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Cultura

Cultura como direito, entretenimento como mercado: o caso Anitta

Álbum Equilibrium transforma capital simbólico em espaço para ancestralidade, diversidade e valorização do patrimônio brasileiro.

Maria Helena Japiassu

Maria Helena Japiassu

18/8/2026 15:30

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Durante mais de uma década, Anitta vendeu movimento. Movimento do corpo, da carreira, do mercado. A cantora conquistou o Brasil, a América Latina, o mercado norte-americano, os rankings mundiais, as redes sociais e os algoritmos. Poucos artistas brasileiros compreenderam tão profundamente as regras da economia da atenção quanto Larissa de Macedo Machado. Cantora, empresária, estrategista e gestora da própria marca, ela transformou a si mesma em um dos maiores produtos culturais de exportação do país. É justamente por isso que o ambicioso álbum "Equilibrium", seu mais recente projeto lançado em duas partes em 2026, desperta interesse para além da música. Afinal, após tantas conquistas, o que significa buscar equilíbrio e o que isso tem a ver com os direitos culturais?

A história de Anitta começa longe das grandes gravadoras. Criada em Honório Gurgel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, cantou ainda criança em um coral de igreja e encontrou no funk carioca sua primeira linguagem artística. A presença nas paradas de sucesso repercutiu também na ascensão social. Seu sucesso não pode ser explicado apenas pelo talento; resulta de uma rara combinação entre visão empresarial, domínio das plataformas digitais e capacidade de transformar referências populares em produtos de alcance internacional.

A trajetória de sucesso é também polêmica. A primeira década da carreira de Anitta foi marcada por uma tensão permanente entre reconhecimento artístico e controvérsia. Sua imagem pública foi amplamente associada à sensualidade, à ostentação e ao consumo, especialmente a partir de canções como Show das Poderosas, Bang, Vai Malandra e Envolver.

Estas características alimentam o contraste entre aqueles que entendem o seu trabalho como reprodutor de expectativas objetificadas sobre o corpo e a aparência feminina e aqueles que compreendem a autonomia de Anitta como um ato de empoderamento feminino. Para esta última corrente, a cantora representa a mulher que controla a própria narrativa, monetiza sua imagem e rompe com um mercado historicamente dominado por homens.

Em artigo anterior sobre o direito à informação e a cultura do tempo perdido, sustentei que a sociedade contemporânea é marcada pela aceleração permanente, pela hiperconectividade e pela transformação do tempo em ativo econômico, fenômenos que Byung-Chul Han reúne sob a noção de sociedade do desempenho. Em A Sociedade do Cansaço, o filósofo demonstra como o capitalismo contemporâneo desloca a exploração para o próprio indivíduo, que passa a administrar a si mesmo em busca de produtividade, visibilidade e sucesso. Poucas artistas brasileiras ilustram tão bem essa lógica quanto Anitta. Sua carreira foi construída sobre reinvenção permanente, expansão internacional e uma notável capacidade de transformar cada conquista em impulso para a seguinte.

Essa reflexão dialoga com outro argumento que desenvolvi ao analisar a cultura da brandização pessoal a partir do caso Neymar Jr.: na economia digital, pessoas tornam-se marcas, e tempo, imagem e identidade convertem-se em ativos econômicos. Anitta talvez seja uma das expressões mais bem-sucedidas desse novo capitalismo cultural: cantora, empresária e marca global. É justamente por isso que Equilibrium desperta interesse. Sem abandonar o empreendedorismo que a projetou internacionalmente, o álbum desloca sua narrativa para valores como ancestralidade, espiritualidade, diversidade cultural, pertencimento e patrimônio cultural brasileiro. Mais do que uma mudança estética, esse movimento sugere que uma marca construída sob a lógica da performance pode também colocar seu capital simbólico a serviço do reconhecimento da diversidade cultural e da valorização da cultura brasileira.

No álbum Equilibrium, a cantora segue o seu percurso de sucesso, mas vai além do seu estereótipo, ampliando o seu repertório simbólico. Em um primeiro momento, o álbum surpreende pelo retorno da cantora às referências musicais brasileiras. Entram em cena a alusão à espiritualidade, à ancestralidade, às religiões de matriz africana, à natureza, à bossa nova, ao samba, ao reggae, ao funk carioca, à música popular brasileira e a artistas de diferentes gerações. Canções como "Mandinga", "Nanã", "Caminhador", "Ouro" e "Varias Quejas" revelam o interesse da artista em dialogar com o patrimônio cultural brasileiro.

A sua identidade antropofágica, que antes bebia das culturas hispano-americana e pop norte-americana, retorna agora mais rica e plena de brasilidade ao mainstream da indústria musical.

Equilibrium troca a lógica da performance permanente por ancestralidade, pertencimento e diversidade cultural.

Equilibrium troca a lógica da performance permanente por ancestralidade, pertencimento e diversidade cultural.Reprodução/Instagram/@anitta

Essa mudança merece atenção porque coincide com a valorização da dimensão imaterial do patrimônio cultural brasileiro, levando ao palco a riqueza das múltiplas identidades que compõem a diversidade cultural do país. Ao levar esses elementos para o centro de um projeto pop de alcance internacional, Anitta contribui para ampliar a visibilidade e o reconhecimento dos grupos formadores do país, objetivo também valorizado pela Constituição Federal brasileira de 1988, em seu artigo 216. Para além dos interesses particulares da cantora, pode-se dizer que a sua popularidade e os mecanismos do mercado que a absorvem servem para promover a dimensão da diversidade cultural e colocar em circulação outras narrativas sobre o Brasil.

Neste ponto, é possível ver convergências de intenções entre o álbum Equilíbrio e os direitos culturais. A Constituição brasileira e a Convenção da UNESCO sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais lembram que cultura não é apenas entretenimento ou mercadoria, mas também produz pertencimento, identidade e reconhecimento. Nesse sentido, artistas privados podem desempenhar um papel relevante na promoção da diversidade cultural, sendo agentes que também participam da construção do espaço público. Esta reflexão, no entanto, não é livre de ambiguidades. Equilibrium permanece como produto da indústria cultural e, por essa razão, a defesa dos direitos humanos, da sustentabilidade, da espiritualidade e da diversidade cultural não deixa de ser um produto absorvido por interesses de mercado.

Para além do reencontro da artista com o patrimônio cultural brasileiro, Equilíbrio traz também uma nova força simbólica e uma dimensão crítica em relação à sociedade do desempenho. Aqui vem o ponto de virada da obra da cantora. Anitta parece frear-se em um momento reflexivo e de defesa de territórios simbólicos, identidade, pausa, espiritualidade, ancestralidade, pertencimento, natureza e tempo interior. Não se trata de abandonar o trabalho ou o mercado, mas de questionar um modelo de sucesso que exige disponibilidade permanente e transforma o próprio sujeito em empresa. Para além de significar moderação, o álbum explicita mensagens de resistência à lógica da produtividade infinita.

É justamente por isso que Equilibrium parece representar um deslocamento simbólico tão significativo. O eixo da obra parece mover-se da ostentação e da performance permanente para a busca de equilíbrio, não como rejeição do empreendedorismo ou do mercado, mas como tentativa de lhes atribuir novos sentidos. Se antes a marca "Anitta" era percebida sobretudo como expressão de sucesso, visibilidade e expansão, em Equilibrium ela passa a funcionar também como veículo de valorização do patrimônio cultural brasileiro e de promoção da diversidade cultural. Permanecem, evidentemente, as contradições de uma indústria que continua transformando artistas em marcas e a cultura em mercadoria. Ainda assim, o álbum convida a refletir se o enorme capital simbólico acumulado por uma artista global pode também ser colocado a serviço do reconhecimento cultural, dos direitos humanos e da construção de um entretenimento mais consciente de sua responsabilidade social.

Talvez a maior contribuição de Equilibrium não esteja em oferecer respostas, mas em deslocar perguntas. A trajetória de Anitta revela as ambiguidades de uma indústria cultural que transforma artistas em marcas, identidades em ativos econômicos e visibilidade em capital, sem que isso elimine sua capacidade de produzir cultura, reconhecimento e novos imaginários sociais. Ao reposicionar sua narrativa em torno da ancestralidade, da diversidade cultural, da espiritualidade e do patrimônio brasileiro, a artista não abandona o mercado nem renega o empreendedorismo que marcou sua carreira; propõe, antes, uma reflexão sobre os valores que orientam o sucesso na sociedade contemporânea. Em um tempo marcado pela aceleração, pela superexposição e pela monetização da própria identidade, Equilibrium sugere que o verdadeiro equilíbrio talvez não consista em escolher entre mercado e cultura, mas em compreender que a liberdade artística também pode servir à valorização da diversidade cultural, dos direitos humanos e da construção de um entretenimento mais consciente de sua responsabilidade social.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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