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Eleições
11/5/2026 17:19
Acompanho de perto as disputas eleitorais brasileiras há quase duas décadas. Cada ciclo trouxe seu próprio dilema: primeiro o e-mail em corrente, depois as redes sociais abertas, depois a mensageria privada e, na pandemia, a pressão por resultados digitais. Em 2026, a fronteira é outra. Pela primeira vez, um eleitor brasileiro poderá ver um vídeo, ouvir um áudio e ler uma declaração de um candidato sem que nada disso tenha acontecido de verdade. A inteligência artificial está mudando o ambiente em que as decisões políticas se formam, e está fazendo isso em velocidade superior à capacidade de resposta das instituições, da imprensa e da própria sociedade.
Por isso, as eleições deste ano serão mais do que uma disputa entre projetos políticos, mas uma prova de maturidade institucional diante de novas tecnologias, formas de desinformação e desafios à confiança pública. Embora traga ganhos importantes para a vida pública, ampliando o acesso à informação e a comunicação entre candidato e eleitor, quando usadas sem transparência, podem fabricar realidades e acelerar a desinformação.
Em uma democracia, o eleitor tem o direito de saber quando está diante de um conteúdo real ou manipulado. Deepfakes, por exemplo, podem impactar reputações e influenciar percepções. E é nesse contexto que as últimas resoluções publicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) devem ser compreendidas.
Entre as mudanças mais relevantes, está a exigência de identificação clara do uso de inteligência artificial em conteúdos eleitorais. As resoluções fazem parte de um conjunto de regras robustas estabelecido pela Justiça Eleitoral para lidar com o desafio das deepfakes, desinformação, responsabilização das plataformas digitais, acessibilidade e inclusão política.
O ponto central não é impedir a inovação, mas evitar que ela seja usada para corroer a confiança pública e manipular o debate, especialmente em momentos em que não há tempo para verificação.
Por isso ganha relevância a restrição à publicação, republicação e impulsionamento de novos conteúdos sintéticos envolvendo imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito.
A regra é essencial diante de uma assimetria que costuma escapar do debate público. Diferentemente de campanhas presidenciais e estaduais que contam com equipes robustas de monitoramento jurídico para agilidade em respostas, candidaturas para a vereança, ou deputado estadual em cidades médias e estados pequenos podem não ter possibilidade de reação diante de um vídeo falso na véspera da votação. Regras claras e prazos rigorosos protegem sobretudo quem tem menos recursos para se defender, ou seja, justamente as candidaturas que mais ampliam a representatividade política do país.
A relação entre a IA e a autonomia do eleitor deve estar no centro do debate. Por isso, as novas regras também proíbem que sistemas de IA recomendem votos ou influenciem preferências. A tecnologia pode organizar informação, mas não induzir escolhas de forma invisível.
A democracia depende de liberdade, mas também depende de consciência política, se forma a partir de informação, debate, pluralidade, experiência e julgamento próprio. Quando sistemas automatizados passam a sugerir escolhas eleitorais, abre-se uma zona de risco institucional. O voto deixa de ser apenas expressão da vontade individual e passa a ser potencialmente moldado por arquiteturas tecnológicas que o eleitor desconhece.
Esse debate envolve também a responsabilidade das plataformas digitais. As resoluções do TSE estabelecem deveres objetivos diante de conteúdos irregulares, com mecanismos de denúncia e remoção de conteúdos ilícitos. Trata-se de uma mudança importante porque a desinformação não circula apenas em uma postagem isolada. Ela se replica, se adapta, migra de formato, ganha novas legendas, reaparece em perfis diferentes e se beneficia da velocidade das redes. O desafio institucional, portanto, não é apenas remover um conteúdo, mas reduzir a capacidade de reprodução sistemática de conteúdos danosos ao processo eleitoral.
Em pleitos recentes na América Latina, conteúdos manipulados por inteligência artificial circularam por dias sem resposta institucional. Com regulações ainda atrás da velocidade da tecnologia, o ônus recaí de forma desigual sobre democracias mais vulneráveis. Nesse contexto, o esforço regulatório do TSE em 2026 se insere em um movimento mais amplo - o que o Brasil fizer agora ajudará a definir nossos próximos pleitos e servirá de exemplo para a região.
Esse conjunto de medidas, que também englobam à dimensão de inclusão, a partir do programa Seu Voto Importa, mostra que a Justiça Eleitoral está diante de uma tarefa mais complexa do que apenas organizar uma votação. O desafio é proteger o ecossistema democrático, da informação que chega ao eleitor à urna no dia da eleição.
Temos uma trajetória importante na construção de um sistema eleitoral seguro, auditável e reconhecido. Nenhum sistema democrático, contudo, se sustenta apenas pela sua arquitetura técnica. A democracia também depende de cultura institucional, responsabilidade pública, compromisso com a verdade e disposição permanente de proteger a autonomia do cidadão.
Em 2026, proteger o voto significa garantir que a tecnologia esteja a serviço da democracia. O desafio está em assegurar que, em meio à velocidade dos algoritmos e à sofisticação da inteligência artificial, a vontade popular continue sendo formada por pessoas livres, informadas e conscientes.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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