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Serviço público
28/4/2026 17:05
Quando um hospital público falha no atendimento, quando uma escola não consegue garantir o aprendizado ou a segurança pública não dá conta da demanda, a resposta mais fácil é apontar o servidor como único responsável pelas falhas. A narrativa insiste em retratar o funcionalismo como ineficiente, descomprometido ou, ironicamente, protegido demais. Parece haver muita dificuldade em se fazer um questionamento simples: quais condições esses servidores têm para executar seu trabalho?
A resposta incomoda e é bem mais complexa do que simplesmente culpar o servidor. Levantamento dos Tribunais de Contas identificou que 57% das salas de aula das escolas públicas são inadequadas e que mais de 88% das unidades não têm laboratório ou sala de informática. Hospitais convivem com superlotação, falta de insumos e equipes pressionadas ao limite, enquanto, na segurança, os policiais trabalham sob risco físico permanente, sem suporte psicológico adequado. É sobre essa base precária que se cobra excelência de profissionais que precisam improvisar todos os dias para dar conta do serviço.
O adoecimento é uma das consequências inevitáveis. Apenas no primeiro semestre de 2025, foram registrados 3.494 afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais no serviço público. Entre professores, enfermeiros e policiais, esse cenário se torna ainda mais grave porque reúne alta pressão, responsabilidade constante e condições precárias de trabalho e reconhecimento.
Durante anos, faltam investimento, planejamento e reposição de pessoal. Depois, quando o serviço não consegue responder como deveria, a cobrança pública cumpre uma função conveniente: ela desvia o foco de gestores, governos e prioridades orçamentárias que produziram esse cenário e transfere a culpa para o servidor que está na ponta. Trata-se de uma forma de preservar os responsáveis reais enquanto se desgasta a imagem de quem continua tentando manter o atendimento de pé.
Por isso, a CNSP reafirma que condições dignas de trabalho não são privilégio, mas condição mínima para que a população receba o serviço que tem direito. Defender o servidor é enfrentar a lógica que sucateia a estrutura pública, pois onde faltam condições, falta também qualidade. E enquanto isso não for encarado com seriedade, seguirá crescendo o abismo entre o que se cobra do serviço público e aquilo que o próprio Estado oferece para que ele funcione.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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