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Soberania

Soberania não é isolamento: o Brasil diante das pressões externas e da eleição de 2026

Ao levar ao Washington Post a defesa do Pix, da jurisdição brasileira e da reciprocidade comercial, Lula introduz uma questão que provavelmente atravessará a eleição: até onde vai a legítima disputa política interna quando interesses estrangeiros passam a interferir no cálculo nacional?

Eduardo Vasconcelos

Eduardo Vasconcelos

28/7/2026 16:00

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Há momentos em que um artigo publicado em um jornal estrangeiro diz mais sobre a política doméstica do que sobre as relações internacionais. O texto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no The Washington Post, em 26 de julho, parece pertencer a essa categoria.

Formalmente, trata-se de uma resposta às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a determinados produtos brasileiros. Politicamente, entretanto, o texto alcança uma discussão muito maior: quem deve determinar os rumos econômicos, tecnológicos, institucionais e eleitorais do Brasil?

A pergunta pode parecer elementar. Em uma democracia soberana, a resposta deveria ser igualmente elementar: os brasileiros, por meio de suas instituições, de suas leis e de suas escolhas eleitorais.

Mas a conjuntura de 2026 tornou essa afirmação menos trivial do que deveria ser.

Divergências comerciais e institucionais devem ser resolvidas pela democracia brasileira, sem que interesses estrangeiros definam os rumos do país.

Divergências comerciais e institucionais devem ser resolvidas pela democracia brasileira, sem que interesses estrangeiros definam os rumos do país.Magnific

Ao justificar sua política comercial em relação ao Brasil, o governo norte-americano incorporou ao debate questões que ultrapassam tarifas alfandegárias. A investigação conduzida pelo United States Trade Representative (USTR) incluiu comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, política ambiental e decisões relacionadas às plataformas digitais. Em junho de 2026, o órgão declarou algumas práticas brasileiras passíveis de ação sob a Seção 301 da legislação comercial norte-americana; em julho, anunciou tarifa adicional de 25% sobre uma parcela dos produtos brasileiros.

O problema, portanto, deixou de ser exclusivamente comercial.

Quando sistemas de pagamento, decisões judiciais, regras aplicadas às plataformas digitais e escolhas institucionais internas passam a integrar mecanismos de pressão econômica de outro país, comércio exterior e soberania começam inevitavelmente a ocupar o mesmo território político.

E é precisamente aí que o artigo de Lula precisa ser compreendido.

Quando a tarifa deixa de ser apenas uma tarifa

Há uma antiga tentação de tratar tarifas como instrumentos capazes de produzir vencedores de um lado da fronteira e perdedores do outro.

A economia real raramente é tão simples.

As cadeias produtivas contemporâneas atravessam países. Uma mercadoria importada pode ser matéria-prima de outra indústria, componente de um equipamento, insumo agrícola ou peça utilizada por uma empresa situada justamente no país que criou a barreira.

Por isso, tarifas não atingem apenas exportadores. Podem elevar custos de produção, alterar fornecedores, reduzir margens empresariais e chegar ao consumidor.

No artigo publicado nos Estados Unidos, Lula procura explorar exatamente essa contradição. Afirma que setores industriais norte-americanos dependem de insumos brasileiros e argumenta que produtos como alimentos, calçados, têxteis, móveis e autopeças podem ficar mais caros para o consumidor dos Estados Unidos. O próprio Washington Post, ao noticiar as novas medidas, registrou que vários produtos foram excluídos das sobretaxas justamente para evitar disrupções econômicas mais severas.

Há ainda um dado politicamente relevante.

A ideia de que as medidas seriam necessárias para corrigir um enorme desequilíbrio comercial provocado pelo Brasil encontra dificuldade diante da própria relação econômica bilateral. O argumento apresentado por Lula é que os Estados Unidos acumulam superávits no comércio de bens e serviços com o Brasil há anos. O Washington Post também registrou que os norte-americanos mantiveram superávit comercial com o Brasil anualmente desde 2008.

Isso não significa que inexistam divergências comerciais legítimas entre os dois países. Existem e devem ser negociadas.

Significa apenas que a imagem de um Brasil economicamente predatório diante de um mercado norte-americano indefeso não descreve adequadamente uma relação muito mais complexa.

O ponto central passa a ser outro: como um país deve reagir quando divergências comerciais começam a ser conectadas a questões políticas e institucionais internas?

Submeter-se?

Romper relações?

Ou negociar preservando sua capacidade de decisão?

A terceira alternativa deveria ser a mais natural.

Multipolaridade não significa trocar uma dependência por outra

Parte do debate brasileiro costuma produzir uma falsa escolha geopolítica: ou o país se alinha aos Estados Unidos e ao chamado Ocidente, ou se aproxima da China, dos BRICS e de outras potências emergentes.

Esse enquadramento é pobre.

Um país com a dimensão econômica, territorial, ambiental e demográfica do Brasil não precisa escolher um tutor internacional. Precisa construir parceiros.

Essa diferença é fundamental.

Diversificar mercados não deveria significar transformar Pequim em substituta de Washington. Da mesma forma, defender relações históricas com Estados Unidos e Europa não exige adesão automática a todas as suas posições geopolíticas.

A política externa brasileira historicamente alcança seus melhores resultados quando percebe que autonomia não significa equidistância matemática entre potências, mas liberdade para negociar segundo os interesses brasileiros.

É nesse sentido que a expansão das relações com China, União Europeia, países asiáticos, África, América Latina e membros dos BRICS pode ser interpretada como gestão de risco econômico.

Uma empresa que depende de um único cliente encontra-se vulnerável. Um país também.

O próprio artigo de Lula apresenta números destinados a demonstrar essa mudança: enquanto o comércio bilateral com os Estados Unidos teria recuado nos primeiros seis meses de 2026, as trocas brasileiras com União Europeia e China avançaram.

Esse movimento não deveria ser celebrado como uma derrota norte-americana nem interpretado como uma vitória chinesa.

Deveria ser entendido como aquilo que é: diversificação.

Soberania econômica começa quando um país possui alternativas.

O Pix transformou-se em questão geopolítica

Talvez o aspecto mais interessante de toda essa controvérsia seja o fato de que uma tecnologia presente no celular de praticamente todo brasileiro tenha entrado em uma disputa internacional.

O Pix parece cotidiano demais para ser geopolítico.

Mas é justamente por isso que sua importância merece atenção.

Segundo o Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas já utilizaram o sistema, o equivalente a aproximadamente 80% da população brasileira. Em maio de 2026 foram realizadas mais de 7 bilhões de transações, movimentando cerca de R$ 3 trilhões.

O Pix não é uma moeda digital. Tampouco é simplesmente um aplicativo governamental.

Trata-se de uma infraestrutura de pagamentos instantâneos organizada e regulada pelo Banco Central, utilizada por instituições financeiras públicas e privadas.

Sua dimensão geopolítica decorre justamente de seu sucesso.

Durante décadas, grande parte das transações eletrônicas esteve associada a redes privadas de pagamentos, muitas delas controladas por corporações internacionais. O surgimento de uma infraestrutura pública capaz de permitir transferências instantâneas, de baixo custo e em enorme escala modifica esse mercado.

E interesses econômicos aparecem inevitavelmente quando mercados são modificados.

A própria investigação norte-americana citou os serviços brasileiros de pagamentos eletrônicos e sustentou que determinadas políticas beneficiariam um chamado "campeão nacional", prejudicando empresas norte-americanas concorrentes. O governo brasileiro rejeita essa interpretação e Lula respondeu diretamente ao tema no Washington Post, afirmando que o Pix não discrimina empresas dos Estados Unidos.

É legítimo que os Estados Unidos defendam suas empresas.

Assim como é legítimo que o Brasil defenda uma infraestrutura que se tornou parte essencial de seu sistema financeiro.

O problema começa quando a defesa de interesses empresariais estrangeiros pretende converter-se em poder para determinar como uma infraestrutura brasileira deve funcionar.

Essa fronteira precisa ser preservada.

A nova soberania passa pelo mundo digital

Durante muito tempo, soberania significava território, fronteiras, Forças Armadas, moeda e controle sobre recursos naturais.

Tudo isso continua importante.

Mas algo mudou.

No século XXI, um Estado também exerce soberania sobre dados, redes digitais, sistemas financeiros, inteligência artificial, infraestrutura de comunicação e plataformas que organizam uma parcela crescente da vida social.

A praça pública migrou parcialmente para servidores privados.

Empresas decidem quais conteúdos circulam, quais informações recebem visibilidade e quais algoritmos organizam a atenção de bilhões de pessoas.

Naturalmente, surge um enorme debate sobre os limites da regulação estatal.

E aqui é necessário fugir das simplificações.

Nem toda regulação é democrática simplesmente porque parte do Estado.

Nem toda decisão judicial está automaticamente imune à crítica.

Nem todo questionamento sobre moderação de conteúdo significa defesa das Big Techs.

Liberdade de expressão continua sendo fundamento indispensável de qualquer sociedade democrática.

Mas também parece difícil sustentar seriamente que empresas transnacionais possam operar dentro de um país sem obedecer às suas leis ou às decisões de suas instituições.

É possível — e necessário — discutir se determinadas decisões judiciais são proporcionais, se existem riscos de excesso regulatório, se regras de remoção de conteúdo precisam de maior transparência e quais salvaguardas devem proteger a liberdade de expressão.

Esse debate pertence à democracia brasileira.

O que não deveria ser normalizado é sua transferência para outro governo.

A crítica interna fortalece instituições. A tutela externa as enfraquece.

Há uma diferença enorme entre dizer "o Supremo Tribunal Federal pode estar errado" e dizer "um governo estrangeiro deve pressionar o Brasil para obrigar o Supremo Tribunal Federal a decidir de determinada maneira".

A primeira afirmação pertence à democracia.

A segunda envolve soberania.

2026 e a internacionalização da disputa brasileira

É nesse ponto que a discussão deixa definitivamente o campo comercial e entra na eleição presidencial.

A campanha de 2026 já possui forte dimensão internacional. Lideranças brasileiras mantêm relações abertas com governos e movimentos políticos estrangeiros, tanto à direita quanto à esquerda.

Isso, isoladamente, não constitui problema.

Partidos políticos dialogam internacionalmente há décadas.

O problema aparece quando alianças ideológicas externas começam a confundir-se com interesses nacionais.

O senador Flávio Bolsonaro, candidato presidencial, tem buscado interlocução internacional e lançou sua campanha cercado também por manifestações de apoio de lideranças estrangeiras, incluindo o presidente argentino Javier Milei e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.

Nada disso torna ilegítima sua candidatura.

Mas evidencia algo importante: a política brasileira de 2026 está profundamente conectada a redes políticas transnacionais.

O mesmo escrutínio deve, evidentemente, valer para relações internacionais construídas pelo campo governista.

A questão democrática relevante não é saber se determinado político brasileiro conversa com Washington, Buenos Aires, Pequim, Bruxelas ou qualquer outro centro de poder.

A questão é outra: quando interesses estrangeiros entram em conflito com interesses brasileiros, qual deles prevalece?

Essa deveria ser uma pergunta dirigida a todos os candidatos.

Patriotismo não pode ser propriedade de uma corrente política

Nos últimos anos, a palavra "patriotismo" tornou-se parte intensa da linguagem política brasileira.

Talvez seja hora de recuperar seu significado.

Ser patriota não deveria significar concordar com determinado governo.

Muito menos transformar discordâncias políticas em acusações de traição.

Um cidadão pode considerar Lula um bom ou mau presidente e continuar defendendo o Brasil diante de pressões externas.

Da mesma maneira, alguém pode apoiar a oposição e considerar legítimo que o Estado brasileiro proteja seus produtores, suas instituições e sua infraestrutura financeira.

Essa separação é essencial para uma democracia madura.

Governos passam.

O Estado permanece.

O país é maior do que qualquer presidente.

Por isso, seria preocupante naturalizarmos a ideia de que dificuldades econômicas produzidas contra o Brasil possam ser desejáveis simplesmente porque prejudicam eleitoralmente o governante de ocasião.

A lógica funcionaria para todos os lados.

Hoje alguém poderia desejar tarifas porque enfraquecem Lula.

Amanhã alguém poderia celebrar sanções estrangeiras porque enfraquecem um presidente de direita.

O resultado seria desastroso: adversários internos começariam a recorrer sistematicamente a potências estrangeiras para resolver disputas que deveriam ser decididas pela sociedade brasileira.

A democracia deixaria de ser uma competição entre projetos nacionais e se transformaria progressivamente em uma disputa pela obtenção de patrocinadores internacionais.

Essa estrada é perigosa.

Reciprocidade não significa hostilidade

Defender soberania também não exige transformar os Estados Unidos em inimigos.

Seria outro erro.

Brasil e Estados Unidos possuem uma relação econômica e diplomática histórica, empresas interligadas, investimentos bilaterais, intercâmbio científico e interesses estratégicos comuns.

Justamente por isso a deterioração da relação deveria preocupar os dois países.

A resposta madura não é submissão, mas tampouco bravata.

É negociação.

Reciprocidade significa simplesmente reconhecer que relações estáveis entre países independentes dependem de limites.

O Brasil não deveria determinar como os Estados Unidos organizam suas instituições.

Os Estados Unidos não deveriam determinar como o Brasil organiza as suas.

Podemos discordar.

Podemos negociar.

Podemos recorrer a mecanismos internacionais.

Podemos retaliar comercialmente dentro das regras existentes.

Podemos, sobretudo, continuar conversando.

Mas países soberanos negociam; não recebem ordens.

A verdadeira questão de 2026

Talvez seja essa a principal consequência política do artigo publicado por Lula no Washington Post.

Ele ajuda a deslocar a soberania do terreno abstrato para questões extremamente concretas.

Soberania é discutir quem controla a infraestrutura pela qual transferimos dinheiro.

É decidir quais regras devem obedecer as plataformas que organizam nossa comunicação.

É preservar capacidade de negociação diante de tarifas.

É impedir que dependência econômica de um único mercado reduza nossa autonomia.

É proteger eleições contra interferências externas — venham de onde vierem.

E soberania também significa reconhecer algo que frequentemente esquecemos: nenhuma potência estrangeira deve decidir qual projeto político é melhor para o Brasil.

Nem Washington.

Nem Pequim.

Nem qualquer outra.

Lula pode e deve ser criticado por seus adversários. Flávio Bolsonaro e qualquer outro candidato também.

Esse é precisamente o funcionamento normal da democracia.

Mas existe uma linha que não deveríamos atravessar.

A disputa legítima pelo governo não pode transformar a vulnerabilidade do país em estratégia eleitoral.

Quando interesses partidários e interesses nacionais entram em conflito, uma democracia politicamente madura deveria saber distinguir uns dos outros.

Talvez essa seja uma das grandes perguntas das eleições de 2026.

Não apenas quem governará o Brasil, mas que espécie de país pretendemos ser diante de uma ordem mundial cada vez mais disputada.

Um país pode ter parceiros sem ter tutores.

Pode negociar sem obedecer.

Pode cooperar sem se submeter.

Pode divergir dos Estados Unidos sem ser antiamericano e negociar com a China sem tornar-se dependente dela.

Esse talvez seja o verdadeiro significado da autonomia no século XXI.

No encerramento de seu artigo, Lula resumiu sua posição afirmando que o destino do Brasil pertence aos brasileiros.

Retirada a frase de qualquer contexto eleitoral ou partidário, sobra uma ideia que deveria ser quase consensual.

A alternância do poder pertence às urnas.

As divergências pertencem à democracia.

E o Brasil pertence aos brasileiros.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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