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Saúde e trabalho
1/5/2026 8:00
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho no regime 6x1, seis dias trabalhados para um de descanso, deixou de ser uma pauta trabalhista para ocupar o centro do debate em saúde. Em um país onde transtornos mentais, doenças crônicas e afastamentos por incapacidade crescem de forma consistente, a organização do tempo de trabalho é determinante crítico da saúde do trabalhador.
Sob a ótica de autoridade reguladora da saúde suplementar, acredito que o tema imponha uma reflexão estratégica. Jornadas extensas e pouco tempo de recuperação afetam o indivíduo e, também, pressionam diretamente os custos assistenciais e a sustentabilidade dos planos de saúde, para beneficiários (ou consumidores), contratantes e operadoras.
Evidências acumuladas ao longo das últimas décadas mostram que jornadas prolongadas, com apenas um dia de descanso semanal, estão associadas a maior incidência de transtornos de ansiedade e depressão, distúrbios do sono, doenças cardiovasculares, síndrome de burnout e acidentes de trabalho.
A lógica é simples, menos tempo de recuperação fisiológica e mental aumenta o desgaste cumulativo. Em setores como comércio, serviços e teleatendimento, por exemplo, onde a escala 6x1 é predominante, o impacto é ainda mais evidente, especialmente quando combinado com metas agressivas, baixa autonomia e alta rotatividade.
Reduzir a jornada, ainda que parcialmente, além de medida de bem-estar, é intervenção preventiva com potencial de reduzir sinistralidade e afastamentos. Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2023, mais de 70% de trabalhadores sob regime CLT têm uma jornada semanal de 44 horas, os quais seriam impactados em uma possível aprovação do fim da escala.
Planos de saúde coletivos empresariais, que concentram a maior parte dos beneficiários no Brasil, são altamente sensíveis ao perfil de adoecimento da população coberta. Quando trabalhadores adoecem mais, o efeito é direto. Aumenta a frequência de consultas e exames, cresce o número de internações evitáveis, maior uso de medicamentos contínuos e elevação da sinistralidade.
Esse cenário pressiona reajustes e pode tornar os contratos inviáveis para pequenas e médias empresas, ampliando o risco de exclusão assistencial.
A redução da jornada 6x1, portanto, pode ser interpretada como uma política indireta de controle de custos em saúde suplementar, ao atuar na raiz do problema, o desgaste ocupacional.
Mais do que um debate trabalhista, a revisão da jornada 6x1 precisa ser compreendida como uma política intersetorial, que atravessa trabalho, economia e saúde. Ignorar seus impactos é perpetuar um modelo que adoece trabalhadores e encarece o sistema.
Por outro lado, tratar a redução da jornada como investimento, e não como custo, abre espaço para ganhos compartilhados. Trabalhadores mais saudáveis, empresas mais produtivas e planos de saúde mais sustentáveis.
Espero que o Congresso Nacional tenha a sensibilidade de compreender esse quadro e aprove a escala 5x2.