que as chapas estaduais caminham para uma lógica quase predatória, com excesso de nomes altamente competitivos — como um time que escala 11 titulares, mas reúne mais de 20 craques, deixando bons jogadores sem espaço mesmo com potencial de protagonismo. Em São Paulo, por exemplo, PP e União somaram mais de 3 milhões de votos para deputado federal em 2022, com 132 candidaturas que garantiram nove cadeiras. Com a federação, a exigência de uma nominata unificada de até 71 nomes intensifica a competição interna e ajuda a explicar a migração de parlamentares.
Além do PL, Podemos e PSDB também absorveram parte dos deputados que deixaram o União. Os partidos saltaram, respectivamente, de 16 para 24 e de 14 para 19 deputados. Para superar a cláusula de barreira, atraíram novos nomes ao oferecer controle dos diretórios e maiorliberdade nas votações do Congresso.
Diante desse quadro, a janela partidária reorganiza forças e torna mais nítido o desenho das alianças que sustentarão as candidaturas e, ainda mais importante, formarão as maiorias no legislativo federal. Até aqui, é possível dizer que o centro tem caminhado mais para a direita do que para o lado governista, confirmando uma tendência inaugurada com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O que nos resta confirmar nas urnas em outubro é quem vai liderar esse grupo nos próximos quatro anos e se firmar como o fiel da balança da nossa política.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].