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Due diligencie: quais as atuais barreiras de entrada no mercado?

Critérios éticos, jurídicos e reputacionais deixaram de ser diferencial e passaram a definir quem entra ou fica fora das cadeias de fornecimento.

Gustavo Carvalho Machado

Gustavo Carvalho Machado

4/5/2026 16:09

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Preço competitivo e cumprimento de prazos já não bastam para garantir espaço nas cadeias de fornecimento de grandes empresas. A lógica de seleção de parceiros evoluiu. Mais do que eficiência operacional, departamentos de compras e jurídicos passaram a priorizar um critério mais amplo: a confiabilidade do fornecedor sob as perspectivas ética, jurídica e reputacional.

Nesse contexto, tratar temas como compliance e proteção de dados como agenda futura revela um descompasso com a realidade atual. A contratação por grandes empresas já pressupõe, em muitos casos, a demonstração concreta de estruturas mínimas de integridade, como programas de compliance formalizados, códigos de conduta, canais de denúncia e treinamentos periódicos, além da conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Os processos de homologação e due diligence refletem essa mudança. Questionários cada vez mais detalhados buscam verificar não apenas a adoção dessas práticas, mas também sua efetividade e capilaridade, incluindo a forma como o fornecedor gerencia riscos em sua cadeia de terceiros.

Para empresas que operam no ambiente digital, como desenvolvedoras de plataformas, aplicativos e sistemas, a conformidade à LGPD deixa de ser um diferencial e passa a ser condição de entrada. O tratamento de dados pessoais de clientes ou colaboradores do contratante exige a comprovação de um programa estruturado de governança em privacidade, acompanhado de medidas técnicas e organizacionais de segurança da informação. A ausência desses elementos eleva o risco jurídico da contratação, tornando-a, na prática, inviável.

O que se observa, portanto, é um movimento de rápida transformação: critérios antes considerados como diferenciais competitivos estão sendo incorporados como requisitos básicos. Esse fenômeno não se limita à proteção de dados.

No que diz respeito à ESG, por exemplo, houve uma mudança significativa em curto espaço de tempo: em relatório de 2021 sobre cadeias de suprimentos globais, a KPMG classificava o ESG como algo desejável. Já em 2023, o tema passou a ser tratado como essencial. A mesma trajetória começa a se desenhar em relação à inteligência artificial.

Grandes empresas já exigem governança, LGPD e ESG como condição mínima, tornando a ausência desses critérios um risco comercial imediato.

Grandes empresas já exigem governança, LGPD e ESG como condição mínima, tornando a ausência desses critérios um risco comercial imediato.Freepik

Tecnologias como a IA generativa vêm sendo integradas às cadeias de suprimentos, impulsionando ganhos de eficiência e aprimorando mecanismos de governança. Como consequência, a governança de Inteligência Artificial já desponta como novo vetor de avaliação em contratações.

Segundo a Ernest & Young, projeções indicam que cadeias de suprimentos poderão se tornar majoritariamente autônomas até 2035, com a inteligência artificial exercendo papel central na coordenação de processos e na resposta a eventos em tempo real. Nesse cenário, a capacidade de integrar tecnologia com responsabilidade regulatória tende a se tornar um atributo decisivo.

Paralelamente, as exigências relacionadas ao ESG tornaram-se mais objetivas e mensuráveis, impulsionadas tanto por regulações quanto pela pressão social por práticas empresariais sustentáveis. A responsabilidade sociotrabalhista na cadeia de fornecimento também ganhou protagonismo. Empresas passaram a ser cobradas não apenas por suas próprias práticas, mas pelo comportamento de seus fornecedores, incluindo aspectos como gestão de riscos psicossociais, prevenção ao assédio e promoção de ambientes de trabalho inclusivos.

Não há, contudo, uma fórmula única aplicável a todos os setores. A materialidade desses critérios varia conforme o modelo de negócio. No setor de tecnologia, proteção de dados e governança de informação são indispensáveis. Na indústria, ganham relevo temas como sustentabilidade, rastreabilidade de emissões e segurança do trabalho. Já no agronegócio e na exportação, normas internacionais voltadas à redução do desmatamento e à precificação do carbono passam a impactar diretamente o acesso a mercados. No setor de serviços, por sua vez, destacam-se práticas de compliance, transparência e responsabilidade social.

Diante desse cenário, a conclusão que se impõe é que empresas que se antecipam às exigências tendem a consolidar posição estratégica, enquanto aquelas que aguardam a imposição regulatória frequentemente chegam tarde ao movimento. A ausência de evidências consistentes de boas práticas de governança e ESG já representa, em muitos casos, um risco concreto de exclusão de oportunidades comerciais.

Mais do que um exercício de conformidade, a adaptação a essas tendências deve ser compreendida como uma estratégia de posicionamento. Tornar-se um fornecedor confiável, estruturado e alinhado às melhores práticas não apenas viabiliza contratos, mas fortalece a reputação e sustenta relações de longo prazo em mercados cada vez mais exigentes.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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