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Economia
24/6/2026 15:00
O Brasil regulamentou as apostas esportivas, mas ainda não enfrentou de forma adequada uma questão cada vez mais evidente: os impactos sociais produzidos pela expansão desse mercado.
Dados apresentados pelo Banco Central indicam que os brasileiros chegaram a movimentar entre R$ 20 bilhões e R$ 30 bilhões por mês em plataformas de apostas online, valor superior ao orçamento anual de muitos Estados brasileiros. Trata-se de um volume expressivo de recursos que sai diretamente do orçamento das famílias e deixa de ser destinado à alimentação, educação, saúde, moradia, lazer e formação de patrimônio.
Não estamos falando apenas de números. Estamos falando da renda de milhões de brasileiros.
Representando mais de 12 milhões de trabalhadores dos setores do comércio e serviços, a Confederação Nacional dos Trabalhadores no Comércio (CNTC) acompanha com preocupação crescente relatos de famílias que veem parte significativa de sua renda ser comprometida por apostas realizadas diariamente em celulares e plataformas digitais.
A promessa de ganhos rápidos, amplamente divulgada em campanhas publicitárias e redes sociais, tem levado muitos brasileiros a enxergar as apostas não como entretenimento, mas como alternativa para complementar a renda ou superar dificuldades financeiras. O resultado, muitas vezes, é exatamente o contrário.
Crescem os relatos de endividamento, conflitos familiares, perda de patrimônio e sofrimento emocional associados ao uso excessivo dessas plataformas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o transtorno do jogo compulsivo como um problema de saúde mental. Ansiedade, depressão, isolamento social, perda do controle financeiro e aumento do risco de suicídio estão entre os efeitos associados à dependência em jogos.
Recentemente, uma reportagem revelou o caso de um jovem de 28 anos, em São Paulo, que tirou a própria vida após acumular dívidas relacionadas às apostas online, deixando esposa e três filhos. Embora seja um caso extremo, ele simboliza uma realidade que já preocupa profissionais de saúde, especialistas em comportamento e entidades de defesa do consumidor.
O problema não afeta apenas quem aposta.
Quando um trabalhador compromete sua renda com jogos de azar, toda a família sofre as consequências. São contas que deixam de ser pagas, dívidas que se acumulam, conflitos que se intensificam e projetos de vida que são interrompidos. Em muitos casos, mulheres, mães e companheiras acabam assumindo sozinhas o esforço para reorganizar a vida financeira do lar.
A preocupação torna-se ainda maior quando observamos a forma como as apostas são promovidas.
Influenciadores digitais, atletas, artistas e celebridades divulgam diariamente plataformas de apostas para milhões de seguidores. Em transmissões esportivas, a publicidade está presente antes, durante e depois dos jogos. Jovens e adolescentes convivem diariamente com mensagens que associam apostas a sucesso, prosperidade e ascensão financeira.
Não se trata de defender a proibição da atividade.
As apostas esportivas são uma atividade legal e regulamentada. O debate necessário é sobre responsabilidade social e proteção dos consumidores.
Diversos países já perceberam essa necessidade. França, Espanha, Reino Unido e Itália adotaram restrições à publicidade, limitaram o uso de influenciadores digitais e fortaleceram mecanismos de proteção aos apostadores. O objetivo não foi proibir a atividade, mas reduzir seus impactos negativos sobre a sociedade.
O Brasil precisa avançar nessa discussão.
É necessário estabelecer limites mais rigorosos para a publicidade das apostas, especialmente em horários de grande audiência. Também é fundamental ampliar campanhas de conscientização sobre os riscos do jogo compulsivo, fortalecer mecanismos de prevenção e produzir estudos permanentes sobre os impactos econômicos e sociais dessa atividade.
O Congresso Nacional tem papel central nesse debate.
Assim como o país discutiu no passado os impactos do tabaco, do álcool e do superendividamento, chegou o momento de avaliar com responsabilidade os efeitos das apostas esportivas sobre trabalhadores, jovens e famílias brasileiras.
O crescimento das bets não pode ocorrer à custa da saúde mental da população e da estabilidade financeira dos lares brasileiros.
A liberdade econômica é um valor importante, mas ela deve caminhar ao lado da responsabilidade social e da proteção das pessoas mais vulneráveis.
A pergunta que o Brasil precisa responder é simples: queremos que a tecnologia seja instrumento de desenvolvimento e oportunidade ou que ela transforme o salário do trabalhador em uma aposta diária?
Quando o salário do trabalhador vira aposta, a sociedade inteira acaba pagando a conta.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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