Publicidade
Publicidade
Receba notícias do Congresso em Foco:
TECNOLOGIA
3/11/2026 | Atualizado às 13:53
O debate sobre a soberania tecnológica no Brasil alcançou um momento decisivo para as instituições do país. Ao defender a criação de uma inteligência artificial brasileira e a atração de data centers para o território nacional, em seu discurso de vitória, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou em pauta uma discussão crucial, a de que o Brasil reúne plenas condições de ocupar uma posição de destaque no avanço dessa tecnologia, assegurando a governança institucional indispensável à proteção do interesse público.
Longe de ser aspiração abstrata, a tecnologia adaptada à nossa realidade já apresenta avanços práticos concretos. Construir uma IA genuinamente soberana exige ir além da tradução de ferramentas estrangeiras: demanda compreender as nuances da língua portuguesa, referências culturais, particularidades sociais, a legislação vigente e a dinâmica operacional de instituições brasileiras. Torna-se evidente, portanto, que a simples tradução de uma tecnologia estrangeira não basta para que, de fato, ela esteja preparada para o mercado brasileiro. É necessário que esteja inserida diretamente no contexto do nosso país.
Neste cenário, iniciativas sólidas avançam no país. Um dos marcos dessa agenda é a parceria firmada entre o Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados) e a MeetKai Brasil, sob a Lei das Estatais (Lei nº 13.303/2016), para desenvolver modelos de linguagem voltados à administração pública, assegurando transferência de conhecimento, governança de dados e custódia em território nacional. Outro aspecto fundamental desse modelo reside na estrutura de financiamento: o projeto é viabilizado com investimentos 100% privados, sem qualquer aporte, desembolso, subsídio ou assunção de risco financeiro por parte do governo federal. O Serpro seguiu todas as recomendações do TCU: precedeu a um chamamento público, no qual participaram big techs e outras empresas menores, criou comissão de técnicos do mais alto nível e decidiu amparado em motivação consistente, dando publicidade de cada ato. Em um momento global em que o financiamento de IA encarece e levanta dúvidas sobre a capacidade dos orçamentos públicos de carregar sozinhos o custo e o risco dessa corrida tecnológica - preocupação legítima recentemente retratada em debates econômicos sobre a conta da infraestrutura digital -, o modelo adotado traz uma resposta consistente e protetiva ao contribuinte.
Com o contrato formalmente celebrado em 27 de julho de 2026, e com a implementação já realizada e em execução, o procedimento é atualmente objeto de acompanhamento junto do Tribunal de Contas da União (TCU), suscitados no decurso do processo de seleção. O exercício fiscalizador dos órgãos é legítimo e constitui pilar do Estado de Direito.
A experiência da gestão pública demonstra a importância de ponderar com serenidade os reflexos práticos de eventuais suspensões temporárias em iniciativas em curso. Interromper a trajetória de um projeto tecnológico que já conta com entregas concretizadas comporta impactos substanciais: desarticula equipes de elevada especialização, desacelera etapas planejadas e pode sujeitar a iniciativa ao desgaste da obsolescência acelerada perante a rápida evolução do setor. O dever de julgar e considerar o consequencialismo hoje decorre de lei expressa: a lei da Segurança Jurídica.
Essa análise evidencia três dimensões determinantes para a agenda de negócios, inovação e estabilidade institucional no Brasil: os limites de atuação dos órgãos de controle sobre empresas públicas que operam em regime concorrencial, a necessária deferência às decisões técnicas e o impacto financeiro e estratégico decorrente da paralisação de projetos de ponta.
Interromper essa trajetória e colocar em compasso de espera um projeto em estágio avançado, gestado por mais de ano no Serpro e há quase seis meses recebendo investimentos do parceiro privado, além da consumação da cessão do código fonte em português, por escritura pública, e outras entregas concretas, produz exatamente o mesmo resultado equivalente ao de um cancelamento definitivo. A proposta de construir uma inteligência artificial brasileira abre uma oportunidade que vai além da tecnologia. Trata-se de deliberar o papel que o Brasil almeja assumir em uma indústria que está transformando a economia e a sociedade. A infraestrutura deve convergir com a pesquisa científica, formação de profissionais e participação das empresas. É essa sinergia estratégica que pode viabilizar os investimentos em inteligência artificial, novos modelos de negócios e soluções desenvolvidas a partir das demandas do país.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para redacao@congressoemfoco.com.br.