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Eleições 2026
22/4/2026 17:00
A segurança pública será uma das arenas mais explosivas da disputa presidencial de 2026. Não apenas porque a violência ocupa o imaginário cotidiano do país, mas porque ela oferece aos candidatos um material eleitoral de altíssima voltagem: medo, indignação, sensação de abandono e desejo imediato de ordem. O problema é que, justamente por isso, o debate tende a ser capturado por frases curtas, brutais, intuitivas e profundamente enganosas. O slogan entra onde a política pública falhou. E, quando isso acontece, o eleitor deixa de ser cidadão e passa a ser alvo de propaganda emocional. O próprio Tribunal Superior Eleitoral vem tratando o combate à desinformação e ao uso manipulatório de conteúdos nas eleições de 2026 como prioridade institucional, inclusive com regulamentação específica sobre o uso de inteligência artificial na campanha (TSE, 2026a; TSE, 2026b).
No caso da segurança pública, o risco é ainda maior. A cobertura do Congresso em Foco já mostrou que o tema ganhou centralidade no ambiente pré-eleitoral e que grandes operações policiais tendem a se converter em ativos de alto impacto midiático e eleitoral (Congresso em Foco, 2025a; Congresso em Foco, 2025b).
As imagens analisadas cumprem uma função importante: expõem algumas das frases mais repetidas, mais populares e mais perigosas do repertório político sobre segurança pública. O mérito delas está em nomear o problema. Mas é preciso ir além da denúncia estética. Não basta dizer que essas frases são "enganosas". É necessário demonstrar por que elas são politicamente funcionais, cognitivamente sedutoras e administrativamente desastrosas. Porque o ponto decisivo não é apenas que tais slogans sejam superficiais. O ponto decisivo é que eles servem perfeitamente a candidaturas que precisam parecer fortes sem apresentar um projeto de Estado.
É esse o núcleo da questão. Segurança pública pode ser conduzida a partir dessas frases? A resposta, sem rodeios, é não.
Pode-se fazer palanque com elas. Pode-se incendiar redes sociais com elas. Pode-se mobilizar setores cansados da violência com elas. Mas não se constrói uma política nacional de segurança com bordões morais, simplificações punitivistas e fetiche de força. O nome disso não é governança. É populismo securitário.
O slogan como método de manipulação
Toda campanha eleitoral procura condensar temas complexos em signos simples. Isso faz parte da gramática da política de massa. Mas há uma diferença essencial entre comunicação clara e simplificação fraudulenta. Uma candidatura responsável traduz problemas difíceis sem mentir sobre eles. Já a candidatura demagógica pega um problema estrutural, arranca dele uma imagem emocionalmente poderosa e a vende como solução pronta. Em segurança pública, isso é devastador, porque o eleitor amedrontado tende a premiar quem fala com mais agressividade, não quem apresenta mais capacidade institucional.
É por isso que frases como "mais armas significam mais segurança", "operação policial é sinônimo de resultado", "se reduzir a maioridade penal, a violência cai", "quem não deve, não teme", "violência sempre existiu, não tem o que fazer" e "bandido bom é bandido morto" não devem ser tratadas como opiniões isoladas ou meros exageros retóricos. Elas formam um vocabulário político coerente. Todas apontam na mesma direção: substituir planejamento por espetáculo, prevenção por revanche, inteligência por brutalidade e política pública por satisfação simbólica.
No fundo, essas frases não explicam a violência. Elas a exploram.
"Mais armas significam mais segurança": a fantasia da proteção privatizada
A primeira frase é talvez a mais sedutora para o senso comum. Ela oferece uma promessa emocionalmente simples: se o Estado não protege, o cidadão se arma e passa a proteger a si mesmo. O problema é que a evidência empírica disponível não confirma essa narrativa. Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam associação entre maior circulação de armas e aumento de homicídios no Brasil, além de estimar que a expansão recente do armamento civil impediu uma queda maior das mortes violentas no país (Cerqueira; Bueno, 2022; FBSP, 2023).
No plano doméstico e de gênero, o quadro é ainda mais grave. Campbell et al. (2003) demonstraram, em estudo multicêntrico amplamente citado, que a presença de arma de fogo em contextos de violência íntima eleva de forma acentuada o risco de feminicídio. A arma que, no imaginário político, aparece como proteção abstrata pode, na vida concreta, converter ameaça em morte.
Politicamente, a frase "mais armas significam mais segurança" serve menos como diagnóstico e mais como marcador ideológico. Ela desloca o centro da segurança pública do Estado para o indivíduo armado, como se proteção coletiva pudesse ser substituída por multiplicação privada de poder letal. Mas crimes organizados, milícias, facções, feminicídios, conflitos interpessoais, desvios de arsenais e violência doméstica não se resolvem com a fantasia da autodefesa atomizada. Segurança pública séria requer capacidade estatal. Armamentismo eleitoral oferece sensação de resposta, não resposta efetiva.
"Operação policial é sinônimo de resultado": quando a política vira cena
A segunda frase é a tradução eleitoral da estética da força. Blindado, helicóptero, tropa, cerco, imagens aéreas, coletivas de imprensa: tudo isso produz a sensação imediata de que o Estado, enfim, "agiu". Só que sensação de ação não é sinônimo de resultado. O relatório do Instituto Fogo Cruzado sobre o Grande Rio mostrou que 2025 registrou o menor número de tiroteios em dez anos de monitoramento, mas também o maior patamar de letalidade policial da série, além de impactos severos sobre escolas, creches e unidades de saúde (Fogo Cruzado, 2026a).
A frase falha, portanto, em dois níveis. No nível técnico, porque confunde ação ostensiva com eficácia duradoura. No nível político, porque transforma segurança pública em dramaturgia de governo. Operações de alto impacto rendem manchete, vídeo e capital político imediato para governadores e pré-candidatos. Não por acaso, o próprio Congresso em Foco observou que a intensificação desse tipo de ação tende a marcar o ambiente eleitoral de 2026 (Congresso em Foco, 2025a).
Uma política pública séria deveria perguntar outra coisa: a ação reduziu homicídios de forma sustentada? Diminuiu o domínio territorial de facções? Ampliou a capacidade investigativa? Preservou vidas civis? Protegeu equipamentos públicos? Fortaleceu a legitimidade do Estado? Sem isso, operação é impacto visual. E impacto visual, em ano eleitoral, costuma ser muito mais útil ao candidato do que ao cidadão.
"Se reduzir a maioridade penal, a violência cai": o atalho punitivo
A redução da maioridade penal retorna ciclicamente porque tem enorme rentabilidade simbólica. Ela produz um inimigo visível, um gesto de dureza e uma sensação de correção moral. O problema é que os próprios dados historicamente utilizados no debate brasileiro mostram que adolescentes respondem por parcela muito pequena do total de crimes no país. O Senado Federal já destacou, com base em dados da Secretaria Nacional de Segurança Pública, que jovens entre 16 e 18 anos correspondem a cerca de 0,9% dos delitos registrados, e a fração é ainda menor nos homicídios (Senado Federal, [s.d.]).
A consequência política dessa frase é evidente: ela desloca o foco. Em vez de discutir crime organizado adulto, circulação de armas, sistema prisional, inteligência policial, evasão escolar, recrutamento territorial de jovens e ausência de prevenção, a política oferece ao eleitor um alvo simplificado: o adolescente.
É uma solução teatral para uma estrutura complexa.
Quem promete resolver a violência nacional por meio da redução da maioridade penal está, na prática, oferecendo uma medida de altíssimo apelo moral e baixíssima capacidade sistêmica. O problema central da segurança no Brasil não é falta de fúria legislativa. É falta de coordenação estatal, inteligência, investigação, prevenção focalizada e continuidade administrativa.
"Quem não deve, não teme": o slogan que absolve o abuso
Poucas frases são tão autoritárias sob aparência tão banal. À primeira vista, ela parece apenas uma defesa da honestidade. Mas, traduzida politicamente, ela significa outra coisa: que o cidadão submetido à violência ou ao constrangimento estatal deve aceitar a arbitrariedade como preço normal da ordem.
Num Estado de Direito, isso é inaceitável. A Constituição brasileira estrutura a ação estatal sob garantias, limites e controle. A lógica democrática não é a da submissão cega ao poder, mas a da legalidade, da proporcionalidade e da proteção de direitos fundamentais (Brasil, 1988).
Do ponto de vista empírico, a frase também entra em choque com a realidade. O monitoramento do Instituto Fogo Cruzado registrou quase 1,4 mil vítimas de bala perdida em dez anos no Rio de Janeiro, incluindo crianças e pessoas sem qualquer relação com a dinâmica criminal que o slogan simplifica moralmente (Fogo Cruzado, 2026a).
Politicamente, a frase cumpre função precisa: legitimar a expansão discricionária do poder coercitivo. Ela simplifica a sociedade entre "bons" e "suspeitos", naturaliza filtragens arbitrárias e dilui o escândalo das vítimas inocentes. Em campanha presidencial, isso costuma aparecer como promessa de "dar liberdade para a polícia agir". Mas polícia sem controle não é polícia forte. É erosão do Estado de Direito.
"Violência sempre existiu, não tem o que fazer": a frase que absolve governos
Se algumas frases prometem demais, esta promete de menos. Ela naturaliza a tragédia e transforma a impotência pública em realismo cínico. Mas a realidade não sustenta essa resignação. O Atlas da Violência 2025 registrou que o Brasil teve 45.747 homicídios em 2023, com taxa de 21,2 por 100 mil habitantes, a menor em 11 anos (Ipea; FBSP, 2025).
Esse dado não autoriza triunfalismo. O país continua profundamente violento, desigual e atravessado por dinâmicas letais persistentes. Mas ele destrói a ideia de que nada muda. Violência não é destino metafísico. Ela responde a políticas, contextos institucionais, dinâmicas econômicas, presença estatal, inteligência, prevenção e gestão qualificada.
Dizer que "não tem o que fazer" é uma forma de desresponsabilizar governantes, blindar incompetências e preparar o terreno para uma administração baseada apenas em reação episódica. Não existe política pública sem hipótese de transformação. Onde se decreta a inevitabilidade da violência, o que se está declarando, na prática, é a falência da vontade de governar.
"Bandido bom é bandido morto": quando a barbárie pede voto
Essa talvez seja a frase mais brutal do repertório securitário brasileiro — e também a mais reveladora. Ela não propõe política. Não apresenta diagnóstico. Não formula estratégia. Ela apenas oferece morte como linguagem moral da ordem.
Seu apelo é compreensível num país exausto de violência. Mas sua lógica é desastrosa. O relatório do Fogo Cruzado para Salvador e Região Metropolitana mostrou que, em 2025, 40% dos baleados foram atingidos em ocorrências com participação policial, evidenciando o peso crescente da letalidade em contextos de confronto armado (Fogo Cruzado, 2026b).
Além disso, organismos internacionais e estudos sobre segurança urbana sustentam que políticas efetivas de redução da violência exigem governança integrada, prevenção, coordenação institucional e intervenção qualificada sobre fatores de risco, e não mera lógica de eliminação física do inimigo (UNODC, [s.d.]). A frase "bandido bom é bandido morto" não é programa de governo. É confissão de fracasso intelectual.
Quem transforma extermínio em ideal de governo abre mão de inteligência, devido processo, prevenção, investigação robusta e proteção de inocentes. O cadáver, nesse discurso, substitui o plano de governo.
O que está realmente em disputa em 2026
O risco da eleição de 2026 não está apenas em candidatos defenderem teses ruins sobre segurança pública. O risco maior é que o medo social seja convertido em atalho para o rebaixamento da inteligência cívica. Quando isso acontece, o eleitor para de cobrar capacidade de Estado e passa a premiar frases de impacto.
A cobertura recente do Congresso em Foco mostrou duas pistas decisivas: primeiro, que a segurança pública se consolidou como preocupação central de parte expressiva do eleitorado; segundo, que ações de grande repercussão tendem a ser exploradas como trunfo eleitoral por governadores e pré-candidatos (Congresso em Foco, 2025a; Congresso em Foco, 2025b).
É justamente por isso que o cidadão precisa elevar o padrão da cobrança pública. Não basta perguntar quem "fala duro". É preciso perguntar quem apresenta metas verificáveis de redução da violência letal; integração entre União e estados; fortalecimento da investigação e da inteligência; estratégia de enfrentamento financeiro ao crime organizado; controle efetivo de armas; proteção de escolas, creches, unidades de saúde e transporte; redução da letalidade policial com responsabilização e treinamento; prevenção focalizada para juventudes vulneráveis; e transparência para avaliar o que funciona e o que fracassa.
Fora disso, o resto é marketing.
Fecho
O Brasil não precisa de candidatos que falem sobre segurança pública como animadores de plateia. Precisa de líderes que consigam tratar o tema como problema de Estado, não como combustível para excitação eleitoral. A violência é grave demais para virar produto de campanha e complexa demais para caber em frase de para-choque ideológico.
Em 2026, o eleitorado terá diante de si uma escolha que vai muito além de preferências partidárias. Estará em jogo o próprio nível de seriedade com que o país deseja enfrentar uma de suas maiores tragédias históricas. Ou o Brasil cobra inteligência institucional, evidência, coordenação e responsabilidade democrática, ou continuará sendo governado por slogans que produzem aplauso no palanque e fracasso nas ruas.
Segurança pública não se mede pelo volume da voz de um candidato. Mede-se pela capacidade de um governo proteger vidas sem degradar a democracia.
Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 20 abr. 2026.
CAMPBELL, Jacquelyn C. et al. Risk factors for femicide in abusive relationships: results from a multisite case control study. American Journal of Public Health, v. 93, n. 7, p. 1089-1097, 2003. Disponível em: https://doi.org/10.2105/AJPH.93.7.1089. Acesso em: 20 abr. 2026.
CERQUEIRA, Daniel et al. Armas de fogo e homicídios no Brasil. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2022. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/09/informe-armas-fogo-homicidios-no-brasil.pdf. Acesso em: 20 abr. 2026.
CONGRESSO EM FOCO. 2026 deve marcar nova onda de grandes operações policiais. Brasília, DF, 4 nov. 2025. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/113515/2026-deve-marcar-nova-onda-de-grandes-operacoes-policiais. Acesso em: 20 abr. 2026.
CONGRESSO EM FOCO. Violência passa a economia como a maior preocupação dos brasileiros. Brasília, DF, 23 set. 2025. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/coluna/112207/violencia-passa-a-economia-como-a-maior-preocupacao-dos-brasileiros. Acesso em: 20 abr. 2026.
FOGO CRUZADO. Rio de Janeiro tem menor número de tiroteios e maior letalidade policial em 10 anos de monitoramento. Rio de Janeiro, 26 fev. 2026. Disponível em: https://fogocruzado.org.br/relatorios/rio-de-janeiro-tem-menor-numero-de-tiroteios-e-maior-letalidade-policial-em-10-anos-de-monitoramento/. Acesso em: 20 abr. 2026.
FOGO CRUZADO. Salvador e RMS: participação policial em tiroteios bate recorde em 2025. Salvador, 26 fev. 2026. Disponível em: https://fogocruzado.org.br/relatorios/salvador-e-rms-participacao-policial-em-tiroteios-bate-recorde-em-2025/. Acesso em: 20 abr. 2026.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Relatório anual 2022. São Paulo: FBSP, 2023. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2023/12/relatorio-de-atividades-2022-fbsp.pdf. Acesso em: 20 abr. 2026.
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA); FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Atlas da Violência 2025. Brasília, DF; São Paulo, 2025. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2025/05/atlas-violencia-2025.pdf. Acesso em: 20 abr. 2026.
SENADO FEDERAL. O mito da redução da maioridade penal. Brasília, DF, 2 abr. 2015. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/511158. Acesso em: 20 abr. 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). TSE aprova calendário eleitoral e regulamenta uso de IA nas eleições 2026. Brasília, DF, 3 mar. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Marco/tse-aprova-calendario-eleitoral-e-regulamenta-uso-de-ia-nas-eleicoes-2026. Acesso em: 20 abr. 2026.
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Por dentro das eleições: conheça as regras sobre uso de IA na campanha eleitoral de 2026. Brasília, DF, 10 abr. 2026. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Abril/por-dentro-das-eleicoes-conheca-as-regras-sobre-uso-de-ia-na-campanha-eleitoral-de-2026. Acesso em: 20 abr. 2026.
UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME (UNODC). Urban safety governance approach. Vienna, [s.d.]. Disponível em: https://www.unodc.org/unodc/en/urban-safety/urbansafetygovernanceapproach.html. Acesso em: 20 abr. 2026.
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