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Soberania digital
19/5/2026 16:00
Quando câmbio baixo, incentivo fiscal, energia barata e gasto eleitoral digital entram no mesmo circuito, o resultado é simples: o Brasil entrega território, infraestrutura e dinheiro público, enquanto as Big Techs capturam renda, dados e influência política.
Soberania digital não é ter servidor em solo brasileiro. É ter controle sobre quem opera, quem acessa e quem lucra com os dados. Se o data center é da Google, da Amazon, da Meta ou da ByteDance, os dados continuam submetidos às decisões dessas empresas, às pressões de seus países de origem e às regras comerciais que elas próprias ajudam a moldar.
O endereço do galpão não resolve o problema. Há uma confusão conveniente entre localização geográfica e soberania. Talvez nem seja confusão. Talvez seja método.
O Brasil está barato
Em dezembro de 2024, o dólar chegou a R$ 6,26. Neste ano, já esteve em R$ 4,89. Para quem olha daqui, a queda é de 21,9%. Para quem vem de fora com dólares na mão, a conta é outra: 6,26 dividido por 4,89 dá 1,28. Ou seja, com o mesmo dólar, o investidor estrangeiro compra 28% mais Brasil do que comprava antes.
E isso acontece no mesmo momento em que os Estados Unidos elevam tarifas sobre importações. Se um equipamento custa US$ 10 e passa por uma tarifa de 25%, ele sobe para US$ 12,50. Com o câmbio a R$ 4,89, isso dá R$ 61. Comprado direto, sem a rota americana, sai por R$ 48,90. A diferença é praticamente a própria tarifa.
Por que o Brasil está oferecendo incentivo para empresas que já têm incentivo suficiente para vir?
Estamos abrindo mão de imposto para atrair empresas estrangeiras e esquecendo do essencial: construir capacidade nacional. Data center estratégico não pode ser tratado como galpão de logística com ar-condicionado. Ali dentro não está só armazenamento. Está a infraestrutura da inteligência artificial, da economia digital, da saúde, da educação, da comunicação e da política.
O circuito completo é este: o Brasil oferece isenção, energia barata e câmbio favorável. As Big Techs chegam, constroem com custo reduzido, capturam dados, renda e dependência tecnológica.
Em ano eleitoral, o fundo público abastece campanhas. As campanhas compram anúncios. Os anúncios vão para Google, Meta, YouTube e TikTok. Ou seja, pagaremos o dobro pela metade do serviço.
O país paga para atrair. Depois paga para usar. Depois paga para depender.
Não é preciso inteligência artificial para perceber a desonestidade intelectual.
Basta fazer conta.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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