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Movimento LGBTI+

A rua convoca, a história confirma

Reflexões sobre a 30ª Parada LGBTI+ de São Paulo.

Toni Reis

Toni Reis

10/6/2026 18:00

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Há momentos em que a história deixa de ser apenas uma sequência de acontecimentos e passa a ser uma experiência coletiva. A semana da 30ª Parada LGBTI+ de São Paulo foi um desses momentos.

Mais do que uma celebração, vivemos dias de reflexão, produção de conhecimento, construção de cidadania, fortalecimento da democracia e renovação da esperança. A cidade de São Paulo transformou-se em um grande espaço de encontro entre passado, presente e futuro.

Participamos ativamente dos inúmeros eventos que antecederam a Parada. Estivemos em lançamentos de livros, debates políticos, seminários, encontros nacionais, atividades culturais e discussões sobre políticas públicas. Foi uma verdadeira demonstração da riqueza intelectual, cultural e política da comunidade LGBTI+ brasileira.

Um dos momentos mais significativos foi o lançamento de parte da Enciclopédia LGBTI+, uma coleção composta por 28 volumes que registra a história, as lutas, os desafios e as contribuições da população LGBTI+ para a construção da sociedade brasileira. Em tempos de desinformação, preservar a memória é um ato de resistência e um compromisso com as futuras gerações.

Também participamos de debates sobre a população LGBTI+ em situação de rua, sobre direitos humanos, cidadania, políticas públicas e estratégias de enfrentamento às diversas formas de discriminação. Tivemos encontros específicos de pessoas trans, lésbicas, gays e demais segmentos da comunidade, reafirmando que a diversidade é a nossa maior força.

Foi igualmente emocionante participar do lançamento do livro do professor doutor Luiz Mott sobre Xica Manicongo, considerada a primeira pessoa trans registrada na história do Brasil. Sua trajetória remonta ao século XVI e nos recorda que pessoas trans sempre fizeram parte da história brasileira. O que muda ao longo do tempo não é sua existência, mas o reconhecimento de sua dignidade e de seus direitos.

Participamos também do Encontro Nacional das Paradas do Orgulho LGBTI+, reunindo representantes de todas as regiões do país. Foi um momento especial de troca de experiências e de reflexão sobre a trajetória do movimento.

Durante esse encontro, tive a oportunidade de realizar uma análise dos lemas que marcaram as últimas três décadas das Paradas do Orgulho LGBTI+ no Brasil.

Ao revisitar essa história, ficou evidente que nenhum lema surgiu por acaso. Cada um deles expressava uma necessidade concreta do seu tempo. Cada tema representava uma reivindicação legítima e uma proposta de transformação social.

Quando reivindicávamos respeito às nossas famílias, conquistamos o reconhecimento da união estável e posteriormente o casamento civil igualitário. Quando exigíamos políticas de prevenção ao HIV e respeito às pessoas vivendo com HIV e AIDS, ajudamos a construir uma sociedade mais consciente e contribuímos para o fortalecimento das garantias contra a discriminação. Quando levantamos a bandeira do combate à LGBTfobia, colaboramos para uma conquista histórica: o reconhecimento de que a LGBTfobia deve ser enquadrada nos termos da legislação que combate o racismo.

Os lemas das Paradas não foram apenas palavras estampadas em cartazes. Foram instrumentos de mobilização social. Foram ferramentas de educação cidadã. Foram sementes lançadas ao longo de décadas e que ajudaram a transformar a consciência da sociedade brasileira.

No final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a aceitação social das pessoas LGBTI+ era extremamente reduzida. Hoje, embora ainda existam desafios, observamos avanços significativos na percepção social sobre a diversidade humana.

Nada disso aconteceu por acaso.

Foi resultado da coragem de milhares de ativistas, organizações e pessoas comuns que decidiram não se esconder. Foi resultado da ocupação democrática das ruas, das universidades, dos parlamentos, dos sindicatos, das empresas, das igrejas e dos espaços públicos.

Recebemos também observadores internacionais da Espanha, Inglaterra, Irlanda, Escócia, Itália e de outros países, demonstrando que a experiência brasileira continua sendo acompanhada com interesse pelo mundo inteiro.

Outro momento especial foi o jantar comemorativo dos 30 anos da Parada, reunindo lideranças históricas, ativistas, parceiros institucionais e pessoas que ajudaram a construir essa trajetória coletiva.

No domingo, iniciamos o dia em um café da manhã com importantes empresas brasileiras. O tema do encontro foi a educação para a diversidade. Foi uma oportunidade de reafirmar que a inclusão é uma responsabilidade compartilhada entre sociedade civil, iniciativa privada e poder público.

Ao longo do dia, participamos de diferentes atividades e espaços de convivência. No trio principal da Parada, tive a honra de fazer uma fala em defesa dos direitos humanos, do respeito às famílias, da valorização das diferentes expressões religiosas, culturais e sociais presentes em nosso país.

Também fiz um apelo em defesa da redução da escala de trabalho 6x1, entendendo que a dignidade das pessoas trabalhadoras é parte inseparável da luta por uma sociedade mais justa.

O lema da 30ª Parada — "A Rua Convoca, a Urna Confirma" — expressou com precisão o espírito do momento histórico que vivemos.

As ruas são espaços de mobilização, conscientização e resistência.

As urnas são espaços de decisão.

Uma fortalece a outra.

A democracia precisa das duas.

Três décadas de Parada mostram que direitos não surgem por acaso, mas da mobilização coletiva capaz de transformar reivindicações em conquistas democráticas.

Três décadas de Parada mostram que direitos não surgem por acaso, mas da mobilização coletiva capaz de transformar reivindicações em conquistas democráticas.Bruno Santos/Folhapress

Para mim, que estou há 43 anos no movimento LGBTI+, esse momento teve um significado ainda mais profundo. Ao lado do meu esposo, com quem compartilho décadas de amor, militância e construção coletiva, recordei tempos em que saíamos vestidos de smoking, como dois noivos, chamando a atenção da sociedade para uma reivindicação que parecia impossível: o direito ao reconhecimento das nossas famílias.

Muitos diziam que jamais conquistaríamos esse direito.

Mas a história demonstrou que direitos não surgem por concessão espontânea. Eles nascem da coragem de quem persiste.

Durante a Parada, um jornalista perguntou quantas pessoas eu acreditava que estavam presentes.

Respondi com a sinceridade de quem observava a Avenida Paulista tomada por milhares de pessoas:

"Havia um mar de gente. Havia um oceano de gente."

Posteriormente vieram os números das pesquisas realizadas por instituições especializadas. São dados importantes. A ciência é importante. Métodos científicos ajudam a compreender a realidade e qualificar o debate público.

Mas existem dimensões da experiência humana que não cabem em estatísticas.

Nenhuma pesquisa consegue medir a esperança.

Nenhum cálculo consegue quantificar a coragem.

Nenhum algoritmo consegue traduzir a emoção de quem finalmente encontra um espaço para existir com dignidade.

Ao observar as imagens da Parada circulando pelos jornais, pelas redes sociais e pelos meios de comunicação de todo o mundo, vi muito mais do que uma multidão.

Vi uma comunidade.

Vi uma história.

Vi gerações caminhando juntas.

Vi o passado dialogando com o futuro.

Vi a democracia ocupando as ruas.

Como cristão, recordo frequentemente uma das mais belas mensagens atribuídas a Jesus: onde duas ou mais pessoas estiverem reunidas em torno de um propósito comum, ali haverá presença, sentido e esperança.

Parafraseando esse ensinamento, acredito que onde houver pessoas reunidas para defender a dignidade humana, a cidadania, a justiça social e os direitos humanos, ali estará presente aquilo que existe de melhor na experiência humana.

A trajetória das Paradas nos ensina uma lição fundamental: nenhuma conquista é definitiva.

A democracia exige vigilância.

Os direitos humanos exigem compromisso permanente.

Por isso, não podemos parar.

Precisamos continuar lutando com coragem, criatividade e ousadia.

Precisamos continuar dialogando com todos os setores da sociedade, inclusive com aqueles que pensam de forma diferente de nós.

Nem sempre esse diálogo é fácil. Muitas vezes somos alvo de preconceitos, ataques, desinformação e incompreensões. Ainda assim, a construção democrática exige firmeza nos princípios e respeito pelas pessoas.

A luta por direitos não é uma luta contra pessoas.

É uma luta por humanidade.

Ao final desses dias intensos, saio da 30ª Parada LGBTI+ com a mesma convicção que me acompanha há mais de quatro décadas de ativismo: vale a pena continuar.

Vale a pena defender a democracia.

Vale a pena defender a Constituição Federal.

Vale a pena defender os princípios inscritos especialmente nos artigos 3º e 5º, que afirmam a igualdade, a dignidade humana e a promoção do bem de todas as pessoas, sem preconceitos ou discriminações.

A rua convocou.

A história registrou.

Agora cabe a cada geração escrever os próximos capítulos.

Nos encontraremos na 31ª Parada em São Paulo.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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