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Religião

A Bíblia não manda mulheres se calarem, pelo contrário, ela registra quando elas mudam a lei

A história das filhas de Zelofeade mostra que reivindicar justiça não afronta a fé. Ao contrário, pode transformar leis e corrigir desigualdades.

Carol Cassiano

Carol Cassiano

9/7/2026 17:39

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Existe uma narrativa que atravessa séculos e ainda hoje é usada para justificar o silêncio feminino: a de que a vontade de Deus é que mulheres sejam discretas, obedientes, submissas e nunca confrontem estruturas de poder. O problema é que essa interpretação encontra mais apoio na cultura do que na própria Bíblia.

Um dos episódios mais emblemáticos do Antigo Testamento mostra o contrário. No capítulo 27 do livro de Números, as cinco filhas de Zelofeade (Maalá, Noá, Hogla, Milca e Tirza) se apresentaram diante de Moisés, e dos líderes da época, para reivindicar sua herança e a continuidade do nome da família, isso porque seu pai havia morrido sem deixar filhos homens, e pela legislação vigente isso significava que sua família perderia todo e qualquer direito a terra, aos bens e até ao sobrenome. A resposta é uma das passagens mais surpreendentes das escrituras. Moisés levou o caso diante de Deus e Ele respondeu de forma inequívoca: "As filhas de Zelofeade têm razão."

A partir daquele momento ficou estabelecido que, na ausência de filhos homens, a herança deveria ser transmitida às filhas. O texto bíblico registra uma mudança jurídica provocada pela coragem de cinco mulheres que decidiram não aceitar uma norma que produzia injustiça.

É difícil conciliar esse episódio com a ideia de que a Bíblia ensina mulheres a permanecerem caladas diante de desigualdades. Na verdade, ela mostra exatamente o oposto disso: mulheres podem levantar a voz quando estruturas deixam de refletir a justiça. Mas esse detalhe costuma desaparecer quando alguns discursos religiosos selecionam apenas textos que parecem reforçar papéis rígidos de gênero, especialmente trechos das cartas de Paulo sobre submissão da mulher ao marido.

Curiosamente, essa orientação aparece nas cartas do apóstolo, mas não nos evangelhos de Jesus. Este jamais ensinou que mulheres deveriam ocupar uma posição de inferioridade, ele conversou publicamente com mulheres quando isso era socialmente inadequado, recebeu ensinamentos delas em diálogos públicos e escolheu mulheres como primeiras testemunhas da ressurreição - vale ressaltar que justamente em uma sociedade onde o testemunho feminino sequer tinha valor jurídico.

O episódio das filhas de Zelofeade desafia interpretações que usam a Bíblia para justificar a submissão feminina e mostra que justiça e fé caminham juntas.

O episódio das filhas de Zelofeade desafia interpretações que usam a Bíblia para justificar a submissão feminina e mostra que justiça e fé caminham juntas.Magnific

As cartas de Paulo também merecem uma leitura cuidadosa. Escritas para comunidades específicas, em contextos culturais muito diferentes dos atuais, tratavam de problemas concretos da Igreja nascente. O próprio texto original em grego indica que a submissão apresentada em Efésios está inserida em uma orientação anterior: a de que os cristãos deveriam se submeter uns aos outros no temor de Cristo. A relação entre marido e mulher aparece como uma aplicação dessa lógica, e não como autorização para hierarquias absolutas. Ler esses textos sem considerar seu contexto histórico produz distorções que acabam sendo apresentadas como mandamentos divinos. E essas distorções têm consequências.

Ainda hoje, inúmeras mulheres permanecem em relacionamentos abusivos porque acreditam que denunciar seria um ato de desobediência a Deus. Outras suportam violência física, psicológica e patrimonial por ouvirem que a verdadeira fé exige silêncio, resignação ou submissão incondicional. Mas a Bíblia oferece outra referência.

As filhas de Zelofeade não foram elogiadas por permanecerem em silêncio, elas foram reconhecidas porque falaram, buscaram justiça, confiaram que Deus não precisava da manutenção de uma injustiça para preservar Sua autoridade. E a coragem delas não enfraqueceu a fé daquela nação, mas fortaleceu a justiça para o povo. Talvez seja esse o maior ensinamento dessa história.

Se a própria Bíblia registra mulheres que mudaram a lei porque Deus reconheceu que elas tinham razão, é hora de admitir que usar a Bíblia para impedir mulheres de reivindicarem seus direitos não é defender as escrituras. É distorcê-las.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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