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Educação

O espaço e a relevância da matemática nos planos dos candidatos à presidência e aos governos estaduais

O sistema educacional brasileiro pode até conseguir sustentar razoavelmente a alfabetização matemática inicial, mas perde terreno progressivamente à medida que o currículo evolui de aritmética para álgebra e geometria mais complexas.

Danilo Dalmon

Danilo Dalmon

Laura Angélica

Laura Angélica

22/9/2026 18:00

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Já está mais que em tempo de a Matemática ser apresentada nos planos das candidaturas políticas no Brasil de forma consistente e como um dos compromissos de peso assumidos com a sociedade na educação. Nossos resultados na área são ruins, muito aquém do desejável - e faz tempo. A distância entre a média nacional do Sistema de Avaliação da Educação Brasileira (SAEB) 2025 e o patamar adequado de acordo com a nota técnica do Todos pela Educação (TPE) cresce sistematicamente ao longo da trajetória escolar: zero pontos no 5º ano; 43 no 9º ano e 81 no Ensino Médio. O sistema educacional brasileiro pode até conseguir sustentar razoavelmente a alfabetização matemática inicial, mas perde terreno progressivamente à medida que o currículo evolui de aritmética para álgebra e geometria mais complexas - justamente as competências exigidas no Ensino Médio e na vida adulta.

Levantamentos realizados pelo Instituto Reúna analisaram os planos de governo das candidaturas à presidência e aos governos estaduais do país e registrados no Tribunal Superior Eleitoral a fim de encontrar qual espaço e relevância a aprendizagem matemática recebe nos documentos.

É preciso expor as ideias para a sociedade, debater com adversários, colocar o tema em destaque.

É preciso expor as ideias para a sociedade, debater com adversários, colocar o tema em destaque. Magnific

Na esfera das unidades da Federação, dentre todos que protocolaram seu plano de governo (194 candidaturas) apenas 32% mencionam explicitamente a temática no documento. O quantitativo de planos é baixo (62), mas abrange os 27 estados do país. Ou seja, a Matemática ainda não é uma pauta universal entre os candidatos a governador - ainda que, quando apareça nos textos, a abordagem seja basilar. Considerando o universo de 62 planos, 79% deles apresentaram pelo menos uma proposta específica para melhorar a aprendizagem matemática e 48% propostas concretas para a Matemática ou a tratam de forma prioritária. O estudo ainda mostra que 17 dos 27 estados possuem, pelo menos, uma candidatura que trata a aprendizagem matemática como prioridade explícita (somente 63% no país). Também foi analisada a centralidade do tema nas propostas - a categoria observa se a Matemática ocupa um espaço pontual/periférico na arquitetura da política educacional do plano ou se há um compromisso ou estratégia própria. Considerando os 27 estados, 22 têm pelo menos uma candidatura com 'centralidade alta ou 'muito alta, sendo 10 com centralidade 'muito alta - Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Mato Grosso, Pernambuco, Piauí, Paraná, Rondônia e São Paulo) e 12 com 'centralidade alta (Acre, Alagoas, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Tocantins).

No que diz respeito ao pleito presidencial, a Matemática ainda também não é pauta universal entre os candidatos nem figura como prioridades centrais nos planos dos dois primeiros colocados nas pesquisas eleitorais. No geral, o tema aparece de forma superficial nos documentos, com exceção de 3/13 candidatos. Entre os 13 candidatos analisados, somente cinco deles assinam seu plano com alguma incorporação substantiva da Matemática e os outros não passaram pelo primeiro filtro de palavra-chave. Nos cinco planos que entram na análise, a Matemática aparece principalmente vinculada a baixo desempenho, proficiência, aprendizagem adequada e qualidade da Educação Básica. Em três deles, o tema chega a ser apresentado como prioridade explícita; nos outros dois, permanece associado ao diagnóstico e à agenda geral de aprendizagem, sem política própria.

As gestões eleitas para governar a partir de 2027 precisarão organizar metas específicas para matemática, traduzindo o estabelecido no Plano Nacional de Educação (PNE) para os próximos dez anos, bem como os compromissos previstos no programa federal Toda Matemática, em prioridades, metas intermediárias, orçamento, apoio técnico e mecanismos de acompanhamento. Só desta maneira é que a teoria deixará de ser referência geral para orientar decisões reais e práticas de técnicos do Ministério da Educação (MEC), secretarias estaduais, escolas e educadores. Assim, é de se esperar que as equipes das candidaturas se ocupem, durante os movimentos de campanha, com o que é necessário e possível fazer para ampliar a aprendizagem matemática e reduzir desigualdades de raça, renda, gênero e território, considerando sua realidade e responsabilidade no regime de colaboração, em cada etapa da escolaridade básica, inclusive prevendo ações para recuperar a aprendizagem dos estudantes de pior desempenho nos anos finais e ensino médio. É preciso expor as ideias para a sociedade, debater com adversários, colocar o tema em destaque.

Evidentemente, os resultados de aprendizagem não aparecerão em uma única gestão, mas a experiência da alfabetização em língua portuguesa no Brasil, em particular a do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, mostra que prioridades nacionais ganham força quando combinam metas claras, coordenação entre os entes federativos, apoio técnico e continuidade. A lição não é replicar modelos, mas reconhecer que nenhuma política educacional estruturante se sustenta quando cada governo recomeça do zero. Se as próximas gestões não assumirem esse compromisso, o custo da inércia seguirá atravessando os indicadores escolares. Cada estudante que não desenvolve conhecimentos matemáticos perde oportunidades de compreender o mundo, participar plenamente da vida pública e decidir seu futuro no mercado de trabalho. O país, por sua vez, perde potencial humano, produtividade e capacidade de inovação.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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