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Igualdade

Não está tudo bem com as bancas de heteroidentificação

Exclusões em bancas de heteroidentificação reacendem o debate sobre identidade racial, cotas e racismo institucional.

Gustavo Amora

Gustavo Amora

4/6/2026 14:00

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A Redenção de Cam. 1895. Óleo sobre tela, 199 × 166 cm. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), Rio de Janeiro.

A Redenção de Cam. 1895. Óleo sobre tela, 199 × 166 cm. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), Rio de Janeiro.Modesto Brocos

Ao caminhar pelas ruas de países de maioria indígena, como Bolívia e Peru, é impossível não se perguntar: o que ocorreu para que os povos indígenas, sendo maioria esmagadora, não estejam no poder nestes lugares? Mas basta conversar com a elite local, aparentemente indígena, para perceber que muitos deles surpreendentemente se consideram brancos. Esse paradoxo é um reflexo direto das dinâmicas coloniais, em que as hierarquizações raciais vão ganhando contornos às vezes controversos e pouco lógicos, mas que contribuem para a dominação colonial, a partir de mecanismos de pertencimento simbólico ao grupo hegemônico, em troca de lealdade às elites.

Esta é a realidade da América Latina, onde pessoas de ascendência indígena, e negros de pele clara, tornam-se "algodões entre cristais": amortecem tensões raciais enquanto sustentam a supremacia branca. E o Brasil não é tão diferente. Um país marcado pela escravidão, e que já teve 60% de sua população composta por povos escravizados, ainda carrega em sua estrutura social as marcas dessa lógica. Quantas personalidades com aparência afro-indígena ocupam ou ocuparam espaços de poder enquanto despolitizam ou silenciam sua origem racial? Essa dinâmica reflete o processo histórico de invisibilização e negação da racialidade em troca de aceitação social.

No Brasil, o branqueamento, sustentado pela ideologia da "redenção de Cam", foi uma política deliberada. Ascender socialmente em muitos momentos significava "clarear" na percepção social e nos registros oficiais. A negritude era algo de que se deveria escapar. As pessoas buscavam parceiros brancos para que seus filhos tivessem a chance de nascer mais claros, e quem sabe um dia serem considerados brancos. Hoje, essa lógica dá sinais de inversão: políticas de cotas provocaram um movimento contrário, no qual pessoas antes invisibilizadas como negras passam a reivindicar sua negritude. Essa transformação é uma mudança estrutural, são placas tectônicas que se movem nas estruturas coloniais que sustentam esse país.

No entanto, o avanço não é linear. Exames como Concurso Público Nacional Unificado (CPNU) e o recente caso da Flávia Medeiros, Oficial de Chancelaria negra, exonerada do seu cargo por conta de uma banca de heteroidentificação, evidenciam como essa luta enfrenta retrocessos. Essas bancas vêm reiteradamente, e a partir de orientações dos próprios órgãos, excluindo milhares de candidatos negros não retintos do sistema de cotas, sem justificativa ou argumentos. Algo especialmente perverso porque desrespeita a Lei de Cotas e o Estatuto da Igualdade Racial, que reconhecem a pluralidade da negritude brasileira – incluindo pretos e pardos.

Estas decisões arbitrárias e ilegais afetam não apenas a trajetória profissional, como também a subjetividade de um número considerável de negros e negras de pele clara. Se a sociedade não os considera como brancos e o Estado lhes nega sua negritude, o que lhes resta? Neste sentido, políticas de reparação e inclusão acabam se transformando em mais uma experiência de racismo institucional promovida pelo Estado brasileiro.

Formulário de heteroidentificação entregue aos membros da banca da Fundação Carlos Chagas no concurso do TRT 15.

Formulário de heteroidentificação entregue aos membros da banca da Fundação Carlos Chagas no concurso do TRT 15.Arquivo pessoal

As bancas de identificação ultrapassaram sua função de combater fraudes e estão começando a tentar produzir, de maneira completamente arbitrária, uma ontologia oficial de raça. E isto é uma desvirtuação completa do seu propósito.

Para entender o impacto dessa exclusão, basta olhar os dados do IBGE. No Brasil, a população que se autodeclara preta não ultrapassa 20% em nenhum estado, com exceção da Bahia (22%). Ou seja, para onde foram aqueles 3/5 de população escravizada, e os povos originários, sobreviventes do genocídio?

Ao observar a população que o IBGE classifica como parda, a matemática se resolve. Os pardos são maioria em várias regiões, representando 45% da população brasileira. As políticas de ações afirmativas foram desenhadas com lastro nessa realidade demográfica. No entanto, ao restringir o acesso apenas aos negros retintos, o governo ignora essa realidade, marginalizando a maioria afro-indígena que representa a maior parte do Brasil.

Mais do que uma questão legal, trata-se de uma afronta à construção identitária do país. A ideia aqui não é defender uma suposta parditude brasileira como identidade política autônoma, e despolitizada, mas explicar que ela é apenas uma tecnologia censitária do IBGE destinada a colocar as pessoas em caixas, e não um termo que represente a complexidade da identidade racial brasileira. Ao movimento negro, coube apenas utilizar esse termo para justificar a urgência e a importância das ações afirmativas. Pardo é uma pista demográfica para identificar esse Brasil afro-indígena cinco séculos após a colonização.

A lei de cotas é explícita neste aspecto, as cotas são para pessoas negras: pretos e pardos. Aqui fica implícito que a autodeclaração de quem se inscreve pelas cotas precede a percepção de: eu sou negro/a. E essa tem sido a tônica de diversas decisões judiciais favoráveis aos cotistas, que apontam para a importância de se respeitar a autodeclaração destas pessoas que se encontram em zonas de dúvida. E a conclusão natural é que somos múltiplos, e essas múltiplas existências afro-indígenas do Brasil, com suas diferentes experiências de racismo e de exclusão, são os destinatários destas políticas.

Como bem pontua Sueli Carneiro: "Uma das características do racismo é aprisionar o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva aos racialmente hegemônicos o privilégio da diversidade." Ao excluir os negros de pele clara, o governo não apenas viola a lei, mas também reforça estereótipos raciais.

Esta exclusão é um sintoma de um problema maior: a resistência em aceitar o Brasil como uma nação afro-indígena, diversa e plural. Nossa história nos define como negros e indígenas, e não somos um estereótipo – somos diversidade. E é essa diversidade que quer acessar os espaços de poder do Estado brasileiro. O Estado brasileiro não pode combater o racismo reproduzindo tipologias coloniais.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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