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Eleições 2026

Augusto Cury e a nova fronteira da manipulação eleitoral

O crescimento extraordinário do candidato mostra que a democracia terá de aprender a distinguir mobilização real de mobilização artificialmente ampliada.

Marcelo Senise

Marcelo Senise

3/9/2026 15:00

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O crescimento de Augusto Cury nas redes sociais tornou-se um dos fenômenos mais intrigantes desta eleição. Milhões de novos seguidores em poucos dias, aumento expressivo das buscas por seu nome, avanço nas pesquisas e uma quantidade impressionante de influenciadores de diferentes segmentos falando positivamente sobre sua candidatura. Inevitavelmente surgiram suspeitas sobre uso de robôs, coordenação de perfis e eventual artificialização desse movimento.

Antes de qualquer conclusão, porém, é preciso separar investigação de acusação. Cury já era um personagem nacionalmente conhecido, acumulava milhões de seguidores antes da eleição e possui uma linguagem capaz de dialogar com um eleitorado cansado da polarização. Há motivos concretos para acreditar que uma parcela importante desse crescimento seja genuína. Da mesma forma, influenciadores têm todo o direito de manifestar preferência eleitoral, desde que respeitadas as regras aplicáveis à propaganda.

O problema começa quando insistimos em tratar organicidade e artificialidade como fenômenos necessariamente excludentes. A política digital de 2026 pode estar revelando algo muito mais sofisticado: um movimento verdadeiro pode receber amplificação artificial sem deixar de ser verdadeiro. A tecnologia não precisa fabricar uma onda inexistente. Pode simplesmente reconhecer uma onda real, acelerá-la e aumentar a percepção de sua dimensão.

Uma análise do Sentinela Eleitoral sobre o ecossistema de Augusto Cury produziu justamente um resultado ambíguo. Entre as contas que comentavam suas publicações, 14% foram sinalizadas nas faixas de risco comportamental, o menor percentual entre oito ecossistemas políticos pesquisados. Em uma amostra de seguidores, entretanto, o índice chegou a 24%. Entre os seguidores sinalizados, 46% não possuíam qualquer publicação, contra apenas 2% entre os perfis classificados como humanos.

Esses números não autorizam afirmar que seguidores tenham sido comprados ou que o crescimento do candidato tenha sido fabricado. A pesquisa sequer isolou especificamente os milhões de novos perfis incorporados durante a expansão recente. Além disso, entre os comentaristas, as contas sinalizadas apresentavam proporcionalmente menos apoio a Cury do que os usuários classificados como humanos, o que enfraquece a hipótese simplista de uma tropa automatizada criada para elogiá-lo.

O dado mais importante talvez seja outro: audiência aparente e audiência mobilizada podem ser coisas diferentes.

Isso deveria interessar diretamente às instituições brasileiras. Durante anos, concentramos o debate sobre integridade eleitoral em fake news, disparos em massa, propaganda irregular e, mais recentemente, inteligência artificial generativa e deepfakes. Tudo isso continua relevante. Mas existe uma camada anterior e mais silenciosa que ainda compreendemos pouco: a possibilidade de artificializar os sinais sociais utilizados pelo cidadão para interpretar aquilo que está acontecendo na sociedade.

Seguidores, curtidas e influenciadores funcionam como sinais de força política e podem alterar a percepção do eleitor mesmo sem disseminar conteúdo falso.

Seguidores, curtidas e influenciadores funcionam como sinais de força política e podem alterar a percepção do eleitor mesmo sem disseminar conteúdo falso.Felipe Marques/Zimel Press/Folhapress

Seguidores, curtidas, comentários, compartilhamentos e influenciadores não representam apenas métricas. Eles comunicam popularidade, força, rejeição, relevância e tendência. Quando centenas de pessoas aparentemente independentes começam a falar sobre um candidato, o eleitor não enxerga somente centenas de vídeos. Pode interpretar aquilo como uma descoberta coletiva. Quando um perfil ganha milhões de seguidores, o número passa a funcionar como prova social de importância.

Essa questão vai além da desinformação. Uma informação pode ser verdadeira e sua circulação artificialmente ampliada. Uma opinião pode ser legítima e sua repetição automatizada. Uma candidatura pode estar realmente crescendo e, simultaneamente, parecer crescer mais depressa do que cresceria espontaneamente. Não é necessário falsificar o conteúdo. Pode ser suficiente alterar a dimensão social percebida ao redor dele.

É o que temos chamado de integridade cognitiva. O problema não está apenas em saber se aquilo que o eleitor lê é verdadeiro, mas também se os sinais sociais utilizados por ele para interpretar o ambiente são autênticos. A democracia precisa proteger a mobilização política, inclusive a mobilização organizada. Mas precisa aprender a identificar a simulação de mobilização.

Essa distinção será cada vez mais difícil. A primeira geração de robôs políticos era relativamente rudimentar: contas vazias, comportamento repetitivo, frases idênticas, atividade mecânica. A nova geração tende a ser mais plausível. Agentes automatizados ou híbridos podem construir histórico, simular comportamento humano e atuar de maneira suficientemente convincente para se misturar aos cidadãos reais.

O bot tradicional procurava parecer muitos. O neurobot procura parecer alguém.

É justamente por isso que o debate deveria chegar também ao Congresso Nacional. Não para criminalizar apoio político, limitar manifestações individuais ou transformar qualquer mobilização intensa em suspeita. O desafio é construir transparência, mecanismos de auditoria e parâmetros capazes de distinguir participação legítima de estruturas destinadas a fabricar artificialmente a aparência de participação.

O caso Cury talvez termine demonstrando que estamos diante de uma extraordinária mobilização genuína. Pode também revelar que alguma camada tecnológica coexistiu com essa onda. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

Mas a pergunta institucional permanecerá.

Nas próximas eleições, talvez não seja suficiente saber quem está conquistando mais eleitores. Precisaremos saber também quem consegue fabricar com maior eficiência a percepção de que está conquistando mais eleitores.

Porque, quando parecer maioria ajuda alguém a se tornar maioria, a autenticidade da percepção pública deixa de ser um problema das redes sociais e passa a ser uma questão democrática.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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