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Trabalho

Quando a esperança bate o ponto: a vitória da escala 5x2 e a força das lideranças LGBTI+

Debate sobre redução da jornada ultrapassa a economia e recoloca saúde mental, dignidade e tempo livre no centro da política.

Toni Reis

Toni Reis

28/5/2026 13:00

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A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, nos lembra que vivemos em um tempo em que o excesso de trabalho deixou de ser apenas exploração externa e passou a ser também autoexploração. Um tempo em que o sujeito se transformou em seu próprio patrão e seu próprio algoz, internalizando a exigência de produtividade contínua até o limite do esgotamento.

Há momentos na política em que essa lógica parece começar a ser rompida. A sociedade percebe que a mudança não é uma abstração filosófica nem um discurso eleitoral vazio. Ela acontece. Ela ganha corpo. Ela entra no cotidiano das pessoas. Ela muda a hora de acordar, a hora de descansar, o tempo de conviver com a família, de amar, estudar, dormir e viver.

Como lembrava Karl Marx, ao refletir sobre a vida sob o trabalho alienado, "o reino da liberdade começa onde termina o trabalho determinado pela necessidade". Essa ideia ajuda a compreender por que a redução da jornada não é apenas econômica, mas profundamente humana.

A aprovação da proposta que avança na superação da escala 6x1 e fortalece a lógica da escala 5x2 que representa exatamente isso: um sopro de esperança para milhões de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros que vivem com hora marcada para entrar, produzir, obedecer e sobreviver.

Para quem trabalha seis dias por semana, muitas vezes em pé, em supermercados, farmácias, lojas, telemarketing, serviços gerais, postos de gasolina, hospitais e comércio em geral, a vida acaba sendo reduzida ao cansaço. O corpo vira extensão da máquina econômica. O domingo torna-se insuficiente para recuperar a saúde mental, emocional e física.

Por isso, essa conquista toca profundamente o coração do povo trabalhador. Ela diz: "outro mundo é possível".

E há algo de historicamente bonito nesse processo.

É impossível não reconhecer o protagonismo de lideranças que simbolizam uma transformação profunda da política brasileira.

O vereador Rick Azevedo, gay, negro e ex-balconista, construiu sua trajetória a partir da própria experiência de exploração do trabalho. Vindo do comércio, da rotina dura de atendimento e sobrevivência urbana, transformou sua vivência em mobilização social com o movimento Vida Além do Trabalho (VAT), tornando-se uma das principais vozes contra a escala 6x1.

No mesmo campo de transformação social, a deputada federal Erika Hilton fez história ao se tornar a primeira deputada federal negra e travesti do Brasil. Oriunda da periferia paulista, sua trajetória é marcada pela luta contra a exclusão, pela afirmação da dignidade e pela defesa dos direitos humanos em escala nacional.

Também é fundamental reconhecer outras lideranças LGBTI+ que foram decisivas e corajosas na defesa dessa pauta.

A deputada federal Duda Salabert, travesti, professora e militante, tem uma trajetória marcada pela defesa da educação, dos direitos humanos e da inclusão social, sendo uma das primeiras travestis eleitas para o Congresso Nacional.

A deputada federal Daiana Santos, mulher negra e lésbica, também desempenhou papel importante na defesa dos direitos da classe trabalhadora, da igualdade racial e da cidadania plena, trazendo para o parlamento a voz das periferias e das populações historicamente excluídas.

Existe uma dimensão filosófica poderosa nessa história.

Durante anos, setores da direita e até parte da esquerda acusaram os movimentos LGBTI+ de defender apenas "pautas identitárias", como se falar de orientação sexual, identidade de gênero, raça e dignidade humana fosse algo separado da vida concreta do povo trabalhador.

Mobilização liderada por parlamentares e movimentos sociais conecta trabalho digno, saúde mental e democracia.

Mobilização liderada por parlamentares e movimentos sociais conecta trabalho digno, saúde mental e democracia.Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Mas a realidade respondeu de forma contundente.

Foram justamente lideranças LGBTI+, negras e vindas das margens sociais que ajudaram a impulsionar uma das pautas mais universais da classe trabalhadora brasileira: o direito ao descanso, ao tempo livre, à saúde mental e à dignidade no trabalho.

Isso desmonta uma falsa oposição construída artificialmente entre identidade e luta de classes.

Não existe contradição entre defender a população LGBTI+ e defender a classe trabalhadora. Pelo contrário: a maioria da população LGBTI+ também trabalha, pega transporte público lotado, sofre com baixos salários, enfrenta jornadas exaustivas e luta para sobreviver num sistema profundamente desigual.

A pauta do trabalho digno é também uma pauta LGBTI+.

E a pauta LGBTI+ é também uma pauta social, econômica e trabalhista.

Também é importante reconhecer que avanços dessa dimensão só acontecem quando existe convergência democrática. Houve mobilização social, articulação parlamentar e diálogo institucional. Houve participação de diferentes campos políticos que, em maior ou menor grau, compreenderam a urgência do tema.

Independentemente das divergências políticas, o amplo apoio parlamentar demonstra que a sociedade brasileira começa a compreender que reduzir jornadas abusivas não é privilégio: é uma questão de saúde pública, dignidade humana e desenvolvimento social.

Diversos estudos na área da saúde mental apontam que jornadas excessivas aumentam índices de ansiedade, depressão, estresse crônico, esgotamento emocional e adoecimento físico. Em contrapartida, jornadas mais equilibradas ampliam bem-estar, convivência familiar, participação comunitária e qualidade de vida.

Nesse sentido, como também sugeria Alexis de Tocqueville ao refletir sobre as democracias modernas, o bem-estar das sociedades depende da capacidade de equilibrar liberdade, trabalho e vida coletiva, garantindo condições para que os cidadãos não sejam esmagados pela lógica da produção contínua, mas possam participar plenamente da vida social.

Talvez seja isso que mais emocione nessa conquista.

Ela devolve ao povo brasileiro algo que o modelo de trabalho exaustivo tentou corroer: a capacidade de imaginar o futuro.

Quando uma trabalhadora pode sonhar em estudar. Quando um trabalhador pode passar mais tempo com os filhos. Quando uma atendente consegue descansar. Quando uma pessoa LGBTI+ periférica vê alguém parecido consigo liderando mudanças nacionais. Tudo isso produz cidadania.

Tudo isso produz democracia.

Tudo isso produz esperança.

A vitória da escala 5x2 não é apenas uma mudança administrativa no mundo do trabalho. Ela é um símbolo político e humano. Um lembrete de que a democracia continua viva quando o povo consegue transformar sofrimento coletivo em mobilização social.

E talvez a maior lição seja esta: quando as pessoas historicamente excluídas chegam aos espaços de poder, elas não lutam apenas por si mesmas. Elas ampliam direitos para toda a sociedade.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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sociedade Escala 6x1 democracia direitos trabalhistas escala 5x2 Fim da escala 6x1

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