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Eleições 2026
22/10/2026 11:00
No segundo turno, a escolha não é apenas entre dois candidatos. É entre projetos de país — e entre duas maneiras de tratar aquilo que o Brasil tem de mais valioso: seus territórios, sua biodiversidade e a capacidade de decidir o próprio futuro.
Desde 2023, o governo Lula homologou 20 terras indígenas, que somam cerca de 2,5 milhões de hectares, e criou o Ministério dos Povos Indígenas. Na Amazônia, o desmatamento caiu pela metade em 2025 em relação a 2022, segundo o Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Na Terra Yanomami, operações federais reduziram em 98,77% a área de garimpo ativo entre março de 2024 e janeiro de 2026. São resultados concretos, embora não encerrem a tarefa: ainda há territórios esperando reconhecimento e comunidades sob pressão.
Esses avanços não nasceram de uma canetada isolada. Dependem de órgãos públicos, fiscalização, orçamento e participação dos povos afetados. A continuidade importa porque políticas interrompidas podem levar anos para serem reconstruídas — enquanto invasões, desmatamento e violência avançam depressa.
O histórico de Flávio Bolsonaro oferece motivos para preocupação. Entre 2019 e 2022, o governo de seu pai não demarcou nenhuma terra indígena; no mesmo período, o desmatamento acumulado na Amazônia passou de 45 mil quilômetros quadrados, segundo levantamento publicado pela Agência Brasil. Como senador, Flávio apresentou projetos para extinguir ou reduzir proteções ambientais, entre eles propostas que atingiam a Estação Ecológica de Tamoios. Também defendeu o marco temporal. Em 2023, durante a votação do projeto sobre o tema no Senado, ele estava em missão parlamentar e não registrou voto — um dado que deve ser dito com precisão.
O programa de Flávio promete cortar ao menos dez ministérios, mas não informa quais. Não posso afirmar que o Ministério dos Povos Indígenas será extinto; posso dizer que, se a redução for executada sem compromisso explícito com a política indigenista, a pasta fica sob risco. Seu fim, ou seu esvaziamento, retiraria dos povos indígenas um espaço próprio de formulação e coordenação de políticas públicas.
Há ainda uma pergunta sobre soberania. Em declarações nos Estados Unidos, Flávio apresentou o Brasil como solução para a dependência americana de minerais críticos e falou em parcerias estratégicas de longo prazo sobre terras raras. Parcerias podem ser legítimas. O risco está em negociar recursos estratégicos sem transparência, agregação de valor no país, proteção ambiental e consulta aos povos cujos territórios podem ser afetados. Soberania não é fechar as portas ao mundo; é não aceitar que outros decidam o destino da nossa riqueza.
Terras raras são minerais importantes para tecnologias como baterias, eletrônicos e equipamentos de defesa. Tratá-las como simples mercadoria de exportação pode repetir uma velha história: o Brasil fornece matéria-prima, outros controlam a tecnologia e os danos ficam aqui.
Uma parte dos minerais críticos, como terras raras, tântalo e tungstênio, é essencial para fabricar componentes de sistemas militares — de ímãs usados em equipamentos de defesa a aeronaves, radares e tecnologias de orientação. É por isso que os Estados Unidos demonstram tanto interesse em garantir acesso a esses recursos: o próprio Departamento de Defesa afirma que eles são necessários para seus armamentos e busca reduzir a dependência de cadeias de fornecimento concentradas na China. O Brasil pode cooperar com outros países, mas precisa fazê-lo com transparência, proteção ambiental e agregação de valor aqui, para que nossas riquezas não sirvam apenas aos interesses estratégicos de outras nações.
A continuidade do projeto em curso não significa que tudo esteja resolvido. Significa preservar instituições e resultados que permitem avançar. Para os povos indígenas, para o clima e para a soberania nacional, o segundo turno é também uma decisão sobre quem participa das escolhas — e quem fica com seus custos.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.
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