Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
Redes sociais
3/6/2026 11:00
Há uma pergunta que a ciência respondeu há alguns anos, mas que continua nos perturbando nos dias de hoje: por que a mentira se espalha mais rápido que a verdade? Em 2018, pesquisadores do MIT publicaram na revista Science um estudo que analisou cerca de 126 mil notícias compartilhadas no Twitter entre 2006 e 2017. O levantamento envolveu aproximadamente 3 milhões de usuários e mais de 4,5 milhões de compartilhamentos e a conclusão foi que informações falsas têm 70% mais chances de serem retransmitidas do que informações verdadeiras. E não foram os robôs os principais responsáveis por esse fenômeno, foram pessoas.
Bem-vindo à economia da indignação, um mercado onde a principal mercadoria é a emoção e o produto mais lucrativo é a raiva.
Muito antes da existência das redes sociais, Friedrich Nietzsche identificou um mecanismo psicológico que ajuda a compreender esse cenário. Ao analisar o ressentimento, o filósofo descreveu um tipo de indivíduo incapaz de agir sobre a realidade e que transforma essa impotência em sistema de valores. Em vez de criar, reage. Em vez de construir, combate. Sua identidade nasce da oposição ao outro. Nietzsche só não poderia imaginar que o capitalismo do século XXI transformaria esse mecanismo numa indústria bilionária.
As plataformas digitais descobriram cedo que emoções negativas geram mais atenção. E atenção, no modelo econômico da internet, significa receita. O algoritmo não possui ideologia, possui métricas, e seu objetivo não é promover a verdade, mas maximizar permanência, cliques e compartilhamentos. Como observou Deb Roy, ex-cientista-chefe do Twitter e um dos autores do estudo do MIT, a polarização revelou-se um excelente modelo de negócios.
Para entender por que esse modelo funciona tão bem, é preciso olhar para a biologia humana. Nosso cérebro carrega um mecanismo conhecido como viés de negatividade. Ao longo da evolução, prestar atenção às ameaças foi uma vantagem adaptativa. Ignorar uma boa notícia dificilmente colocava alguém em risco, mas ignorar um predador podia ser fatal. Por isso, desenvolvemos uma tendência natural de atribuir mais peso ao negativo do que ao positivo.
O psicólogo Roy Baumeister dedicou décadas a estudar esse fenômeno. Em The Power of Bad, escrito com o jornalista John Tierney, ele demonstra que experiências negativas exercem impacto psicológico maior do que experiências positivas equivalentes; perdas financeiras causam mais sofrimento do que ganhos semelhantes produzem satisfação; críticas permanecem mais tempo na memória do que elogios; notícias ruins capturam mais atenção do que boas notícias. O que foi uma vantagem para a sobrevivência tornou-se uma vulnerabilidade em um ambiente informacional projetado para explorar exatamente essa predisposição.
A consequência é uma percepção distorcida da realidade. Quando somos expostos continuamente a conteúdos alarmistas, passamos a acreditar que o mundo está pior do que realmente está e ficamos mais suscetíveis ao medo, à ansiedade e à manipulação. Existe ainda outro elemento importante: pensar exige esforço. Analisar informações, verificar fontes e lidar com incertezas consome energia cognitiva. A indignação, por outro lado, é rápida e intuitiva.
Uma manchete que confirma nossas crenças desperta uma reação quase automática e antes mesmo de refletirmos sobre a veracidade do conteúdo, já sentimos a necessidade de comentar, compartilhar ou atacar quem pensa diferente. Não por acaso, o estudo do MIT identificou que as notícias falsas sobre política são as que se espalham com maior velocidade - mais do que conteúdos sobre terrorismo, ciência ou desastres naturais. Pois a política ocupa um território onde identidade, pertencimento e emoção se misturam e é nesse ambiente que o ressentimento encontra sua forma mais organizada e, muitas vezes, mais agressiva.
O problema não é apenas filosófico. É social, econômico e institucional. Campanhas de saúde pública podem ser comprometidas por boatos que circulam mais rápido do que os desmentidos, decisões eleitorais são influenciadas por percepções distorcidas dos fatos. E, além disso, grupos vulneráveis frequentemente se tornam os principais alvos desse mecanismo. Conteúdos que envolvem minorias, mulheres ou populações em situação de risco costumam gerar reações emocionais intensas. Quanto maior a carga emocional, maior o alcance. E quanto maior o alcance, mais a hostilidade se normaliza.
A boa notícia é que esse processo não é inevitável. Baumeister sustenta que reconhecer a existência do viés de negatividade é o primeiro passo para neutralizá-lo. Quando entendemos que nosso cérebro tende a superestimar ameaças e valorizar excessivamente o negativo, podemos desenvolver hábitos mais críticos diante das informações que consumimos. Pesquisadores da Universidade de Cambridge chegaram a conclusões semelhantes ao estudar estratégias de "inoculação informacional". Em experimentos com o jogo Bad News, participantes que aprenderam a produzir técnicas de desinformação tornaram-se significativamente mais capazes de identificá-las posteriormente. A lógica é semelhante à de uma vacina: uma exposição controlada fortalece a resistência futura.
No plano estrutural, especialistas defendem medidas mais amplas, como sistemas de verificação mais visíveis, desincentivos financeiros para quem lucra com desinformação e mudanças nos algoritmos que hoje recompensam apenas o engajamento bruto. Nenhuma dessas soluções é simples. Todas envolvem dilemas políticos, econômicos e regulatórios, mas os dados sugerem que a alternativa de confiar cegamente na autorregulação das plataformas não tem produzido os resultados esperados.
No fundo, o problema que Nietzsche identificou no ressentimento individual é o mesmo que os algoritmos industrializaram em escala global: a substituição do pensamento pela reação, da análise pela emoção, da verdade pelo conforto de ter razão. A diferença é que hoje há muito dinheiro envolvido e a indignação, diferente do que promete, raramente resolve qualquer coisa - apenas garante que amanhã haverá mais indignação para vender.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
Temas