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Cultura
12/6/2026 13:00
Eis uma palavra que até então desconhecia: bibliocídio. Apesar de não constar nos dicionários, o termo nos remete ao ato de "assassinar" livros ou mesmo bibliotecas. Pense na destruição da Biblioteca de Alexandria ou nas fogueiras de livros promovidas pelos nazistas, por exemplo. Trata-se de um crime contra o conhecimento, a memória e a cultura. É um tipo de violência cujas consequências são, muitas vezes, irreversíveis; sua marca essencialmente negativa é aquela do apagamento histórico.
Conheci o termo por meio do trabalho de Bruno Borges, colega professor da Secretaria de Educação do Distrito Federal. Estudioso do tema, ele foi ao mesmo tempo testemunha e personagem de um desses episódios de bibliocídio. O fato ocorreu no nem tão distante ano da graça de 2007 na tão familiar BCE, a Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB). Entre as vítimas, estava a mítica biblioteca de Eudoro de Sousa.
Para quem não está familiarizado com o nome do helenista português, aqui vai uma breve apresentação: nascido na Lisboa de 1911, Eudoro de Sousa lapidou sua sólida formação intelectual em passagens pela França e pela Alemanha, onde chegou a frequentar os seminários de Martin Heidegger. Em busca de melhores perspectivas profissionais, mudou-se para o Brasil em 1953, tendo residido inicialmente em São Paulo e, posteriormente, em Florianópolis.
Eudoro integrou o grupo de professores convidados para fundarem a UnB e idealizou o Centro de Estudos Clássicos (CEC) da instituição, que se tornou na década de 1960 uma referência em pesquisas sobre a Antiguidade na América Latina. O Centro, no entanto, foi uma das inúmeras vítimas da brutalidade e da estupidez reinantes durante a intervenção dos militares na vida institucional da universidade, sendo extinto em 1969.
Referência nos estudos clássicos
A vida e o pensamento do helenista português foram objeto recente da tese de doutorado "Eudoro de Sousa: um classicista entre dois mundos ", defendida por Mariana Belchior, em 2024, no Programa de Pós-Graduação em Metafísica da UnB. Segundo ela, o fundador do CEC representou uma ponte indispensável entre a tradição clássica europeia (Portugal, França e Alemanha) e o desenvolvimento acadêmico brasileiro. Assim, pesquisar sobre Eudoro seria uma forma de valorizar e atualizar uma herança intelectual que marcou — e ainda marca — a filosofia e os estudos clássicos no Brasil. "Eudoro nos oferece uma lente crítica para navegar as tensões entre a tradição ocidental e o pluralismo global, incentivando uma filosofia que dialogue com o presente", destaca Mariana.
Um dos grandes diferenciais do CEC era justamente a sua biblioteca, composta inicialmente pelo acervo pessoal de Eudoro e que foi sendo complementada ao longo dos anos por uma generosa política de aquisições definida por ele. Em tempos pré-internet, a coleção de obras de referência, enciclopédias, dicionários, revistas científicas e outros materiais reunida por Eudoro garantia as condições materiais necessárias para a formação de especialistas em Estudos Clássicos e a realização de pesquisas acadêmicas de nível internacional.
Com o fim do CEC, Eudoro levou a parte mais preciosa de sua coleção para o seu apartamento na Colina — da qual foi o primeiro morador. Após a sua morte, em 1987, o acervo foi comprado pela UnB, pelo valor aproximado de 40 mil dólares da época (se reajustado, seria o equivalente hoje a US$ 114 mil, ou aproximadamente R$ 580 mil). Parte dos livros foi incorporada ao acervo da BCE, mas outra foi parar num depósito no subsolo da biblioteca, onde permaneceu encostado e esquecido por quase duas décadas, ao lado de outras coleções de nomes importantes, como a do político Carlos Lacerda, do crítico literário Agrippino Grieco e do escritor Pedro Nava.
Vítimas do descaso
Mas o pior ainda estaria por vir. Em 2007, veio uma determinação para a limpeza do depósito. Na época, Bruno Borges trabalhava na BCE e testemunhou o que aconteceu. Toneladas de materiais foram separados — seguindo pouco ou nenhum critério — para serem descartados. Como se fosse um "Schindler tupiniquim", ele tentou por conta própria evitar o aniquilamento de parte dos condenados à extinção, resgatando mais de mil livros do holocausto.
O uso do termo holocausto, aqui, não é um exagero retórico, de acordo com Bruno. "O que ocorreu na BCE foi o maior bibliocídio documentado da história do Ensino Superior na América Latina. É algo que, em suas proporções, só se costuma observar em épocas de guerra ou durante ditaduras. Esse episódio traumático da história da UnB nos ajuda a questionar: nesses tempos de Inteligência Artificial e de ebooks, qual é o papel de uma biblioteca? Qual é o papel da conservação e da restauração? E qual é o estatuto do livro e do manuscrito?", interroga o pesquisador.
O que se perdeu em 2007 não pode ser contabilizado apenas em termos monetários: uma biblioteca particular é um dos mais reveladores testemunhos de uma trajetória intelectual. Os detalhes de um acervo como o período de aquisição de determinada obra, as marcas de leitura, as anotações feitas à margem, são indícios preciosos para os pesquisadores. E pode haver mais: em alguns exemplares da biblioteca do CEC, por exemplo, Bruno encontrou diversos manuscritos de Eudoro contendo transcrições, traduções, anotações para aulas etc.
Atualmente, o pesquisador trabalha em sua tese de doutorado — também no Programa de Pós-Graduação em Metafísica da UnB — no qual lança mão desses e de outros materiais para resgatar o passado político de Eudoro, sua relação com o ideário nazista e a influência deste em sua obra. Ao chegar ao Brasil, o criador do CEC encontrou guarita e companheirismo entre os seus pares católicos e integralistas ligados ao Instituto Brasileiro de Filosofia (IBF). Pois é, muito antes de Olavo de Carvalho, a filosofia brasileira já flertava com o pensamento autoritário de direita. Mas isso é papo para outra coluna...
Em tempo: a Coordenadora de Formação e Desenvolvimento de Acervos da BCE, Neilia Barros Ferreira de Almeida, esclarece que, na época em que foi adquirido o acervo de Eudoro de Sousa, o sistema de automação utilizado pela biblioteca não dispunha de um campo específico para registrar o nome do doador — ou seja, não é possível saber quantos daqueles livros foram incorporados ao acervo geral da instituição. Parte dele, no entanto, atualmente integra a Coleção de Estudos Clássicos da BCE, que reúne cerca de 10 mil itens. Sobre o episódio do descarte de livros ocorrido em 2007, ela limitou-se a responder que o quadro atual de servidores "não detém conhecimento direto sobre os acontecimentos da época."
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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