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Educação
5/10/2026 18:00
As cotas ampliaram o acesso à universidade, mas ela perde parte do sentido quando o estudante não encontra condições para chegar ao diploma. A ampliação do acesso colocou mais pessoas no ensino superior sem resolver, na mesma medida, as dificuldades que podem levá-las a abandonar o curso. É nesse intervalo entre entrar e se formar que a evasão universitária deixa de ser apenas uma estatística e se torna uma urgência.
Supõe-se que o vestibular seja um funil capaz de nivelar o conhecimento necessário para habitar a universidade. Com a expansão do ensino superior, as universidades passaram a receber estudantes com trajetórias escolares mais diversas. O Pisa 2025, divulgado em setembro pela OCDE, mostra que a suposição nunca se sustentou: o funil não nivela nada, apenas seleciona quem já chegou pronto e deixa à universidade - sem estrutura - lidar com quem não chegou.
É necessário reestruturar o primeiro ano da vida acadêmica brasileira, com um ciclo básico de nivelamento em leitura, escrita e raciocínio lógico-matemático, para que a ampliação do acesso se traduza em diplomas concluídos.
O Pisa 2025 avaliou estudantes de 15 anos em 91 países: o Brasil marcou 377 pontos em matemática e 408 em leitura, abaixo das médias da OCDE (469 e 466). Apenas 28% dos adolescentes brasileiros alcançam o nível básico em matemática, ante 65% na OCDE, e praticamente nenhum chega aos níveis mais avançados, contra 8% nos países ricos. Em leitura, quase metade não interpreta um texto de complexidade moderada. O atraso em matemática equivale a cerca de 4,6 anos de escolaridade em relação à OCDE. Esse problema não nasce na universidade: ela o herda de uma educação básica que não entrega o essencial.
O mais revelador, porém, é o corte por renda. Os estudantes brasileiros mais ricos pontuam em leitura no nível de Estónia e Coreia do Sul, o suficiente para colocar o país entre os cinco primeiros do mundo nesse recorte, mas, ao incluir os mais pobres, o Brasil despenca para o 52º lugar entre 81 países. É esse segundo grupo, o da escola pública, que a Lei de Cotas quis trazer à universidade e que chega com a maior defasagem em leitura crítica e matemática instrumental. A reserva de vagas, sozinha, não corrige as defasagens acumuladas na educação básica.
Há quem leia essa proposta com desconfiança. Parte do ambiente universitário teme que um "ciclo básico de nivelamento" seja eufemismo para rebaixar o rigor acadêmico; outra temerá que falar em defasagem sirva de pretexto para questionar as cotas, como se o problema fosse de quem entra e não de como o país educa. As duas leituras erram pelo mesmo motivo: tratam nivelamento como rótulo de grupo, quando o Pisa mostra que ele deveria ser oferta universal. A defasagem atinge a maioria dos estudantes, cotistas ou não. O módulo não deve ser seletivo por cor ou renda, porque o atraso medido pelo Pisa não escolhe cota, escolhe classe social, e classe social não é sinônimo de mérito.
A proposta concreta: que universidades com forte presença de bolsistas e cotistas ofereçam, já no primeiro semestre, um ciclo básico obrigatório e não seletivo de nivelamento, com foco em produção de texto, leitura crítica e matemática instrumental, articulado a tutoria entre pares, apoio psicopedagógico contínuo e flexibilização de carga horária para quem trabalha. Não é uma cota adicional, é a infraestrutura de permanência que falta entre o Pisa e o diploma — e custa uma fração do que custa o aluno que abandona no terceiro semestre. As cotas abriram a porta trancada; falta fechar a distância que o Pisa mede em anos, porque diploma que não se conclui não liberta ninguém, e liberdade, para o Livres, só é liberdade quando se consegue percorrê-la até o fim.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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