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Meio ambiente

Quando o tempo da política ignora o tempo da natureza

Enchentes, deslizamentos e incêndios revelam que a tragédia ambiental nasce menos da chuva e mais da ausência histórica de planejamento público.

Reinaldo Dias

Reinaldo Dias

19/5/2026 11:23

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As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e os deslizamentos ocorridos em Juiz de Fora, em Minas Gerais, em fevereiro de 2026, mostram que os desastres ambientais no Brasil não podem mais ser tratados como episódios isolados ou imprevisíveis. No caso gaúcho, estudo da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico apontou as enchentes de 2024 como o maior desastre natural da história do Estado e advertiu para a necessidade de preparação diante de eventos extremos mais frequentes. Em Juiz de Fora, as chuvas intensas provocaram deslizamentos, mortes e destruição em áreas urbanas vulneráveis.

Esses episódios têm causas climáticas evidentes, pois ocorrem em um contexto de eventos extremos mais intensos e frequentes. Mas seus efeitos sociais e ambientais não podem ser explicados apenas pelo volume de chuva. O desastre se torna tragédia quando encontra cidades despreparadas, ocupação desordenada do território, encostas instáveis, rios confinados, drenagem insuficiente, áreas de risco habitadas por populações pobres e políticas públicas descontínuas. A chuva extrema é o fenômeno natural. A extensão da tragédia é, em grande parte, resultado de decisões políticas.

A política frequentemente opera no tempo curto dos mandatos, das obras com visibilidade imediata, da pressão de setores econômicos e das soluções anunciadas depois de cada desastre. A natureza, no entanto, responde em outro tempo. Rios, encostas, florestas, manguezais, áreas alagáveis, restingas e corredores ecológicos funcionam por ciclos complexos, muitas vezes lentos, e não se ajustam ao calendário eleitoral. Quando esse descompasso é ignorado, a prevenção é substituída por improviso e a reconstrução passa a ocupar o lugar que deveria pertencer ao planejamento.

No Rio Grande do Sul, a devastação provocada pelas enchentes reacendeu o debate sobre ocupação de áreas vulneráveis, proteção de bacias hidrográficas, drenagem urbana, infraestrutura de contenção, alertas precoces e capacidade de resposta do poder público. Em Juiz de Fora, a tragédia expôs situação semelhante em outro contexto geográfico. A cidade está situada em área de relevo acidentado, com encostas ocupadas e bairros sujeitos a deslizamentos. O próprio mapeamento da Defesa Civil municipal classifica áreas de risco em diferentes graus, inclusive de risco alto e muito alto. Isso significa que o risco já era conhecido antes da tragédia.

Muitas vezes, os desastres são apresentados como surpresa absoluta, embora as informações sobre áreas de risco, fragilidade ambiental, ocupação irregular e vulnerabilidade social já existam em inúmeros casos. O que falta é transformar diagnóstico em política permanente. O poder público mapeia, registra, alerta, mas frequentemente não remove famílias de áreas perigosas, não oferece moradia segura, não controla novas ocupações, não fiscaliza adequadamente e não mantém investimentos preventivos na escala necessária.

A política contra o tempo da natureza também se expressa na forma como o país trata seus ecossistemas de proteção. Manguezais, restingas, várzeas e áreas alagáveis são frequentemente vistos como espaços vazios, entraves ao crescimento urbano ou reservas de expansão imobiliária. Essa visão é equivocada. Esses ambientes cumprem funções decisivas para reduzir enchentes, conter erosão, filtrar água, proteger a pesca artesanal e amortecer impactos climáticos. Quando são aterrados, drenados ou ocupados, o custo não desaparece. Ele retorna sob a forma de inundações, perda de biodiversidade, salinização, destruição de moradias e prejuízos econômicos.

Nas áreas costeiras, a ocupação de restingas, manguezais e áreas sujeitas à inundação costuma ser justificada por argumentos de desenvolvimento urbano, turismo, infraestrutura e geração de empregos. Em muitos municípios, flexibilizações feitas em uma gestão produzem consequências que serão enfrentadas por outra, especialmente quando autorizam empreendimentos em áreas ambientalmente frágeis ou reduzem a proteção de ecossistemas que funcionam como barreiras naturais. A administração que aprova a medida pode obter apoio político, arrecadação, visibilidade pública ou aproximação com setores econômicos interessados. No entanto, os custos ambientais e sociais tendem a aparecer depois, na forma de erosão, enchentes, perda de pesca artesanal, salinização, destruição de moradias e aumento dos gastos públicos com obras emergenciais. Não se trata de impedir o desenvolvimento, mas de reconhecer que determinadas áreas têm função pública insubstituível, mesmo quando estão nas mãos de interesses privados.

A ocupação desordenada, o abandono da prevenção e a destruição de ecossistemas ampliam desastres que já poderiam ser previstos e mitigados.

A ocupação desordenada, o abandono da prevenção e a destruição de ecossistemas ampliam desastres que já poderiam ser previstos e mitigados.Magnific

O mesmo raciocínio vale para o Pantanal. Os incêndios recorrentes mostram a vulnerabilidade de um bioma que depende de equilíbrio delicado entre água, vegetação, fauna e uso do solo. Em 2024, o MapBiomas registrou aumento expressivo da área queimada no primeiro semestre em relação à média dos anos anteriores, com junho apresentando a maior área queimada já observada para aquele período no monitoramento da plataforma. O fogo não pode ser explicado apenas pela estiagem. Ele se relaciona também com decisões sobre uso da terra, fiscalização, prevenção, manejo e proteção de áreas naturais.

A crença de que tudo pode ser recuperado depois é uma das ilusões mais perigosas da política ambiental. Compensações, restauração e mitigação são instrumentos necessários, mas não podem servir como licença para destruir primeiro e prometer reparação depois. O problema não é a falta de conhecimento sobre os limites da reversibilidade ecológica. É a recusa política em reconhecê-los. Ecossistemas degradados além de certos limites não retornam ao estado anterior, espécies extintas não podem ser recuperadas, e funções ambientais perdidas exigem décadas, quando não séculos, para se restabelecer. A insistência em governar o tempo da natureza com as ferramentas do tempo da política tem um custo que nenhum mandato futuro poderá quitar.

Essa ilusão da reversibilidade interessa a muitos setores. Interessa a governos que desejam anunciar obras rapidamente. Interessa a empreendedores que preferem transformar condicionantes ambientais em custo administrável. Interessa a grupos políticos que tratam a fiscalização como entrave ao crescimento. E interessa a setores econômicos que conseguem privatizar os ganhos imediatos e socializar os prejuízos futuros. Quando o desastre ocorre, a conta é paga pela população, pelo orçamento público e pelas comunidades mais vulneráveis.

A dimensão social desse processo precisa ser colocada no centro da discussão. A política que ignora o tempo da natureza não atinge todos igualmente. Moradores de periferias urbanas, populações ribeirinhas, pescadores artesanais, agricultores familiares, comunidades tradicionais, idosos, crianças e trabalhadores pobres são os primeiros a sofrer os efeitos das enchentes, deslizamentos, secas, calor extremo e perda de serviços ambientais. São também os que têm menos recursos para sair das áreas de risco, reconstruir suas casas, recuperar renda e enfrentar longos períodos de abandono institucional.

Por isso, a crise ambiental brasileira não é apenas uma crise ecológica. É uma crise de responsabilidade política. O país conhece boa parte de seus riscos, possui instituições técnicas, universidades, órgãos de monitoramento, mapas, diagnósticos e alertas. O que falta é subordinar a política imediata a uma visão de longo prazo. Isso exige planejamento territorial, continuidade administrativa, fiscalização permanente, investimento em prevenção, fortalecimento da Defesa Civil, proteção de áreas sensíveis e políticas habitacionais que retirem pessoas de áreas de risco sem empurrá-las para outras formas de precariedade.

Governar no tempo da natureza significa compreender que determinadas decisões produzem efeitos que ultrapassam governos, legislaturas e ciclos econômicos. Quando áreas alagáveis são ocupadas, encostas são desmatadas, rios são confinados, manguezais são aterrados e políticas de prevenção são abandonadas, o poder público não está apenas economizando recursos ou acelerando obras. Está criando as condições para crises futuras.

Fica claro, portanto, que o problema não está na ausência de conhecimento sobre os limites ecológicos, mas na recusa política em orientar as decisões públicas por esses limites. Não basta reconstruir depois das enchentes, combater incêndios depois que o fogo se espalha ou prometer compensações depois que ecossistemas foram destruídos. A prevenção deve deixar de ser discurso posterior à tragédia e passar a orientar o planejamento público. Governar contra o tempo da natureza é governar contra a segurança da população, contra a justiça social e contra o futuro do país.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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